Apagões e a falta de sorte Anteriores A falta de sorte renitente que, segundo autoridades do setor elétrico, é a causa dos últimos apagões, desafia as leis das probabilidades e a paciência dos con …

Apagões e a falta de sorte

Anteriores

A falta de sorte renitente que, segundo autoridades do setor elétrico, é a causa dos últimos apagões, desafia as leis das probabilidades e a paciência dos consumidores. É preciso dar outras explicações à sociedade brasileira. O primeiro passo para consertar as óbvias falhas é reconhecer os erros do processo.


Aqueles que trabalharam no setor sabem que, paralelamente à privatização, foi realizado um desmonte das equipes de planejamento existentes no período estatal. Apesar de toda a influência política na gestão dessas empresas, altamente prejudicial ao desempenho, reconheça-se, havia uma lógica que buscava o atendimento da demanda de energia ao menor custo e com a melhor confiabilidade possível. Equipes compostas de técnicos de todos os estados e de todas as áreas (geração, transmissão e distribuição) discutiam projetos e critérios para a expansão do sistema. Muitas dessas atividades acabaram e outras foram atrofiadas. Seria difícil imaginar um enxugamento de pessoal do porte realizado no período da privatização, sem algum tipo de conseqüência pela interrupção desse processo.


A experiência internacional em sistemas com grande semelhança ao brasileiro, indicam que nenhum país realizou uma privatização furiosa como a imaginada pelo governo. O Canadá permanesce com a estatal Hydro-Quebec funcionando perfeitamente em um ambiente competitivo. O sistema Noroeste americano, também composto de hidroelétricas de grande porte, além de manter as usinas em poder do estado (exército) controlam todo o sistema de transmissão. No sul, a Tenesse Valley Authority, empresa estatal federal, é responsável pelo atendimento a uma área equivalente ao Nordeste brasileiro. Esses sistemas não sofrem problemas de suprimento de energia. Ao contrário, a Califórnia, estado onde se implantou a privatização feroz, os apagões se sucedem e o preço de energia já atingiu US700/MWh.


O que está ocorrendo no setor elétrico brasileiro hoje nada mais é do que a colheita daquilo que foi plantado. Hoje, as soluções não são mais adotadas com a antecedência necessária a um serviço público como a energia elétrica. Seguem mais a lógica de curto prazo tão comum aos "modernos" capitais. A verdade é que os investidores privados não supriram a ausência do investimento estatal. Nos últimos 5 anos, para um crescimento da demanda de 5% ao ano, cerca de 18 000 MW de usinas novas deveriam ter sido inauguradas. Apenas 10 000 MW novos foram disponibilizados. A maior parte de empresas estatais. O cenário para o futuro não muda muito, pois o plano emergencial de construção de térmicas a gás é um sintoma de que a privatização do setor não vai bem. O sistema de transmissão, que no Brasil desempenha um papel importantíssimo na otimização energética, está com várias ampliações atrazadas, sendo a mais problemática a superação de limites de tranferência de energia entre as regiões sul e sudeste. Devido à essa limitação pode-se ter perdido uma capacidade de armazenamento equivalente a uma usina de 2000 MW.


Hoje colhemos os frutos dessa forma atabalhoada de realizar uma privatização que primou por destruir as organizações existentes. Esse desmonte, desnecessário ao processo, está baseado na crença de que "tudo o que é estatal é ruim e tudo o que é privado é bom". Tão subdesenvolvido quanto esse tipo de pensamento só o "tudo o que é privado é ruim, tudo que é estatal é bom". Urge que o governo entenda que em um país carente e desigual como o Brasil, ainda existe um papel ativo para o Estado empreendedor. Encontramos exemplos no estado Francês, no Norueguês e, por incrível que pareça, no Americano.


É preciso repensar as privatizações de FURNAS, CHESF, ELETRONORTE e do que restou da CESP. Essas empresas podem assumir um papel importante na expansão do sistema uma vez que são lucrativas e podem alavancar capital e parceria para os empreendimentos.


É como um processo psicanalítico. O primeiro passo para solucionar problemas é admitir seus erros. Enquanto o governo não se deitar no divã e contar todos seus tropeços, estará se comportando como um adolescente petulante e arrogante. É preciso amadurecer.


Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *