Quem garante que alguns setores não estariam aumentando sua produção e fazendo estoque? Essa é uma maneira de "estocar" energia elétrica, que em outubro será um produto raro.
Indústrias correm para driblar o racionamento
De São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Porto Alegre e Belo Horizonte
A indústria brasileira está correndo atrás de alternativas para contornar o risco do racionamento. A cadeia produtiva de automóveis é um exemplo. As montadoras estão conversando com seus fornecedores para evitar falta de peças. Como exemplo, a Fiat decidiu desligar o luminoso que ostenta sua marca em Minas Gerais. Os fabricantes de autopeças estão negociando com fornecedores de geradores de energia para evitar paralisações na produção.
PqU e Copene estão trocando a energia elétrica por térmica. Aproveitando melhor os vapores produzidos nas centrais petroquímicas, as duas empresas estão usando as turbinas que normalmente só eram utilizadas em horários de pico.
A Companhia Vale do Rio Doce estuda suspender temporariamente as atividades de suas empresas de ferro ligas (Companhia Paulista de Ferro Ligas e Sibra) e da Valesul caso o governo decrete racionamento de energia. A estratégia da mineradora, neste caso, será manter funcionando a área de minério de ferro e sete usinas pelotizadoras localizadas no Espírito Santo.
Em Recife, a indústria de refrigerantes Frevo decidiu, desde o fim de março, paralisar a produção durante duas horas por dia, das 19h às 21h. A utilização da energia eólica foi a saída encontrada pelo empresário Ricardo Essinger, da indústria química Cal-Megaó, para tentar minimizar os efeitos de um possível racionamento.
A Souza Cruz pretende reduzir em 6% seus gastos mensais com energia elétrica com um campanha de conscientização de seus funcionários. A idéia é minimizar o aumento dos custos que um racionamento irá provocar, já que terá de utilizar um maior número de vezes os geradores a óleo diesel que até hoje só eram ligados em situações de emergência.
O Grupo Sendas, dono de uma rede de supermercados no Rio e interior do Estado, quer economizar 22% de seu consumo com a substituição do ar-condicionado convencional, movido a energia elétrica, por um sistema a base de gás natural. (Valor Econômico 20/4)
Cataguazes-Leopoldina negocia com clientes a redução de fornecimento
Francisco Góes, Do Rio
A Cia. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina começou conversações com clientes industriais para renegociar contratos de venda de energia elétrica, conforme previsto por resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) publicada nesta semana no Diário Oficial da União. A medida, que faz parte do plano do governo para reduzir o consumo e aumentar a oferta de energia elétrica, permite às concessionárias negociar com seus clientes parte da demanda contratada.
O diretor financeiro e de relações com investidores da Cataguazes-Leopoldina, Maurício Botelho, diz que o plano de ação da empresa frente à iminência do racionamento passa pela renegociação com consumidores industriais para analisar redução no consumo de energia ou o "deslocamento da produção".
O deslocamento significa que uma empresa pode parar a produção por um período determinado. A empresa vai compensar essa parada com a receita obtida pela venda da energia a qual teria direito para a distribuidora, que poderá repassá-la por um preço maior para o mercado "spot".
Botelho considera que a compra da energia do cliente pode ser um bom negócio para uma distribuidora exposta no mercado "spot", cujo preço situa-se hoje em cerca de R$ 250,00 por MW/h. O negócio também é bom para o cliente, que não perde com a falta de fornecimento.
Com o negócio, a distribuidora pode vender ou deixar de comprar no mercado "spot", dependendo da situação em que se encontra. O diretor da Cataguazes-Leopoldina avalia que o racionamento provoca incertezas e tende a refrear um possível interesse da sua empresa na privatização das distribuidoras de energia elétrica dos estados de Alagoas e Piauí. Estas são as últimas empresas do setor que ainda não foram vendidas na região Nordeste.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Ferro-Liga e Silício Metálico (Abrafe), Mário Odines Nacif, disse ontem que as empresas do setor aguardam detalhes da resolução da Aneel para começar a discutir com as concessionárias a venda da energia contratada. O acerto poderia levar companhias ligadas à Abrafe a interromper a produção já a partir do próximo mês. Somente no estado de Minas Gerais, o setor de ferro-liga representa cerca de 13% do consumo da Cemig, o equivalente a cerca de 600 megawatts (MW). (Valor Economico 20/4)