
Comentário: Imagine a seguinte cena: Você adquiriu alguma mercadoria durante o ano de 2014 e resolveu pagar sua dívida à vista. Pronto para realizar o pagamento você é impedido por um agente do governo.
– Você não pode pagar essa dívida esse ano – diz o agente. – Por que não? – Você responde surpreso. – Porque se você pagar fica registrado esse preço, e como ele subiu muito, a inflação sobe. – Ué? E o que é que eu tenho com isso? Porque o preço subiu? – Porque você consumiu demais e não havia mercadoria suficiente para todos. – Eu consumi a mesma coisa de sempre. – É, mas mais pessoas também consumiram. – E o fornecedor não ganhou mais dinheiro? Não devia prever o aumento? E qual a saída? – Você será obrigado a tomar um empréstimo bancário para que essa compra seja registrada só no ano que vem. – Epa! Quer dizer que o governo vai me obrigar a pagar juros? – É isso mesmo. Está decidido e não se fala mais nisso!Guardadas as devidas proporções, é exatamente o que está ocorrendo. O governo acaba de inventar o jurowatt, um custo que o consumidor vai ter e que não gera nem 1 kWh.
Martha Beck – Danilo Fariello
BRASÍLIA – O governo informou nesta quarta-feira que 13 grandes bancos públicos e privados vão participar da operação de socorro ao setor elétrico. Um sindicato formado por Bradesco, Itaú, Santander, BTG Pactual, Citibank, JPMorgan, HSBC, Votorantim, Credit Suisse, Bank of America, Goldman Sachs, Banco do Brasil e Caixa vai conceder um empréstimo de R$ 11,2 bilhões às distribuidoras de energia, para que elas possam arcar com os custos extraordinários da geração de energia térmica — mais cara que a hidrelétrica —, em função da falta de chuvas, e da compra de energia no mercado de curto prazo. O valor divulgado é 40% superior aos R$ 8 bilhões previstos há menos de um mês, quando o governo anunciou um pacote de medidas para o setor.
O custo desses empréstimos será repassado ao consumidor, por meio das tarifas, a partir de fevereiro de 2015, mas ainda não está definido o percentual de reajuste nas contas de luz necessário para cobrir essas operações.
Governo, bancos e Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) já têm como certo que o empréstimo terá um período de carência, provavelmente de um ano, e um prazo máximo de até dois anos. Restaria definir qual será o juro cobrado por esses bancos da CCEE, que fará a intermediação do empréstimo.
Segundo nota divulgada nesta quarta-feira pelo Ministério da Fazenda, essas condições serão definidas até a data prevista para a operação, o próximo dia 28. A Fazenda informou, ainda, que o empréstimo contará exclusivamente com recursos próprios dos bancos, ou seja, não haverá recursos do Tesouro ou do BNDES na operação.
A equipe econômica considerou um sucesso a composição do sindicato de bancos, com públicos e privados, nacionais e estrangeiros. Segundo os técnicos, o fato de grandes instituições terem se interessado em emprestar dinheiro às distribuidoras de energia mostra que há confiança na operação.
As garantias do financiamento serão dadas pelas tarifas cobradas dos consumidores, em um modelo que ainda está sob consulta pública da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Por esse modelo, parte dos reajustes aplicados às contas a partir de 2015 será destinada para o pagamento desse empréstimo, por meio de uma conta onde serão depositadas as garantias da operação de crédito.