
Análise do ILUMINA: No dia 11 de setembro de 2015 o Ilumina foi convocado para participar da audiência na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Um dos depoentes foi o Dr. Paulo Pedrosa, hoje secretário executivo do Ministério de Minas e Energia.
Lendo a reportagem abaixo, fica evidente que o Brasil, atrapalhado com o bizarro modelo mercantil que criou, anda na contramão das tendências mundiais sobre as novas renováveis.
As grandezas inventadas para adaptar o nosso sistema à moda dos anos 90 realizou a proeza de criar uma classe denominada “energia de reserva” num modelo onde se contrata “garantia física”. Coisas do Brasil: Energias contratadas não são garantidas e muito menos físicas. O Dr. Paulo Pedrosa, durante sua exposição, fez críticas muito pertinentes ao conceito de energia de reserva, um “jeitinho” para disfarçar a fragilidade da garantia física que cria custos extras para os contratantes.
Os leilões de energia de reserva não são determinados pelos demandantes, mas pelo governo, que, mesmo sabendo da necessidade de se reverem os valores associados às usinas (alguns definidos há 15 anos), não confessa e nem tem coragem de realizar, pois isso afetaria o valor das empresas privadas.
Mas o que é interessante enfatizar é a aparente mudança de postura de pessoas como o Dr. Paulo Pedrosa, que, na época da audiência, era representante da ABRACE (Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia – www.abrace.org.br). Segundo o que disse na comissão, o Ilumina concordou e chegou a acreditar que esse sistema de falsas garantias deveria se alterar com a presença dele no Ministério…..só que não.
http://www.valor.com.br/empresas/4806209/cancelamento-de-leilao-afeta-fornecedores
http://www.valor.com.br/empresas/4806209/cancelamento-de-leilao-afeta-fornecedores
Por Daniel Rittner, Rafael Bitencourt, Rodrigo Polito e Camila Maia | De Brasília, Rio e São Paulo
Visto como crucial para dar fôlego às indústrias de equipamentos eólicos e fotovoltaicos, o leilão de energia de reserva (LER) da próxima segundafeira foi cancelado. A suspensão do certame foi anunciada ontem pelo governo, que apontou as projeções mais baixas de crescimento da demanda como justificativa. Os investidores nas duas fontes renováveis, que eram objeto da contratação, temem o risco de desmonte da cadeia produtiva por falta de novas encomendas.
A anúncio do cancelamento do certame com poucos dias de antecedência foi motivo de insatisfação entre os fabricantes de equipamentos das duas fontes, que pedem maior previsibilidade nos leilões de energia no país. Será a primeira vez, desde 2009, que o ano terminará sem que um único megawatt (MW) de eólica tenha sido contratado.
Ao fazer o anúncio do “Leilão não é definição de política industrial”, diz Paulo Pedrosa, secretário executivo do Ministério de Minas e Energia Empresas após reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o secretárioexecutivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, reiterou o compromisso com o desenvolvimento das fontes renováveis, mas ponderou: “O leilão não é uma definição de política industrial”. Segundo ele, a mudança do cenário macroeconômica foi decisiva. Na semana passada, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) revisaram para baixo as estimativas de carga para o quinquênio 20162020. O crescimento anual médio de 3,7% foi reduzido para 3%. “Gostaríamos de não estar lidando com esse cenário. Existe uma preocupação muito grande com as cadeias produtivas. Mas, dentro desses critérios, revisitamos o LER e chegamos à conclusão de que não haveria justificativa para fazermos o leilão”, explicou Pedrosa. Pelos novos parâmetros, as distribuidoras continuarão fortemente sobrecontratadas. O secretário disse que as empresas devem chegar a 2020 com uma “sobra” de 9 mil MW. O cancelamento foi coerente com a lógica do modelo de contratação de energia, baseado na relação entre oferta e demanda, disse o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, professor Nivalde de Castro. “Nossa análise indica que isso faz parte do jogo, do equilíbrio da dinâmica entre oferta de demanda”, disse. Segundo ele, se não há demanda, o modelo tem a capacidade de se ajustar a isso e não contratar novos projetos. Segundo o presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, o LER seria realizado apenas para manter algum ritmo de encomendas para a cadeia de fornecedores dos setores eólico e solar. Do ponto de vista de demanda, na sua visão, não há necessidade de contratação de energia. “Seria interessante o leilão para manter ativa a indústria, para dar algum sinal para ela. O governo foi pela lógica de que é difícil explicar para a sociedade como fazer um leilão de reserva, com essa sobra gigantesca de energia”, disse ele. “Esse episódio é mais um retrato da situação dramática enfrentada no país”, disse Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil. Apesar de mostrar que o governo reconhece o problema do crescimento menor que o esperado da demanda de energia, “a decisão é extremamente complexa e significa uma ameaça gigantesca à toda a cadeira de produção, principalmente a eólica, que se instalou no Brasil recentemente para atender a demanda dos leilões”, disse Sales. Vídeos Suspensão poucos dias antes do leilão foi um sinal ruim para indústria, afirma o presidente da Vestas no Brasil Sales. O problema é exatamente a indústria de fornecedores.
“As fontes renováveis, em particular a eólica, se viram de tapete puxado. As empresas gastaram, depositaram garantias, fizeram pré contrato com fabricantes, e aí simplesmente cancelaram o leilão”, disse Élbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A repercussão internacional do cancelamento do leilão foi “péssima”, disse Élbia, especialmente entre os fornecedores de equipamentos para geração eólica. “Cancelar o leilão de última hora gera descrédito do governo”, afirmou, lembrando que a cadeia produtiva chegou no país há poucos anos com investimentos significativos na construção de fábricas. Para o presidente da fabricante dinamarquesa de equipamentos eólicos Vestas no Brasil, Rogério Zampronha, o cancelamento do leilão a menos de uma semana para a sua realização foi um sinal ruim para a indústria. “Nossa colocação é a respeito do sinal que o Brasil está dando ao cancelar o leilão cinco dias antes da realização e depois de todos os conselhos [de administração das empresas] terem aprovados as condições para participar. É difícil justificar o que aconteceu”. O executivo destacou ainda que flutuações de previsões de demanda não podem afetar decisões de longo prazo. “Nossa visão é que o Brasil tem necessidades em longo prazo. E qualquer decisão relativa à infraestrutura tem que ser pensada em longo prazo”, completou. Segundo ele, o governo brasileiro dispõe de instrumentos legais para determinar um novo leilão no próximo ano, com base em condições técnicas, políticas e que faça sentido economicamente. “Existe sempre a necessidade de se investir em energia nova”, afirmou. A insatisfação é a mesma na cadeia produtiva de energia solar. “Foi um golpe duro prejudicando o desenvolvimento da fonte no Brasil, uma vez que a decisão frustra as expectativas do setor e acaba gerando uma certa perda de credibilidade”, disse Rodrigo Sauaia, presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar). “O cancelamento representa a perda de uma oportunidade de atrair investimentos de até R$ 9 bilhões, que seriam equivalentes a uma contratação de 1,5 GW”, disse. “Não esperávamos isso, acabamos de inaugurar uma fábrica, esperávamos que se confirmasse o leilão esse ano”, disse Hugo Albuquerque, diretorgeral da Canadian Solar no Brasil. A empresa, que é uma das maiores do mundo no segmento de energia solar, inaugurou semana passada uma unidade em Sorocaba com capacidade de produção de 400 MW por ano em módulos fotovoltaicos. Para Albuquerque, apesar da notícia ruim, a Canadian Solar entende o momento de redução de demanda enfrentado hoje no país. “O governo vai recuperar isso nos próximos anos. É uma aposta que a gente faz, a Canadian vai continuar investindo no Brasil, não vamos mudar nossos planos”, disse. Os leilões de reserva têm como justificativa a formação de um “colchão de segurança” no sistema. Em tese, como as próprias distribuidoras estão com folga em suas carteiras, essa necessidade fica menor. A energia contratada nesse tipo de certame é paga por meio de um encargo cobrado diretamente dos consumidores. “Não vamos iludir a sociedade. A verdade é que não encontramos justificativa para realizar esse leilão”, afirmou Pedrosa, do MME. Nos leilões tradicionais, a negociação é ditada pela oferta das geradoras e pela demanda de compra das distribuidoras. Já os leilões de reserva têm uma demanda estipulada pelo próprio governo. A tendência antes do cancelamento, segundo o Valor apurou, era contratar entre 300 e 700 MW. As empresas defendiam a contratação de 2 GW a 3 GW.
3 respostas
Há que reconhecer…
Esse pessoal que nos governa é realmente muito criativo.
Agora iremos ensinar ao mundo a fazer LEILÕES DE DESCONTRATAÇÃO (sic) de energia.
E não apenas isso, teremos também a “Comissão Permanente para Análise de Metodologias e Programas Computacionais do Setor Elétrico”
Esse nome pomposo permitirá a um seleto grupo de iniciados nos modelos redefinir PLDs, GSFs e “algunas cositas más” que afetam a vida financeira de milhões de brasileiros.
E la nave va…. (em direção aos arrecifes, Schetino!)
Roberto
Não entendo a insistência de chamar de mercantil a atual organização econômica do sistema elétrico brasileiro.
Todo sistema em que há compradores e vendedores é necessariamente um sistema mercantil.
Como não poderia deixar de ser, o sistema elétrico brasileiro opera em base mercantil desde os seus primórdios.
O que distingue a sua atual organização econômica da vigente antes do RESEB é a liberalização canhestra, confusa, burocrática e ineficiente do seu mercado atacadista, e a balcanização liberalizante de seu sistema de transmissão.
A declaração do secretário geral do MME de que, mesmo estimando um crescimento econômico médio otimista (3%!) para os próximos 4 anos, as distribuidoras chegarão em 2020 com 9000 MWmédios de energia sobrecontratada, é prova cabal de que a atual organização econômica não é funcional .
Como apontou corretamente o presidente da consultoria Thymos Energia, o governo não poderia “explicar para a sociedade um leilão de reserva (na verdade qualquer leilão para a oferta adicional de capacidade de geração!) com essa sobra gigantesca de energia”.
A frustração dos agentes econômicos interessados na energia eólica e na energia solar com a decisão de cancelar novo leilão de reserva é compreensível.
No entanto, não me parece sensato defender a ampliação do espaço dessas fontes no sistema energético com argumentos de política industrial. Julgo mais adequado arguir com base nos compromissos assumidos pelo Brasil no acordo do clima.
O governo reluta em reconhecer que é necessário refundar a organização econômica (portanto, mercantil) do sistema elétrico e que cabe a ele assumir essa responsabilidade.
Enquanto isso não ocorrer, continuaremos assistindo frustações recorrentes dos agentes setoriais que buscarão obter na justiça as compensações regulatórias e financeiras que paulatinamente vão destruindo a base técnico-econômica do nosso sistema elétrico.
E la nave va….(preste atenção nos recifes Schetino!!!!)
Adilson;
Não há a intenção de demonizar sistemas mercantis. O que estou querendo mostrar é que ESSE SISTEMA QUE ADOTAMOS é que é o problema.
Quanto à “sobra” de energia, você percebeu bem que se trata de uma conta baseada na garantias físicas, que formam um conjunto de valores que já perdeu a credibilidade. Basta dar uma olhada na energia armazenada total em novembro para perceber que estamos longe de recuperar o estoque de segurança. Atualmente estamos com apenas 1,4 meses de consumo armazenados.
O que me impressiona é que bons técnicos que estavam do lado dos contratantes e que faziam uma crítica perfeita, ao entrar no governo ficam “mansos”.
Como diz Gilmar Mendes, deve ser a água.