Cemar mostra cada vez mais dificuldade para honrar dívidas
Para analistas, não há como pagar R$ 150 milhões em papéis que vencem em junho
As dificuldades da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) para honrar seus compromissos têm se intensificado nas últimas semanas com os rebaixamentos promovidos no rating de suas debêntures (títulos de renda fixa). A primeira emissão dos papéis no valor de R$ 150 milhões vence em junho, mas analistas estão pessimistas quanto à possibilidade de a empresa obter recursos para remunerar os inúmeros investidores de fundos de investimentos e de pensão.
Os ratings, rebaixados pela Standard & Poor’s e Atlantic Rating, classificam os papéis da empresa como de péssima qualidade e de alto risco. As sérias dificuldades da empresa fazem que com os bancos preparem-se para renegociar ou repassar os prejuízos para os quotistas e acionistas, afirmam analistas.
Segundo a gerente setorial da consultoria Austin Asis, Simone Escudero, o índice de endividamento da Cemar juntos aos bancos subiu de 137,3 para 2.002,8. "Praticamente todos os indicadores de desempenho pioraram."
De acordo com os analistas Ricardo Carvalho e Mauro Storino, da Atlantic Rating, houve deterioração do fluxo de recebíveis (contas a receber) da empresa em virtude dos efeitos do racionamento de energia, pois mesmo após o seu término o consumo ainda está cerca de 15% abaixo do registrado anteriormente. A empresa também foi afetada negativamente pelas dificuldades no funcionamento do Mercado Atacadista de Energia Elétrica (MAE), que até hoje não efetuou os pagamentos dos negócios realizados.
Para completar o quadro, a Cemar não aceitou os critérios de ajuste para que as distribudoras afetadas pelo racionamento pudessem recompor suas perdas.
Segundo a empresa, a adoção desses critérios não é suficiente para que a distribuidora tenha uma recomposição satisfatória das perdas sofridas no período.
Agora a Cemar está buscando renegociar suas dívidas com a Eletronorte e com os principais bancos credores. Além disso, fez pedido à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de revisão tarifária. Uma equipe da agência está fiscalizando as contas da empresa para avaliar se concede ou não o aumento.
Segundo o analista da Corretora Unibanco, Sérgio Tamashiro, parte do problema é reflexo do cenário desfavorável que se apresentava para o setor e da decisão do controlador Pennsylvania Power Light (PPL) em não colocar mais recursos na empresa. "O investidor está cada vez mais propenso a não colocar mais dinheiro aqui." (Renée Pereira e Rodney Vergili)
EDF injetará US$ 1 bilhão na Light
Cláudia Schüffner e Vera Saavedra Durão , Do Rio
A Electricité de France (EDF) prepara uma grande reestruturação operacional da Light, além da reorganização financeira para reduzir o endividamento da sua controlada, que prevê uma capitalização de US$ 1 bilhão na empresa via aumento de capital, a ser anunciada amanhã, quando a distribuidora divulga seu balanço de 2001. No novo desenho operacional, a Light perderá musculatura, não tendo mais o controle das áreas de operação e manutenção e nem dos novos empreendimentos na geração de energia, que ficarão sob o guarda-chuva da EDF Internacional.
A capitalização da empresa, por meio de subscrição de capital, será estendida aos minoritários. A operação prevê a transformação da dívida de US$ 550 milhões que a EDF tem a receber da distribuidora em ações e mais uma injeção de US$ 450 milhões em recursos próprios da controladora que serão também convertidos em participação acionária. Com isto, meta é reduzir a dívida da Light de US$ 2 bilhões para US$ 1 bilhão, ficando a empresa com uma relação patrimônio líquido/dívida de 50%, dentro da média das empresas do setor.
Sérgio Malta, secretário geral da Light, confirma que a EDF Internacional já assumiu os novos investimentos em geração, como as térmicas de Paracambi e Norte Fluminense e a usina hidrelétrica de Suplício, ainda em estudos, porque o fluxo de caixa da distribuidora não comportaria este tipo de negócio.
No Brasil, o comando desses negócios estará a cargo de Antônio Gama Rocha, que hoje preside as termelétricas Norte Fluminense e Paracambi. O Valor apurou que a idéia, de agora em diante, é fazer com que a Light contrate e pague à EDF pelos serviços de operação e manutenção, assim como a energia nova, que é mais cara. Como a distribuidora tem mercado consumidor cativo no Rio, assinará contratos de compra (PPAs) dessa energia nova que será gerada pela sua controladora, reduzindo o risco do investimento francês.
Uma fonte do Valor lembrou que a Light pode ter suprimento próprio de até 30% da energia que consome e esse percentual deverá ser atingido com os novos empreendimentos. Na avaliação dessa fonte, o único problema será o aumento do custo da energia paga pelos consumidores da distribuidora. Isso porque atualmente a Light, assim como outras distribuidoras, tem contrato de compra com as empresas estatais como Furnas, cuja energia é mais barata porque o investimento já foi amortizado. Mas os contratos de fornecimento existentes começam a vencer no próximo ano. Se esse desenho for colocado em prática, poderá resultar na perda, pela Light, de seus negócios mais lucrativos.
"Ela vai ficar com a transmissão, distribuição e comercialização, perdendo a geração, operação e manutenção. Sob o ponto de vista econômico-financeiro é melhor para a EDF ter ganhos com atividades não reguladas como a geração nova, transformando as outras atividades em centros de custo", explica a fonte. "O problema é que o consumidor vai pagar mais caro para ela ter esse ganho", pondera.
Malta nega que o consumidor irá pagar mais caro com as mudanças. Ele destaca que toda esta engenharia vem sendo realizada com o objetivo de aproveitar as sinergias do grupo, aumentar a eficiência operacional de cada unidade e reduzir o custo final para a Light e seus consumidores. "Assim, certamente o valor final da tarifa – decorrente de toda esta operação – será inferior àquele que seria praticada se não fossem feitas estas inversões", declarou.
A seu ver, num mercado de energia cada vez mais competitivo, quem não tiver um mínimo de geração própria e não puder aproveitar as sinergias certamente ficará mal colocado junto aos clientes.
Não é de hoje que a Light tem sido uma dor-de-cabeça constante para seus controladores. Até setembro passado, ela registrava o maior prejuízo de sua história, de R$ 753,7 milhões e se prepara para registrar um prejuízo de R$ 1 bilhão no balanço de 2001, se não forem contabilizados os ganhos provenientes do acordo geral do mercado que resultou em um empréstimo do BNDES.
O novo desenho do negócio de geração, que passa para as mãos da EDF Internacional, pode explicar o investimento de US$ 360 milhões dos franceses na construção da térmica de Paracambi, no interior do Rio, que terá sua pedra fundamental lançada hoje. Esse lançamento é anunciado no mesmo momento em que outras empresas freiam projetos, como é o caso da Petrobras, e enquanto muitos investidores reclamam das indefinições do setor de energia e do fracasso do mercado atacadista.
Paracambi é o primeiro investimento de energia depois do racionamento e terá capacidade de 542 megawatts (MW). A usina faz parte do Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT) e por isso tem direito a comprar gás da Petrobras com reduzido risco cambial.