Como privatizar uma estatal sem ninguém perceber

Furnas, ainda a maior empresa geradora de energia da América Latina, acaba de editar seu relatório de administração de 2015. Lá está o seu organograma de ativos, o qual reproduzimos aqui. Talvez, por questões de definição de imagem, seja difícil perceber os detalhes. Para facilitar, marcamos com um retângulo vermelho os ativos de geração e transmissão que são propriedade da empresa. Quem quiser conferir pode obter o relatório na página da empresa.

http://www.furnas.com.br/arcs/pdf/RelatorioAdministracao/Relatoriodaadministracao2015.pdf

Logo abaixo do retângulo estão as usinas que passaram a ser propriedade da união depois da edição da lei 12.783/2013.

Todo o resto do cronograma mostra ativos onde a empresa é apenas uma sócia de empresas privadas sendo minoritária na sua grande maioria.

Para se ter uma ordem de grandeza:

  1. Pouco mais de 3.600 MW ainda de propriedade integral.
  2. 4.600 MW que retornaram à união (a empresa só exerce a função de administradora de operação)
  3. 9.400 MW de propriedade majoritariamente privada.

Portanto, Furnas é uma “estatal” que só tem controle de 21% da capacidade de geração do seu organograma. Situação semelhante ocorre na transmissão.

O que é grave nessa constatação?

  1. No debate político, é preciso ampliar o que é considerado como privatização. Não é razoável entender uma empresa com um organograma desse tipo como uma estatal no sentido amplo. É preciso refletir que poder estratégico tem a união com tantos interesses privados inseridos na organização da empresa.
  2. O segundo grupo (usinas que retornaram à união) é ainda mais preocupante, pois, a permanecer a política atual, será ampliado. Nesse grupo, está a energia vendida a preços irrisórios para, inutilmente, tentar reduzir a tarifa brasileira. Isso significa que, ao invés de buscar as verdadeiras razões da explosão tarifária, o governo usou seu poder discricionário para intervir às custas da empresa. Isso significa que, se existem lucros ou custos exagerados na atual configuração do setor, eles permanecerão isentos de análise.
  3. O terceiro grupo é uma caixa preta, pois não se sabe que composição de custos são efetivamente praticados nessas sociedades. É preciso considerar que Furnas pode estar assumindo custos administrativos já que ainda possui um resto de estrutura herdada de sua história.

Assim, no atual caos político onde o impeachment da presidente é apenas um detalhe, é preciso incluir o que a sociedade não percebeu durante todos esses anos. Não considerar significa bancar o cego no tiroteio.

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6 respostas

  1. A situação descrita pelo Roberto é fruto de uma sucessão de “puxadinhos” regulatórios de quem pretendia reverter o processo de liberalização do mercado elétrico no discurso, porém, na prática, deu continuidade ao processo de forma incompetente.

    O resultado aí está: destruição do que havia sido costruído, por duas geração de brasileiros.

    A reconstrução custará caro para a geração atual.

    E la nave va… não sabemos para onde!

    Com uma retórica grandiloquente, porém sem um fio condutor para sua política setorial, o

  2. Roberto, tema difícil; sem ativos e sem fluxo de caixa você perde a capacidade de alavancagem para tocar os empreendimentos de longo prazo e eventual risco que, pelo menos, pelo meu ponto de vista, justificam a presença de um braço do Estado no setor… para apenas operar usinas, creio que o setor privado é mais enxuto e eficiente (claro, desde que com remuneração adequada…). E voltamos ainda ao velho debate, se energia é um bem escasso e novas usinas caras, não seria mais lógico que seu preço se aproximasse de seu custo marginal e que a renda econômica fosse apropriada por fundos, que quem sabe garantiriam recursos para a expansão?

    1. Ruderico;

      Claro! O que se está destruindo com a política da MP579 (que será ampliada caso não se reveja) é a capacidade de auto financiamento, ainda que parcial. Não é a Eletrobras! Se fosse uma empresa privada teria o mesmo efeito destruidor.

        1. Você quer dizer “quando nós contribuintes iremos pagar”. Despesa que seria desnecessária caso não ocorresse a MP 579.

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