A- antes de tratar dos aspectos apresentados abaixo, consideramos importante ressaltar que esta obra de infra-estrutura (que já foi iniciada, cabendo ao país decidir se deve ser CONCLUÍDA ou ABANDONADA) já consumiu recursos públicos de cerca de UM BILHÃO DE DÓLARES, pois já se gastou na compra de equipamentos (700 milhões de dólares), estocagem adequada dos mesmos (20 milhões de dólares por ano) e início das obras civis de fundações e movimentação de material (pedras e terra) para preparação do local da usina. É claro que somente estes argumentos não são definitivos para se tomar uma decisão que atenda os interesses do país, mas também não podem ser simplesmente desconsiderados na análise da questão. Para terminar a sua construção será necessário investir mais 1,8 bilhão de dólares e levar mais cinco anos de obras (retomando a obra de Anga 3 em 2006, ela somente poderia entrar em operação em 2011-12);
B- quanto aos aspectos puramente energéticos e elétricos para o Sistema Interligado Nacional (SIN), cabe colocar que, com a retomada do crescimento econômico do país (o que se deseja que continue por décadas, já que significa melhoria das condições de vida e de inclusão social para a população do país), o consumo de energia elétrica cresceu mais de 6% em 2004 sobre 2003, o que é muito!…, e nos três primeiros meses de 2005 esta média de aumento do consumo vem se mantendo (em relação a 2004). Isto demandará a construção rapidamente de novas usinas para adicionar mais oferta de geração de energia elétrica para fazer frente a este grande crescimento da demanda, para não corrermos novos riscos de falta de energia e de novos racionamentos (a experiência de racionamento em 2001-2002 nos mostrou quão ruim é sermos obrigados a adotar medidas de racionamento de energia elétrica). Além disso, contando-se com as usinas nucleares de Angra 1, 2 e 3 em operação a partir de 2011, as mesmas serão responsáveis por menos de 4% da geração total de energia elétrica no Brasil, o que não representa uma parcela muito significativa;
C- o custo deste novos empreendimentos de geração, sejam eles hidroelétricos ou termoelétricos, é crescentemente maior, o que dito na linguagem do planejamento do setor elétrico, representa um “custo marginal de expansão” cada vez mais alto. Este custo está na casa dos 130-150 reais por MWh atualmente e subindo rapidamente. Isto é explicável pois para usinas hidroelétricas, só estão disponíveis em locais muito distantes dos grandes centros de consumo,o que torna necessário construir longos e grandes sistemas de transmissão e fazer reforços vultosos no sistema de transmissão existente, encarecendo o custo desta energia nova. Para usinas termoelétricas, além do custo marginal de expansão das mesmas ser mais elevado do que o das hidroelétricas, há que se gastar também com reforços no sistema de transmissão existente; No caso da usina de Angra 3, está localizada geograficamente muito próxima aos três maiores centros consumidores do país,ou seja,São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, não necessitando da construção (e do alto investimento associado) de novos sistemas de transmissão para conectar esta usina ao SIN. Este aliás sempre foi o argumento do regime militar por ter optado pela escolha de Angra dos Reis para a construção dessas usinas nucleares, mas, neste caso, do ponto de vista técnico, o argumento é verdadeiro, e, sendo assim, não há porque rejeitá-lo ou desconsiderá-lo só porque foi um argumento usado pela ditadura militar. Ainda do ponto de vista elétrico, a presença destas usinas em Angra melhora aspectos da operação do SIN tais como o controle de tensão sistêmico e a segurança e confiabilidade operativas, por motivos complexos de engenharia elétrica de sistema de potência que não cabem aqui serem discutidos no contexto deste artigo;
D- além das vantagens do ponto de vista puramente energético e elétrico para o Sistema Interligado Nacional (SIN),a construção de Angra 3 torna economicamente viável (em função do aumento do fator de escala) a fábrica da INB (Indústrias Nucleares Brasileiras) de produção de combustíveis nucleares, localizada em Resende-RJ, além de permitirconsolidar o domínio brasileiro da tecnologia de enriquecimento de urânio, fundamental para o domínio do ciclo completo do combustível nuclear, e que tantos recursos públicos e tempo nos custou para atingir o estágio de conhecimento tecnológico que temos hoje no Brasil (já bastante avançado).
E-oBrasil possui a sexta reserva mundial de urânio conhecida, cuja exploraçãosó poderáser desenvolvida com novos investimentos que só podem ser viabilizados com a demandadada para o mercado interno com as usinas Angra I, Angra II e Angra III.Além disso,os insumos operacionais de Angra III não estão ligadosàs moedas estrangeiras ou à importação de recursos naturais, como projetos de termoelétricas com gás importado da Bolívia, cujos custos são lastreados pelo dólar e no preço internacional do petróleo, além das questões geo-políticas envolvendo movimentos nacionalistas bolivianos que pregam a nacionalização das empresas que exploram o gás natural em seu território e o aumento brutal dos valores de venda deste insumo (que seria duplicado ou triplicado em relação aos preços de venda para o Brasil praticados hoje);
F- quanto a um dos grandes temores dos ecologistas (o segundo grande temor é tratado no item a seguir) e das pessoas em geral, que é a segurança dos reatores nucleares quanto a acidentes, sendo o mais grave acidente do ponto de vista teórico a chamada “síndrome da China”, quando se perderia o controle da reação nuclear e a temperaturainterna do reator subiria sem controle, causando o derretimento de tudo que entrasse em contato com o combustível nuclear, ressalta-se que a questão vem sendo tratada em pesadas pesquisas tecnológicas que buscam a construção de reatores mais segurose que eliminam o risco teórico da síndrome da China.Estes reatores são chamadosde “intrinsecamente seguros”. Porém, para um país ser capaz do domínio dessa tecnologia de “reatores intrinsecamente seguros”, é essencial dominar previamente oestágio tecnológicoatual;
G- quanto aos problemas de tratamento e destinação dos rejeitos radioativos do combustível nuclear (lixo atômico) das usinas de Angra, que é o segundo maior receio e argumento de movimentos ecológicos e verdes, há que se considerar que os países do 1o mundo (e alguns do 3o tb) estão pesquisando intensamente uma solução muito melhor do que simplesmente deixá-los depositados em algum canto para que o tempo passe (muito tempo é necessário) e o seu nível de radio-atividade decaia. Neste caso estaria se falando de períodos de tempo da ordem de 10 mil anos. A solução tecnológica alternativa a esta que se está procurandodesenvolver é obter a tecnologiapara construir um reator que processe rejeitos radioativos, produzindo simplesmente chumbo ao final do processo de tratamento deste material. Não se pode dizer que estamos prestes a conseguir este domínio tecnológico hoje, mas certamente não levará milhares de anos para chegarmos lá. É razoável supor que ao final do ciclo de domínio da indústria petrolífera (por volta de 2030), se terá conseguido grandes progressos neste sentido. Não esqueçamos também que existem hoje mais de 400 usinas nucleares em operação no mundo (com algumas novas sendo construídas e algumas antigas sendo modernizadas).Não se deve esquecer queos países do 1o mundo tem a grande maioria delas.
Quanto à posição atualmente defendida pelo MME, por paradoxal que isto possa parecer,sendo contrária à conclusão da obra de Angra 3,vale dizer que o empreendimento está sendo olhadoapenas sob a ótica de viabilidade econômica, quando comparado com outras fontes energéticas disponíveis no quadro atual, e que permitiriam construir uma usina do porte equivalente ao de Angra 3, como o gás natural ou hidroeletricidade (que são efetivamente mais baratas no momento do que o custo do MWh de Angra 3 – no futuro não serão, mas no momento sim). Neste caso, o MME está defendendo um ponto de vista setorial, sendo quequem tem que dar a visão macro, englobando todos os pontos de vista, é o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética, órgâo interministerial do governo federal), e por isto ele existe e foi criado.