Crise da Califórnia se Amplia
Leia!!! Não se trata apenas da privatização.
Crise energética atinge todo o oeste dos EUA
Estado de São Paulo 7/2/2001
Estados concorrem com a Califórnia para ter energia suficiente e garantir indústrias
LOS ANGELES – A crise energética da Califórnia não é um caso isolado.
Toda a região Oeste dos Estados Unidos sente o aperto das altas contas de eletricidade. As usinas dependem principalmente de água, carvão, energia nuclear e gás natural como fontes energéticas para gerar eletricidade.
Embora alguns Estados do oeste possam não ser diretamente vulneráveis aos altos preços do gás natural ou da energia hidrelétrica, toda a região é concorrente da Califórnia para ter eletricidade suficiente, conforme artigo de Bob Poyer, analista do site The Dismal Scientist.
No geral, o oeste depende muito de gás natural e de energia hidrelétrica, fontes primárias de metade da produção elétrica da região. Portanto os preços do gás mais altos resultam em contas de eletricidade mais caras. A seca do verão e a pouca neve no inverno estão forçando usinas que dependem da energia hidrelétrica a comprarem eletricidade adicional no mercado de pronta entrega, onde os preços tiveram alta substancial com a crise energética na Califórnia. Os custos são repassados aos consumidores, principalmente aos Estados dependentes de energia hidrelétrica, como Idaho, Oregon e Washington.
Os fabricantes na região também são atingidos pela energia cara. Muitos industriais se instalaram na região para aproveitar o baixo custo da energia hidrelétrica. Mas agora a alta dos preços força fabricantes a reduzir a produção. Indústrias que consomem muita energia constataram que é mais lucrativo interromper as atividades e revender, no mercado de pronta entrega, com polpudo lucro, a eletricidade por elas contratada.
Alumínio – Produtores de alumínio são um dos mais afetados. A eletricidade corresponde a um terço do custo de produção de alumínio. À medida que contratos anteriores expiram (eles foram fechados a preços muito menores), produtores são forçados a assimilar os novos preços, muito maiores. Em conseqüência, a produção de alumínio baixou nos seis últimos meses.
Usinas de madeira e papel também sofrem. Muitas interromperam atividades e ou demitiram trabalhadores nos últimos meses porque as condições do mercado fraco agravaram as conseqüências dos custos da energia em alta.
Centros de alta tecnologia, como Califórnia, Colorado, Washington e Oregon, podem sentir as maiores conseqüências. Fabricantes de semicondutores e outros componentes eletrônicos de alta tecnologia consomem muita energia e são menos capazes de agüentar quedas de voltagem, pois seu equipamento tem microcalibragem e depende de fornecimento uniforme de eletricidade.
A crise energética piora o potencial negativo da região a curto prazo.Preços de energia mais altos vão agravar a desaceleração da região, criando obstáculos aos lucros das empresas, relutância entre fabricantes de bens de alta tecnologia em se expandir, aumento dos custos de produção para indústrias que têm pequena margem de lucros como as de mineração e a agricultura e desgaste da renda disponível das famílias. À medida que se desdobra a crise energética, grande parte das vantagens de se instalar ali também somem.
Nas duas últimas décadas, o oeste dos EUA vem perdendo a vantagem como região de mais baixo custo da energia. Oregon e Washington estão entre os Estados do oeste que passaram por substancial aumento do preço da energia.
Eles atraíram indústrias cujo consumo energético era alto e cujo valor de mercado era baixo – pois ali a energia hidrelétrica era barata e abundante.
À medida que essas regiões tiveram grande crescimento demográfico e a infra-estrutura para produção industrial se desenvolveu, a demanda por eletricidade aumentou mais rápido do que a oferta, elevando os custos da energia.
Os males energéticos da Califórnia estão acelerando essa tendência de longo prazo. Assim, a região fica cada vez menos atraente para fabricantes que consomem muita energia. Senado da
Califórnia rejeita plano de emergência de crise de energiaSACRAMENTO, 1 – A crise de energia da Califórnia foi agravada nesta quinta-feira após a rejeição pelo Senado estatal de um plano de 10 bilhões de dólares para a compra de gás e fluido elétrico que deveria superar temporariamente a escassez que foi agravada há mais de três meses. Os legisladores debateram o assunto desde a última quarta-feira (31) até esta quinta-feira, sem chegarem a um acordo sobre o financiamento deste plano. Os representantes democratas, que apóiam o projeto de emergência, contaram com a oposição dos republicanos, muitos dos quais acreditam que o governador democrata Gray Davis tem a obrigação direta de encontrar uma solução rápida para esta crise. Fonte: Último Segundo
Pode parecer apenas teoria, mas não é!
A notícia ao lado dá uma idéia dos enormes prejuízos para economia de uma região ou país que um déficit de suprimento de energia elétrica pode causar. Isso apenas comprova o caráter de essencialidade do serviço de eletricidade.
Existe um parâmetro extremamente importante para a gestão do setor elétrico que é conhecido como "custo do déficit". Nos Estados Unidos é comum encontrá-lo sob o nome de "Unserved Energy Cost". Ele é o custo ou a perda em termos monetários para cada unidade energética não consumida. Não se trata do faturamento perdido, mas sim o custo do ponto de vista do consumidor ou até mesmo de toda a economia. Exemplificando: As empresas que produzem alumínio perdem produção que, em sequencia afeta a indústria de cabos elétricos que, por sua vez, afeta a indústria de equipamentos que por sua vez afeta outras que utilizem seus produtos numa cadeia de reações infindável.
O subsistemas americanos ainda sob o regime de obrigação de servir adotam algo como US 3000 para cada MWh não suprido. O Canadá adota US$ 3600/ MWh. Esses exemplos mostram a importância que um déficit futuro tem nas decisões de investimento e operação tomadas hoje. É uma maneira economicista de levar em conta custos não explicitos que considerem uma ótica que não seja somente a da indústria de eletricidade.
O Brasil, além dos problemas bem conhecidos das privatizações, como venda de ativos a preços discutíveis, legislação com impasses constitucionais e outros problemas mais nebulosos, está também adotando um modelo de mercado com diversos problemas técnicos e de compatibilidade com o sistema brasileiro. Um deles é exatamente o parâmetro do custo do déficit. Atualmente o ONS e o MAE adotam R$ 600 para cada MWh, portanto um número dez vezes menor do que o adotado nos Estados Unidos e Canadá. Não há sentido nessa diferença pois as indústrias aqui não têm um perfil de consumo muito diferente das indústrias lá. Na década de 80, esse parametro foi avaliado em US$ 540/MWh a preços de 1980 para o Brasil. Apenas considerando a inflação americana, este valor deveria estar no entorno de US$ 1200/MWh.
Esse número, lá dentro dos modelos, tem um efeito de grande importância, que pode ser traduzido da seguinte maneira: A valoração que se dá a futuras situações de suprimento é muito baixa. Atenuado pela taxa de desconto, que desvaloriza no presente qualquer custo ou ganho que ocorra meses a frente, um déficit futuro "chega ao presente" valendo muito pouco. sendo assim, nenhuma medida preventiva é adotada.
Esse é um dos motivos pelo qual, equivocadamente, o MAE vem vendendo o que ele chama de energia "secundária "ou "sobras" de energia. Caso fosse adotado um parâmetro coerente com a situação descrita na reportagem ao lado, não haveria "sobras de energia" pois, figurativamente, o futuro estaria comprando energia no presente para poder usar no momento de crise. O que é notável é que se faz tudo isso sob um rótulo de tecnicidade, de modelagem indiscutível e incontestabilidade típicas de ditaduras.
Como se vê, a visão de curto prazo, do retorno de capital em tempo recorde, do descaso com o futuro, estão arraigados na modelagem adotada pelo governo. O consumidor precisa saber disso.