CARTA CAPITAL nº 140 ENERGIA A ESCURIDÃO QUE NASCE DO CAOS Investimentos reduzidos e erros políticos aumentam chances de blecautes e racionamentos. O governo FHC apostou tudo na abertura do mercado e o Brasil vai paga …

CARTA CAPITAL nº 140

ENERGIA A ESCURIDÃO QUE NASCE DO CAOS


Investimentos reduzidos e erros políticos aumentam chances de blecautes e racionamentos. O governo FHC apostou tudo na abertura do mercado e o Brasil vai pagar a conta


POR SÉRGIO LÍRIO


Nem São Pedro, o santo no qual o ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, deposita toda sua fé e esperança, parece disposto a evitar que o Brasil fique no escuro em um futuro próximo – futuro, entenda-se, que espreita os meses de seca de 2001. Nas últimas três semanas, as mesmas chuvas torrenciais que, ano após ano, transformam em pesadelo a vida na periferia das grandes cidades, já não garantem noites de sono tranqüilo ao ministro. Por um capricho da natureza, enquanto os temporais fazem aumentar os desabrigados na Zona Leste de São Paulo, rareiam as gotas d’água em um quadrilátero fundamental para o abastecimento de energia elétrica no País – uma região de 400 quilômetros quadrados que se estende de Brasília a Belo Horizonte e desce até o Rio Grande, responsável pelo fornecimento de 30% da energia do Sul e do Sudeste. O resultado é que os reservatórios de usinas hidrelétricas importantes, em um sistema que depende 90% da força hidráulica, estão agora 25% abaixo da média histórica do período. No início de janeiro, encontravam-se 10% acima. "Estamos no meio da estação das chuvas, mas, se continuar dessa forma, teremos um ano delicado, talvez com riscos semelhantes aos de 2000, quando não se sabe como o País chegou até dezembro sem ter enfrentado um racionamento de grandes proporções", afirma Paulo Ludmer, diretor da Abrace, a associação que reúne os grandes consumidores de energia. O temor de Ludmer é dividido com outros empresários. O vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria, José Carlos Gomes Carvalho, reforça o coro. "Nós estamos caminhando no fio da navalha", afirmou em entrevista ao Investnews, serviço on-line do jornal Gazeta Mercantil. Segundo ele, o que tem salvado o Brasil da catástrofe é a produção nuclear de Angra dos Reis, a pleno vapor, e os sucessivos recordes da megausina de Itaipu. "A situação é preocupante", alerta Pio Gavazzi, diretor do departamento de infra-estrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.


PIOR DOS MUNDOS. O grau de preocupação de Carvalho, Ludmer e Gavazzi, que não podem exatamente ser tachados de radicais, neobobos ou de inimigos da privatização, como o governo, de praxe, define os que contestam suas políticas, reflete a dramática situação do sistema elétrico brasileiro. Por falta de investimentos, ausência de planejamento, privatização descoordenada e abertura sem controle, o País tem vivido desde o ano passado à beira de uma crise, cujas proporções transformariam em piada os blecautes que infernizaram os habitantes da Califórnia em janeiro. Vive-se aqui no pior dos mundos. Os preços ao consumidor, que já figuram entre os mais caros do planeta, estão em alta. Em 2000, segundo o Dieese, as tarifas de energia em São Paulo subiram 12,4%, enquanto a inflação aumentou 7,21%. Até 2005, a cada ano os preços devem subir cerca de 10% acima da inflação para remunerar possíveis e necessários investimentos em geração. No Rio, a Light cobra, em média, US$ 95 por megawat/hora. Em Paris, onde não há registros de escassez de energia, muito menos de falhas no atendimento ao cidadão, a tarifa média não passa de US$ 75. Nos Estados Unidos, onde é maciço o uso de gás e óleo combustível, insumos mais caros que a água, apenas quatro Estados têm taxas superiores à da empresa carioca. A variação das taxas na Califórnia dá a dimensão do que poderia ocorrer no Brasil, caso o País venha a enfrentar uma crise que parece iminente. Lá, antes dos blecautes, o consumidor pagava US$ 42 por megawatt/hora. No meio do racionamento, desembolsou US$ 180. Apesar dos preços, digamos, competitivos das distribuidoras nacionais, nunca na história do País os riscos de blecaute foram tão grandes e tão próximos. Uma seca mais intensa e o sistema entrará em colapso. Falta de chuvas em lugares estratégicos, mesmo que o mundo caia em outros lugares, e puf! "Mais de 90% da energia é gerada por hidrelétricas. Não dá para garantir fornecimento total de energia nesse caso, o abastecimento depende do regime de chuvas", diz Xisto Vieira Filho, secretário de Energia do ministério. "Se chover regularmente, não teremos problemas. Caso contrário". Tem razão, em parte, o secretário. Controlar o fluxo de gás e óleo combustíveis, fontes das usinas termelétricas, é mais simples que tourear as chuvas. Mas a explicação de Vieira encobre a questão primordial do problema. Os riscos aumentaram não por causa da política de chuvas de São Pedro. Colhem-se agora os frutos da falta de investimento e planejamento no setor, situação levada ao paroxismo no mandato e meio do presidente Fernando Henrique Cardoso, período no qual o Estado abandonou o sistema às traças. Os gastos com expansão da oferta de energia despencaram de R$ 16 bilhões em 1987 para medíocres R$ 3 bilhões, conforme previsão inicial da Eletrobrás referente a 2000. O corte na carne, que aconteceu na autorização de despesas de todas as estatais e no orçamento de programas sociais, foi uma forma de fazer o ajuste fiscal, seguir normas contábeis estabelecidas pelo Fundo Monetário Internacional e viabilizar o Plano Real. Para azar do governo – e, principalmente, da população -, no mesmo período o consumo continuou a crescer em proporções elevadas, a uma média de 5% ao ano, mesmo em fases de recessão da economia. "O Brasil só não enfrentou uma crise ainda porque as hidrelétricas têm a vantagem de armazenar água por mais de um ano", explica Roberto Araújo , diretor da Ilumina, uma organização não-governamental que reúne especialistas em energia. "O que temos feito é queimar as reservas das usinas."


NOVA OPOSIÇÃO. Uma série de impasses, que se arrastam desde o início das privatizações, acorrenta a garantia de fornecimento de energia a chuvas abundantes. Um deles é saber se o governo terá fôlego para manter as privatizações no setor. Vender as distribuidoras foi relativamente fácil. Quando se iniciou o programa, no primeiro mandato de FHC, havia dinheiro de sobra na economia mundial, investidores interessados e menos resistência de políticos e da sociedade. O jogo agora é outro. As geradoras na fila da desestatização são enormes e irão custar caro. Com o menor crescimento mundial, o apetite dos investidores tende a diminuir. Basta ver a frustrada tentativa de venda da Cesp Paraná no final de 2000. Com problemas ambientais e dívidas cavalares, a companhia do governo paulista "encalhou". "Os problemas ambientais e da dívida estão solucionados. Vamos vender a empresa ainda neste ano", garante Mauro Arce, secretário de Energia do Estado de São Paulo, que, apesar do contratempo, comanda um relativamente bem-sucedido programa de privatização do setor, que garantiu uma expansão de 21% na oferta de energia para a região desde o seu início. Além disso, a resistência às privatizações de grandes geradoras, como Furnas, tem ganhado fôlego. E, pasme!, ela é crescente no cerne da base de sustentação do governo. A lista é extensa. No calor da disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e por postos-chaves na administração federal, o candidato tucano Aécio Neves saiu-se com essa: "Serei um vigoroso opositor seja à cisão de Furnas ou à venda de outras empresas do setor elétrico". O concorrente Inocêncio Oliveira, do PFL, não ficou atrás. "Vou fazer uma CPI das privatizações no Brasil", bradou Che Inocêncio, fazendo corar até os deputados petistas mais radicais. Fora as bravatas de Oliveira e Neves, circunscritas à comezinha disputa pelo poder no Congresso, nomes pesados da aliança governista engrossam o coro antiprivatização das elétricas. Luiz Carlos Santos, ex-coordenador político do governo, prócer do PFL e presidente de Furnas, diz-se, é contra a venda da empresa, seja inteira ou fatiada. O ex-coordenador da campanha da reeleição de Fernando Henrique, Euclides Scalco, e um dos fundadores do PSDB, José Richa, estão no exército que quer evitar a desestatização da Copel, a companhia paranaense de eletricidade. "É preciso pensar bem antes de fazer uma bobagem", declarou recentemente Richa.


INTERVENÇÃO. Convencer os aliados políticos é uma tarefa menor – resolve-se com cargos e verbas – diante da dificuldade em achar investidores que toquem os projetos necessários para garantir o abastecimento. Por conta disso, o governo, que pretendia deixar o sistema elétrico nas mãos da iniciativa privada, voltou a intervir no setor ao estilo dos generais da década de 70. Das 49 termelétricas a gás natural do programa prioritário, lançado no ano passado com pompa, circunstância e promessas de evitar os apagões até 2005, apenas 15 estão saindo do papel. Do total, 13 só começaram a ser construídas depois que a Petrobrás entrou como sócia, comprou as turbinas e assumiu o ônus de vender no mercado a energia produzida, que será mais cara que a das hidrelétricas. Ao contrário do que prega o capitalismo, os sócios privados desses projetos praticamente não assumirão nenhum risco. Só embolsarão os ganhos futuros. As outras duas unidades que não contam com a força estatal são plantas antigas, nas quais os proprietários estão substituindo o óleo combustível pelo gás. A mãozinha da Petrobrás alivia pouco a pressão da demanda crescente. Os US$ 2,3 bilhões que serão investidos pela companhia acrescentarão apenas 2,7 mil megawatts ao sistema – 4% da capacidade instalada. Quando o programa de térmicas foi lançado, a intenção era acrescentar 15 mil megawatts de nova energia, como uma forma de garantir a segurança do sistema até a retomada dos grandes investimentos em hidrelétricas.


RISCO CAMBIAL. Para azar do contribuinte e do consumidor, alcançar essa meta poderá custar caro, seja na forma de subsídios às empresas seja em aumento do valor das tarifas. Desde 1999, os investidores privados cobram, como contrapartida, a solução de dois pontos obscuros da legislação: a compensação pelo risco de desvalorização do real e uma estrutura clara de repasse dos custos de produção por toda a cadeia produtiva. Não são questões fáceis de ser resolvidas, principalmente o pedido de eliminação do risco cambial. Do ponto de vista do capital privado, o modelo atual de custos do setor de gás inviabiliza os investimentos. Como a maior parte do insumo e dos equipamentos para construir as usinas é importada, os investidores têm suas despesas atreladas ao dólar. Na outra ponta, no entanto, a receita, fruto da venda da energia, é cotada em reais. Do ponto de vista do governo, aceitar o repasse da alta do dólar para as tarifas seria uma indexação de preços, mecanismo presente nos contratos das distribuidoras, válidos até 2004, e responsável por parte dos aumentos de preços que superaram os índices de inflação. A outra solução, a criação de um fundo de compensação, seria uma forma de subsídio que, mais cedo ou mais tarde, explodiria no colo do contribuinte. No Ministério de Minas e Energia mantém-se uma visão edulcorada do mundo. Vieira acha que o impasse quanto à forma de compensar os riscos cambiais não irá atrapalhar o programa de térmicas ou a retomada da construção de hidrelétricas. Segundo ele, os investidores já se sentem atraídos e estão participando do programa, apesar de a quantidade e o ritmo das obras estarem bem abaixo das expectativas da União. A prova seria que a Petrobrás, chamada para socorrer o setor privado, participa apenas como sócia minoritária nos projetos em andamento. Várias empresas, temendo a falta de energia, também assumiram a construção de pequenas usinas para consumo próprio, as PCHs, que devem contribuir para desafogar o sistema. Vieira garante também que o capital privado anda de olho gordo sobre as licitações de pequenas e grandes hidrelétricas, que irão garantir o fornecimento de energia – caso, é claro, "ocorram chuvas abundantes nos próximos anos". Nos cálculos de Vieira, até 2003 serão acrescentados 24,8 mil megawatts ao sistema, entre hidrelétricas, térmicas e pequenas centrais. Ao contrário do secretário, os investidores continuam receosos com o desenrolar dos acontecimentos. "Sem um ajuste nessas regras, a situação é preocupante. Para investir no longo prazo, é preciso ter certeza de um retorno adequado e de uma estabilidade nas normas", afirma Michael Dulaney, presidente da filial brasileira da norte-americana Duke Energy. Jose Bestard, vice-presidente para a América do Sul da também norte-americana Enron, é outro que se preocupa. "No geral, o modelo brasileiro de privatização e abertura foi bem concebido", afirma, cauteloso. "Mas todos esses detalhes importantes precisam ser resolvidos. E, como se diz por aí, o diabo está nos detalhes." Proteger os investidores da variação cambial pode ser o custo menor de uma decisão previamente equivocada. Para muitos especialistas, o modelo de construção das térmicas, feito às pressas tanto para tirar o País do atoleiro quanto para viabilizar a construção do gasoduto Brasil-Bolívia, é irracional e reduzirá a eficiência do sistema. A razão é que as térmicas irão funcionar ininterruptamente, como forma de compensar o fato de as usinas serem obrigadas a pagar pelo gás transportado pelo gasoduto, mesmo se ele não for utilizado. O ideal, afirmam técnicos, seria usar as térmicas só como complemento das hidrelétricas nos horários de pico. "E se voltar a chover em abundância e sobrar água nos reservatórios? O governo vai desperdiçar a energia das hidrelétricas, mais barata, para usar o produto das térmicas, muito mais caro?", pergunta Araújo, da Ilumina. "É o custo que se pagará até que o País encontre outros empregos para o gás que tornem seu uso mais barato", justifica Mauro Arce, do governo paulista.


LOS ANGELES, BRASIL. Os problemas na regulamentação do setor de gás mostram a forma atabalhoada como o governo conduziu a abertura do mercado brasileiro de energia. Ao contrário das telecomunicações, na qual primeiro se criou uma legislação, depois um órgão regulador e só então as companhias foram privatizadas, na eletricidade começou-se pelo fim. Como havia pressa em atrair o capital estrangeiro para financiar o programa de estabilidade, o governo vendeu as distribuidoras de energia sem ter definido as regras de funcionamento do mercado livre. Para remunerar o capital, aceitou-se uma distorção que, em breve, acarretará mais despesas ao consumidor: na estrutura de tarifas brasileiras, as distribuidoras ficam com 60%. Os outros 40% vão para geração e transmissão. No resto do mundo, a relação é inversa. "Essa divisão de ganhos deve caminhar para o padrão internacional e eu temo pela saúde financeira das distribuidoras, caso não haja alterações na forma de repasse. Os preços já são bastante altos. Elas podem ficar entre absorver parte dos custos crescentes com as mudanças ou repassar ao consumidor, com risco de aumento da inadimplência", avalia Araújo. Outra falha do modelo de abertura foi a falta de definição sobre quem seria o responsável pela expansão do sistema. Num mercado livre e competitivo, o papel cabe à iniciativa privada. É o que aconteceu na Inglaterra, modelo considerado bem-sucedido. E no Chile, onde a ex-estatal Chilectra domina o setor. Por falta de investidores e por ausência total de planejamento, o Brasil ficou no meio do caminho. Nos contratos das primeiras geradoras privatizadas não havia sequer uma linha com exigências de expansão da oferta. Ao mesmo tempo, a Eletrobrás, que carregava o sistema, foi proibida de fazer novos investimentos. Só agora, na lista de novas vendas, o aumento da oferta passou a fazer parte das regras. "Estamos em uma espécie de vácuo. O Estado deixou de investir e a iniciativa privada não assumiu o papel", resume Mauricio Tomalsquim, professor do Coppe, porgrama de pós-graduação de Engenharua da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LEIA MAIS). Caso semelhante só na Califórnia, cuja comparação o ministro Tourinho, homem de confiança do senador Antônio Carlos Magalhães e com a cabeça a prêmio em uma possível reforma ministerial, tenta evitar a qualquer custo. Assim como no Brasil, os órgãos reguladores da Califórnia, que iniciou a abertura de seu mercado há cerca de três anos, não definiram quem seria o responsável e como se daria a expansão da produção. Sem regras claras, a lógica do capital foi levada ao paroxismo: os produtores, em posição de vantagem pela expansão veloz da demanda, adiaram ao máximo os investimentos como forma de forçar o aumento dos preços. As distribuidoras, impedidas pela escassez de firmar contratos de longo prazo, foram obrigadas a recorrer ao mercado spot, onde se negocia energia como ação e os preços estão sujeitos a variações bruscas. No final do ano passado, 80% da energia vendida pelas distribuidoras era adquirida dessa forma. As conseqüências estão à vista. As tarifas ao consumidor dispararam, os blecautes derrubaram a produção industrial do Vale do Silício – principal centro tecnológico do mundo e uma das regiões que mais crescem nos Estados Unidos -, as empresas acumularam uma dívida de US$ 20 bilhões e os deputados da Califórnia, para evitar o caos, foram obrigados a aprovar um pacote de ajuda às companhias no valor de US$ 10 bilhões. A população do Estado arcou com as conseqüências como consumidores e como contribuintes. "Os erros são muito parecidos: falta de visão de longo prazo, ausência de legislação e funções claras de cada participante do mercado, e crença na capacidade da iniciativa privada em organizar o sistema", compara Araújo. "Aqui, como lá, corre-se o risco de não haver tempo hábil para construir as usinas necessárias para abastecer o mercado." Vieira, do ministério, discorda. "Ao contrário da Califórnia, o mercado brasileiro é baseado em contratos de longo prazo. É isso que dá folga para a expansão do sistema", defende. "Além disso, temos controle sobre o processo. Há uma série de comitês de acompanhamento dos projetos em andamento para garantir o crescimento da oferta."


ATACADO. O intervencionismo do governo, mesmo apropriado em momentos de crise, e um modelo onde convivem empresas privadas livres para aumentar seus preços, outras com tarifas controladas e companhias estatais, ajudam a aumentar os temores da iniciativa privada. Ninguém sabe dizer com certeza se o Mercado Atacadista de Energia (MAE), essencial para o bom funcionamento da concorrência, conseguirá se fortalecer. Inaugurado em setembro, o MAE prevê abertura gradual do sistema até 2003, época em que, teoricamente, qualquer consumidor residencial, comercial ou industrial poderá escolher a companhia que lhe irá fornecer o produto. Uma dúvida é sobre a capacidade do mercado, em uma situação de escassez de energia, atrair compradores e vendedores no mercado aberto a ponto de criar uma competição e estimular a redução dos preços aos consumidores. Na teoria, a falta de produto eleva seu valor, o que atrai novos produtores dispostos a participar da farra. O que se viu na Califórnia foi justamente o contrário – as empresas apostaram na escassez para encarecer a energia e aumentar seus lucros. Mitsumori Sodeyama, diretor-presidente da Asmae, a administradora do mercado atacadista, acredita que o conjunto de regras e punições que está sendo criado e o interesse dos participantes garantirão a transparência e a competição necessárias à sobrevivência do novo sistema. Para Sodeyama, o fim da pendenga entre a Eletrobrás e o MAE acerca de uma dívida de R$ 580 milhões de Furnas por conta do atraso das operações da nova usina de Angra, problema que se arrastou durante meses, é um sinal de fortalecimento do mercado aberto. "Foi um sinal de maturidade", comemora. Com um encontro de contas, a pendência foi reduzida para R$ 185 milhões. O acordo também definiu que, caso ocorram problemas em Angra, os participantes do MAE cederão suas sobras de energia e cobrarão o preço praticado pela usina nuclear no momento da paralisação.


ORAÇÃO. Certo mesmo é que a vida dos consumidores brasileiros não será tranqüila pelos três próximos anos, até mesmo se todos os investimentos previstos pelo governo saírem do papel. Os preços da energia elétrica, com ou sem crise de abastecimento, tendem a subir a galope, numa escalada nunca antes vista. Nem por isso os riscos de uma crise de grandes proporções estarão sanados, com os quais a população terá de conviver por um longo tempo. Restam duas sugestões aos precavidos: 1. Estocar velas. Como a demanda ainda é pequena, uma caixa com 12 custa cerca de R$ 1 apenas. 2. Virar devoto de São Pedro. Aliás, o trecho inicial da oração do santo é: "Gloriosíssimo São Pedro () uma graça vos peço em toda a minha alma".



"Vivemos em um vácuo" Para Tomalsquim, do Coppe, nem o Estado nem a iniciativa privada tomaram as medidas necessárias para evitar um colapso


Dois centros nas universidades brasileiras sintetizam, para o governo Fernando Henrique Cardoso, a expressão do Mal na Terra: o departamento de Economia da paulista Unicamp e a Coordenação de Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que reúne alguns dos maiores especialistas em infra-estrutura do País. Na visão de Brasília, quem trabalha em uma dessas plagas é, por definição, catastrofista, derrotista, neobobo e radical. Mauricio Tomalsquim pertence à Coppe, onde coordena o Programa de Planejamento Energético, mas dificilmente pode ser encaixado em uma dessas definições. Fala mansa, frases articuladas, Tomalsquim é considerado um moderado por seus pares. Não se espere, no entanto, frases de louvor ou de contemporização à atuação do governo federal. A situação energética é tão grave que até o discurso de um moderado tem tons inflamados. Na curta entrevista que se segue, Tomalsquim defende o uso da Petrobrás para financiar projetos no setor, diz que vivemos em um vácuo na questão de planejamento e afirma que os gastos com usinas térmicas são irracionais. "É uma ironia que o governo, que pretendia estimular o livre mercado e a competição, seja obrigado a dar incentivos para o setor privado investir." Confira:


CARTACAPITAL: Vai faltar energia nos próximos anos?


MAURICIO TOMALSQUIM: Não é possível afirmar com precisão se e quando vai acontecer. Mas o que importa é que o sistema elétrico não está em situação confortável. Toda a tensão que se vive, discutindo se vai ou não chover, mostra isso. O próprio programa prioritário de termelétricas é um outro termômetro. Se a situação fosse boa, ele seria desnecessário. Haverá uma crise de grandes proporções se as térmicas não saírem do papel.


CC: O senhor vê no horizonte saídas para se evitar a crise?


MT: Vivemos hoje em um vácuo. O Estado deixou de investir sem que houvesse uma livre e espontânea iniciativa do setor privado em aplicar na geração de energia de uma maneira que nos deixasse tranqüilos quanto ao suprimento do sistema. É uma situação que se arrasta há anos. Na última década, o governo cortou na raiz os gastos com expansão de energia. Isso aconteceu não por falta de dinheiro das estatais. As empresas públicas tinham um grau de endividamento pequeno e poderiam alavancar recursos de terceiros para aumentar sua produção. Os cortes têm mais a ver com limitações impostas pela área econômica. Era uma questão de contabilidade para se adaptar às exigências do Fundo Monetário Internacional. Estamos nesse ponto lastimável por causa disso.


CC: O senhor acha que a desregulamentação do setor e as privatizações vão garantir o equilíbrio necessário entre oferta e demanda?


MT: Na verdade, vivemos nesse momento uma ironia total. Na situação atual, estamos fazendo o contrário da livre iniciativa, da competição. É engraçado que o governo, que tinha o projeto de estimular a abertura, seja obrigado a usar a Petrobrás para investir e tenha de dar vários subsídios para atrair o setor privado. Não há nada de mercado, não há nada de competição. Nada garante que um sistema livre e competitivo seja mais eficiente que um centralizado e estatal. Por isso, não se deveria destruir as pontes com o modelo antigo. É o caso da geração. Se forem privatizadas todas as companhias, talvez o governo perca a capacidade de agir em momentos de crise, caso o setor privado não se interesse em expandir a produção.


CC: Que lição o Brasil pode aprender com a Califórnia?


MT: A Califórnia levanta a dúvida se é possível existir um mercado livre e competitivo em lugares onde a demanda cresce com força. A competição em um mercado com oferta escassa é complicada de implementar. O que a Califórnia parece ter mostrado é que os produtores retinham a energia até o último minuto para que os preços subissem. Quando se tem sobra do produto é mais fácil. Se o cara não vender, ele perde mercado para quem tem sobrando. Ou vende ou fica com o mico na mão. Quando falta energia, os consumidores ficam na mão de quem a possui. E a tendência é reduzir os investimentos para que os preços não despenquem.


CC: Os investimentos em termelétricas não vão jogar para o alto os preços ao consumidor?


MT: As térmicas a gás são um investimento racional na forma em que estão sendo construídas no Brasil. Ela é interessante quando complementa a ponta, quando funciona na hora de pico. Aqui, elas vão funcionar ininterruptamente porque há um contrato de take or pay na importação de gás. Ou seja, o comprador pagará pelo produto use-o ou não. Vamos tornar o sistema elétrico brasileiro menos eficiente. Posto isso, a situação é que temos de jogar com todas as armas para tentar evitar a falta de energia. Temos de retomar a construção de hidrelétricas, mesmo que o setor privado não se interesse tanto, incentivar co-gerações, usar a Petrobrás e outras estatais para investir. O importante é evitar o pior. Essa política deve ser organizada e não conduzida da forma caótica como é hoje.






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