Crise paralisa o setor de energia
Roberto Rockmann , De São Paulo (Valor 7/10)
Calcanhar-de-aquiles do governo FHC, o setor elétrico continua em crise. Novos investimentos estão em compasso de espera. Fornecedores de equipamentos para o segmento traçam queda nas vendas próximas de 20% em 2003. A alta do dólar vai pintar de vermelho os balanços das elétricas. A retração no consumo, em níveis de 1999, vai fazer com que as distribuidoras deixem de arrecadar R$ 4 bilhões em 2002.
A regulação do setor está pendente. Sobram dúvidas se a liberação do mercado ocorrerá em janeiro de 2003. Há incertezas de como serão os reajustes às tarifas do insumo comprado em leilões.
O cenário é difícil. As eleições tornaram-no mais incerto. Todos os discursos dos presidenciáveis apontavam para mudanças. Do uso do IGP-M como indicador dos preços à paralisação das privatizações. As indefinições fizeram as empresas pisarem o pé no freio. De US$ 16 bilhões previstos para serem aplicados na área entre esse ano e 2004, o volume não deve ultrapassar US$ 10 bilhões.
Novos investimentos só devem voltar no segundo semestre de 2003, diz um especialista, quando a política energética do novo governo e o quadro de oferta e demanda estiverem mais claros.
O problema é que, como os projetos estão em ritmo lento, a dependência de São Pedro continua alta. Uma nova crise de abastecimento permanece no horizonte. "A sobra hoje é conjuntural. Se retomarmos crescimento de 4%, podemos voltar a ter problemas", diz o presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques.
Enquanto o governo e o ONS afastam um novo racionamento até 2005, as distribuidoras alegam que o país pode vivê-lo de novo em 2004. Calcula-se que hoje exista um excedente de 4 mil MW no mercado, folga muito pequena para os próximos anos.
A queixa entre os empresários é de que a remuneração é baixa. Dados das distribuidoras apontam que do total da fatura de energia apenas 21% vai para cobertura de custos e remuneração das atividades de distribuição. Já 22% destina-se a tributos e 7% a encargos setoriais. "O retorno é muito baixo", diz o presidente da entidade, Orlando González.
A reestruturação tarifária é um dos grandes nós do futuro presidente. Desatado, é o caminho mais fácil para elevar a remuneração e retirar pressão de alta dos preços do bolso dos consumidores. Dados da Aneel apontam que as tarifas subiram mais de 160% nos últimos sete anos, mas o problema, dizem os empresários, é que a estrutura tarifária fez com que só pequena parte dessa alta chegasse ao caixa das elétricas.
As concessionárias também querem mudar os critérios definidos pela Aneel para a revisão ordinária de tarifas. A agência decidiu pela reposição dos ativos a valor de mercado. As elétricas não aceitam. Julgam que o governo teria de ter usado o preço mínimo dos leilões de privatização.
A diferença nas tarifas seria imensa. Pelo critério da Aneel, os preços subiriam na casa dos 20%. Pelo das distribuidoras, as contas ficariam entre 30% a 40% mais caras. Estudo da Abradee feito com nove elétricas, porém, aponta que, aplicadas as normas da Aneel, o retorno das concessionárias ficaria muitas vezes no vermelho. No melhor caso, ficaria em 4% – o que não seria atrativo aos investidores. A discussão está no governo, que criou um grupo para apurar os impactos da decisão. As distribuidoras querem uma definição ainda nesse governo, mais comprometido com as privatizações.
Outro impasse se refere à revitalização do setor. O governo já admitiu que alguns pontos ficarão para 2003. O relatório de revitalização 4 só deve ser discutido em novembro, o que poderia jogar sua implementação para 2003. Sem as novas regras, referentes à formação de preços e tarifas de transmissão, muitos investimentos continuarão à espera de mais sinais.
Com isso, o setor começa a articular a defesa de um gabinete de transição, assim que a equipe do novo presidente estiver definida. A pressa tem razão. A liberação do mercado, prevista para janeiro de 2003, está aí. Muitos empresários já trabalham com expectativa de que longas rodadas de negociação estarão pela frente.
Retomada de consumo é a solução para empresas (Estadão 7/10)
A solução para o problema financeiro das empresas de energia elétrica será a retomada do consumo, afirmam especialistas do setor. Mas isso também dependerá dos níveis de crescimento da economia nacional, que impulsiona o uso de energia pela indústria. Além disso, o consumo da classe residencial também precisa avançar.
Atualmente, a economia de eletricidade no segmento industrial é de 11%, conforme o diretor do Departamento de Infra-estrutura da Fiesp, Pio Gavazzi.
Desse total, cerca de 8% refere-se à otimização do uso da eletricidade com a troca de equipamentos e mudança de hábitos das empresas. O restante, cerca de 3%, é decorrente do fraco desempenho da economia, diz Gavazzi. Segundo ele, há três anos, o peso da energia nos custos de produção variava entre 1,5% e 2%. Hoje, por causa dos aumentos nas tarifas, a participação subiu para 4%.
Outra saída para as empresas será a revisão tarifária períodica prevista para o ano que vem. Embora os critérios da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não sejam favoráveis às distribuidoras, existe uma movimentação do governo para encontrar um meio termo, sem onerar o consumidor nem as concessionárias. "Não podemos repassar tudo para a tarifa, mas temos de manter o equilíbrio das empresas, pois trata-se de um serviço público", diz Maurício Tolmasquim, da Coppe. (R.P.)
Vencimento de elétricas até 2003 supera R$ 10 bi (Estadão 07/10)
Montante não seria tão expressivo se o cenário econômico não estivesse turbulento
RENÉE PEREIRA
O cronograma de vencimentos de empréstimos e financiamentos das empresas elétricas até o final de 2003 supera a casa dos R$ 10 bilhões e corresponde a um quarto da dívida total do setor, estimada em R$ 37,3 bilhões, segundo levantamento da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) e da Consultoria Austin Asis. O montante poderia ser considerado razoável se o cenário econômico não estivesse tão turbulento.
Mas com a escassez de crédito no mercado e a queda de receitas das companhias, provocada pela redução do consumo de energia, o pagamento das dívidas pode se transformar num grande problema, afirma a diretora da Standard & Poor’s, Milena Zaniboni.
Além disso, com a desvalorização do real frente ao dólar, a situação se agrava, pois 64% do endividamento do setor está em moeda estrangeira. O problema é que a receita está em real, afirma o coordenador da Coppe, Maurício Tolmasquim. Segundo ele, quando o câmbio era fixo, a remuneração das empresas controladas por grupos estrangeiros era boa. Agora, com câmbio flutuante, é difícil dar o resultado que o controlador exige.
O motivo do endividamento, diz ele, tem várias origens. Uma delas é que as companhias acabaram tomando empréstimos para adquirirem outras empresas do setor. Mas, em vez de se financiarem no mercado interno, elas optaram por captar recursos em moeda estrangeira, cuja taxa de juros na época era mais vantajosa. Com a desvalorização em 1999, aquilo que era uma alternativa muito boa se transformou num péssimo negócio, afirma o ex-secretário de Minas e Energia, Afonso Henriques. Sem proteção para a alta do dólar (hedge), as empresas se viram numa armadilha e hoje colhem os resultados da escolha. "As empresas que estão mal é porque se alavancaram demais, a exemplo da Eletropaulo."
Com o racionamento de energia, a situação financeira das empresas piorou, provocando perdas da ordem de R$ 7 bilhões, afirma o analista do BBA Creditanstalt, Marcos Severine. O endividamento permaneceu alto e as receitas caíram com a redução do consumo, que até então vinha crescendo a níveis próximos de 5%. As perdas de faturamento durante o racionamento foram compensadas pelo governo, mas a partir de agora a responsabilidade é das empresas, diz Severine. Como o hábito dos consumidores mudou, o uso de energia recuou para o patamar de 1999. Enquanto isso, o custo permaneceu o mesmo, afirma o analista do Unibanco, Sérgio Tamashiro.
Segundo ele, existe pouca gordura a ser queimada. As únicas contas que podem ser reduzidas seriam a de materiais de manutenção e serviços de terceiros, mas não teria grande impacto no resultado das companhias. "Existem despesas fixas, como a CCC – Conta de Consumo de Combustível – e transporte de energia, que não mudam com a queda das receitas." No caso da Cemig, exemplifica ele, esses dois custos representam 15,5% do faturamento, a energia comprada, 30%, despesa com pessoal, 13%, custos de depreciação, 12%.