De um lado, a insensibilidade de um plano de racionamento que pune a população que paga suas contas e sequer aponta os culpados por esse absurdo. De outro, a violência, a insensibilidade, mas principalmente a burrice de políticos que só pensam em negócios e não percebem que a população do Paraná é contra a venda de COPEL. Que cara de pau em aprovar a venda de uma empresa modelo no meio de uma crise e em fim de governo !!! Estamos indo de mal a pior! O futuro, está ai na Argentina para quem quiser ver…
Empresária implora para ser poupada
Essa notícia tem cenas dignas do nazismo!
Ao abrigar seu pai, de 86 anos, enfermo, moradora de Brasília não conseguiu economizar
MARIANA PEREIRA (Estado de São Paulo 21/8)
BRASÍLIA – Com medo de ficar às escuras, a microempresária Elizabete Magalhães Lins impediu ontem que o técnico da Companhia Energética de Brasília (CEB) cortasse a luz de seu apartamento na Asa Sul, bairro nobre da capital federal. Desde dezembro, quando seu pai de 86 anos sofreu um derrame cerebral, ela alega que não tinha condições de economizar energia na sua residência, onde moram os dois filhos adolescentes, duas irmãs, a empregada e auxiliares de enfermagem.
"Implorei desesperada para que o técnico não desligasse a luz do meu apartamento porque meu pai está doente e uma das minhas irmãs é excepcional", contou a microempresária. Em 2000, segundo ela, residiam no apartamento apenas ela e os dois filhos. No entanto, com o agravamento do estado de saúde de seu pai, ela teve de acomodar as outras duas irmãs que moravam com ele. Para evitar o corte, a empresária apelou para a sensibilidade do funcionário da companhia. Quando ele chegou, ela o convidou para ver a situação do pai enfermo. Constrangido, o técnico pediu que ela assinasse uma carta-padrão comunicando que ela não havia permitido o desligamento da luz.
Desde ontem, Elizabete espera a resposta da distribuidora de energia sobre a revisão da meta de consumo, que pode demorar até 21 dias. "Eu deveria ter procurado a CEB antes, mas tenho outras prioridades como cuidar do meu pai", admitiu Elizabete, que este mês excedeu a meta de consumo em 136 quilowatts/hora (kWh).
Com a crise, a CEB passou a realizar cerca de 2 mil serviços em geral, como religamento de luz e verificação de relógios, ante 400 em tempos normais. O sistema de atendimento ao cliente, para tirar dúvidas sobre o racionamento, registra mais de 3 mil ligações por dia.
Com isso, a distribuidora está com dificuldades para interromper o fornecimento dos consumidores que não cumpriram a meta em junho e julho. Na semana passada, a empresa informou que teve problemas para cortar a luz de 35 consumidores. "Não adianta adiar, vamos cortar a energia diretamente no poste a partir desta semana e, se o cliente reagir, a CEB vai voltar com a Polícia Militar", afirmou um funcionário.
Segundo o gerente de uma das agências da distribuidora, Cláudio Rego, as pessoas recebem a notícia de que a empresa vai fazer o corte, mas não sabem quando. "Isso angustia a população", admitiu. Muitos consumidores receberam a carta da CEB na segunda-feira passada informando que a luz seria interrompida em 48 horas. Mesmo assim, muitos clientes não receberam a visita de técnicos.
Para minimizar os transtornos com os consumidores, a empresa também decidiu abrir exceções e não vai interromper o fornecimento daqueles que ultrapassaram a meta de consumo em poucos kWh. A empresa mudou os planos a pedido do Procon do Distrito Federal para beneficiar as pessoas que fizeram um esforço para gastar menos, mas não conseguiram cumprir a meta à risca.
Após muita violência, Assembléia do Paraná libera venda da Copel
RONALDO SOARES
da Agência Folha 21/8 , em Curitiba
Por um voto de diferença, a Assembléia Legislativa do Paraná rejeitou ontem projeto de iniciativa popular que tentava impedir a privatização da Copel (Companhia Energética do Paraná).
Na sessão, que durou dez horas e terminou às 23h55, a proposta foi rejeitada por 27 votos a 26. A rejeição ao projeto abre caminho para o leilão da Copel, marcado para 31 de outubro. O preço mínimo será anunciado na sexta e deve ficar entre R$ 9 bilhões e R$ 12 bilhões.
A oposição anunciou que vai recorrer na Justiça, alegando que um dos deputados governistas, Nelson Justus (PTB), não estaria apto a votar, por não estar presente ao início da sessão, na semana passada. Justus, que estava licenciado, reassumiu ontem o cargo às pressas, porque seu suplente, Custódio da Silva (PFL), havia se declarado contra a privatização.
Para a bancada governista, a sessão de ontem foi nova, e não a continuação da que havia sido suspensa. O projeto foi uma iniciativa inédita na história do Legislativo paranaense. Reuniu cerca de 130 mil assinaturas, mais que o dobro (50 mil) do necessário para que fosse colocado em discussão na Assembléia.
O voto que decidiu a vitória da bancada governista foi do deputado Luiz Fernandes Litro (PSDB), que inicialmente havia se posicionado contra a venda da Copel, mas na tumultuada sessão da semana passada mudou de lado. Litro deixou ontem o hospital, onde foi internado há cinco dias com princípio de infarto, para ir à Assembléia votar, amparado por deputados governistas. Ao final da votação, pessoas que estavam nas galerias do plenário jogaram dinheiro sobre os deputados governistas, em alusão às denúncias, feitas pela oposição, de compra de votos pelo governo.
Após o final da sessão, cerca de mil policiais faziam a segurança do lado de fora da Assembléia, para evitar tumultos por parte dos cerca de 500 manifestantes que estavam no local. A Copel, que tem 2,8 milhões de consumidores e 6.165 funcionários, registrou lucro de R$ 430 milhões em 2000. A privatização é tida como fundamental para o governo sanear suas finanças.
Confrontos Pelo menos 17 pessoas ficaram feridas e outras cinco foram detidas ontem após uma série de confrontos entre PMs e manifestantes contrários à privatização da Copel. Os confrontos ocorreram em frente à Assembléia.
Às 20h explodiu uma bomba de fabricação caseira no banheiro do 2º andar da Assembléia, a 20 metros do plenário. Ninguém ficou ferido.
Durante o dia cerca de 5.000 manifestantes _segundo os organizadores, ou 3.000, de acordo com a PM_ se concentraram em frente da Assembléia desde às 10h, para tentar pressionar os deputados a votar contra a privatização.
O ato foi organizado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e entidades estudantis, como UPE e Upes (União Paranaense de Estudantes e de Secundaristas).
Entre os feridos, sete eram manifestantes e dez eram policiais militares. O confronto mais grave ocorreu às 17h30, quando um estudante não-identificado foi ferido e levado para o hospital com suspeita de traumatismo craniano. Os detidos foram liberados no início da noite. O Palácio da Justiça e os carros do estacionamento chegaram a ser apedrejados. Na confusão, as grades de uma praça foram parcialmente derrubadas.