Desmontes – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

 

É de causar espanto como o país se perde em debates inócuos. Em pleno século XXI, 140 anos após as bases de ideias de Marx, as disputas acaloradas ainda se dão com base nos conceitos difusos de esquerda e direita. Seria compreensível se as contendas se estendessem para questões concretas, mas, o que se percebe é que, cada vez mais, é a pura ideologia que domina as disputas.

Enquanto se perde tempo precioso, a sociedade não percebe que, sob disfarçadas intenções ou pelo simples desinteresse por definir trajetórias, o que estamos assistindo é o lento e gradual desmonte de instituições.

Antes que alguém desconfie de que esse texto esconde uma defesa de empresas estatais, é preciso deixar claro que a “instituição” mais ameaçada no Brasil é a percepção das vantagens do “coletivo”. Pode-se dizer que vivemos uma era a favor do individualismo, por mais desvantajoso que seja. Tudo se passa como se a sociedade não se percebesse como tal.

Exemplos? São os mais variados:

  • Previdência pública cedendo espaço ao crescimento do conceito de “seguro” financeiro individual, inclusive com incentivos de isenção de impostos.
  • Saúde pública em declínio, favorecendo seguros de saúde que apresentam custos crescentes. Nesse exemplo, ironicamente, é possível perceber que a ótica financeira privada obviamente rejeita os planos individuais, preferindo os seguros em grupos pois, ao contrário do poder público, sabe das vantagens.
  • Destruição da capacidade de autofinanciamento do setor elétrico que, historicamente, conseguia gerar internamente parte significativa dos recursos para a expansão.
  • Transformação de reservatórios hídricos, com claros impactos numa coletividade regional, em meras partes de atividades industriais inclusive com a morte de um rio! Mesmo no caso da energia elétrica, a água é transformada em “mercadoria” mal precificada, onde períodos vantajosos não são capturados pela coletividade.
  • Resistência secular em reconhecer características de monopólio natural em atividades como transportes públicos urbanos. É impressionante a “longevidade” de um serviço público explorado por empresas familiares atuando politicamente para manter um sistema completamente desintegrado e atrasado em relação a exemplos de grandes cidades.
  • Falência da segurança pública, favorecendo o atrativo negócio privado da vigilância e das “grades”.
  • Enormes quantias de recursos públicos destinados para atividades privadas, supostamente em nome de criação de empregos, como se esse método fosse uma obrigação da coletividade e não da empresa que lucra com seu negócio.
  • Educação pública em decadência, favorecendo grandes grupos privados que ainda recebem subsídios para políticas de suporte aos que não conseguem acesso à educação gratuita.

São apenas alguns exemplos. Nenhum desses pontos precisa ser classificado de esquerda ou de direita para que se reconheça a vantagem do enfoque coletivo. Bastaria analisar exemplos de outros países capitalistas que não necessitaram de qualquer ideologia para a solução desses problemas.

Apesar disso, continuamos “deitados no berço esplêndido” da discussão ideológica sem qualquer resultado prático.

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4 respostas

  1. Feijó/Agamenon, Ideologia não é o ideal possuido pelo demônio como a direita ( QUE EXISTE!) pensa….. Afinal, a direita (QUE EXISTE!!) alardeiA que só a esquerda ( QUE EXISTE!!) tem ideologia. A direita (QUE EXISTE!!) só tem opiniòes.
    Vou, por breves momentos, substituir a palavra ideologia por conceito. Um exemplo: para o andar de cima brasileiro um dos conceitos mestres é: O conceito de soberania não é necessário !!

    Roberto, O penultimo parágrafo do seu artigo me lembrou o que Antonio Cândido disse um dia: ” O QUE SE PENSA SER A FACE HUMANA DO CAPITALISMO É O QUE O SOCIALISMO ARRANCOU DELE COM SUOR, LÁGRIMAS E SANGUE.”

  2. Feijó e Agamenon, Óimos e sempre oportunos comentários. Brevemente evitando a palavra “ideologia”, substituo por “conceito”.
    Um exemplo muito critico: para o andar de cima brasileiro o conceito de soberania não é necessário.

    Roberto, O dito no penultimo parágrafo do seu artigo, lembrou – me a seguinte frase de Antonio Cãndido falecido neste mês maio de 2017: ” O QUE SE PENSA SER A FACE HUMANA DO CAPITALISMO É O QUE O SOCIALISMO ARRANCOU DELE COM SUOR, LÁGRIMAS E SANGUE

  3. Roberto e demais: A questão ideológica é um fato e não deve ser mascarada sob o pretêxto que elas estão ultrapassadas. Não! Elas refletem os diversos interesses que existem na sociedade e são reais. Essa questão do individualismo é um ótimo exemplo. Com a onda neoliberal, de que tudo que era estatal não servia e a solução era passar ativos de uma maneira geral, de peferência a preço de banana para o setor privado, veio acompanhada de muita ideologia em sua deesa. Foi se construindo uma “verdade” até hoje diicil de combater. A mais deletéria é a que sustenta que os indivíduos agora são empresas e trata-se de colocá-las no mercado. Os direitos sociais ao invés de uma obrigação do estado são comprados na forma de serviços. Vocês conhecem algo mais falacioso e destruidor dos valores coletivos? Por favor leiam o livro de dois franceses : “A nova razão do mundo”, de Christian Laval e Pierre Dardot.

  4. Roberto
    Faço questão de subscrever estas suas observações. Permito-me apenas acrescentar que por trás de “ideologias” estão, de fato, os interesses daqueles grupos do andar de cima que sempre se locupletaram dessas circunstâncias.

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