E aí? Fica tudo por isso mesmo? Simplesmente examinando alguns números da década de 90 seria possível detectar a insuficiência dos investimentos em novas unidades de produção de energia el …

E aí? Fica tudo por isso mesmo?


  • Simplesmente
    examinando alguns números da década de 90 seria
    possível detectar a insuficiência dos investimentos
    em novas unidades de produção de energia elétrica
    no período. Em 1990 o país consumia 205 TWh gerados
    a partir de uma capacidade instalada de 49750 MW. Em 2000, o
    país consumiu 306 TWh a partir de uma capacidade instalada
    de 66200 MW. Isso significa que enquanto o consumo cresceu 49,3%
    (4,1% a.a) a capacidade instalada cresceu apenas 33% (2,9% a.a).A
    partir de 1995, data que pode ser considerada a de abertura oficial
    do setor aos investimentos privados, os números também
    mostram a insuficiência dos investimentos. No período
    95-2000 o consumo cresce 4,2% a.a enquanto a capacidade instalada
    apenas 3,6% a.a. Resumindo: A crise era anunciada.


  • Esse descolamento do consumo com a capacidade instalada
    provocou um deplecionamento (esvaziamento) dos reservatórios
    contínuo a partir de 1997, como mostra o gráfico
    (Regiões Sudeste e Centro-Oeste). Fonte: ONS


  • A argumentação de que o racionamento
    que se anuncia será devido ao regime seco de afluências
    também não é valida, pois em 1997 a afluência
    esteve 18% acima da média, 1998 foi um ano de afluência
    média e 1999 esteve 10% acima da média. Apenas
    os ano de 2000 foi mais seco. Os reservatórios brasileiros
    são capazes de acumular água de vários anos.
    Não conseguiram guardar essas afluências porque
    precisavam turbinar as reservas, pois o parque gerador não
    recebeu novos investimentos na proporção do aumento
    do consumo. O histórico de afluências dos rios da
    região sudeste mostra anos bem mais críticos do
    que os atuais. Como exemplo, o ano de 1968 teve afluência
    de apenas 66% da média, seguidos de 1970 e 1971 com respectivamente
    78% e 66%. Nem por isso tivemos racionamento.

  • Como é fato conhecido no setor, o parque
    hidráulico brasileiro era projetado e expandido para atender
    a demanda para uma sequência de anos críticos. Esse
    critério deixou de ser um aspecto monitorado e crucial
    para a expansão ao se adotar o conceito de um planejamento
    apenas "indicativo". Tal modificação
    fez parte das recomendações dos consultores Coopers&Lybrand,
    contratados para modelar o setor por conceitos de livre mercado.
    Os últimos anos foram marcados por um processo de desestruturação
    do planejamento.

  • Acreditam os defensores de tal formulação
    que o preço da energia no mercado spot (MAE) e a competição
    induziria investimentos em novas unidades. Tal fato não
    se verificou. Em parte porque a decisão de construir uma
    nova usina e sua efetiva operação é de no
    mínimo 2 anos para térmicas e de 4 anos para usinas
    hidráulicas. Um outro motivo é que a maneira de
    calcular o preço spot no Brasil está impregnada
    de uma visão de curto prazo, válida apenas para
    sistemas de base térmica. Assim, os preços não
    têm refletido a incontestável falta de oferta dos
    últimos anos. Um exemplo gritante desse fato é
    que o preço do MAE em Janeiro de 2001, às vesperas
    da crise agora anunciada, cotava em apenas R$ 56 cada MWh, preço
    muito próximo do valor praticado pelas geradoras. Pode-se
    dizer que, em janeiro, o MAE não "acreditava"
    na crise.



  • A evolução declinante das reservas
    é, principalmente, resultado da insuficiência de
    novos investimentos. Entretanto, também é fruto
    de uma política de operação que não
    valoriza corretamente prováveis déficits futuros.
    O ONS está adotando como parâmetro de "custo
    do déficit" apenas US$ 320/ MWh, enquanto o Canadá
    com sistema semelhante ao brasileiro adota US$ 3400/ MWh. Para
    manter uma coerência com o critério de confiabilidade
    da década de 80, o valor do "custo de déficit"
    adotado pelo ONS deveria estar no entorno de US$ 1200 /MWh.
    Esse valor é comparável aos US$ 540 / MWh calculados
    na década de 80 à preços de US$ de 1980.
    O resultado desta política de operação é
    que, só agora, se decidiu utilizar as usinas térmicas
    em plena capacidade.

  • O sistema de transmissão brasileiro apresenta
    diversas limitações provocadas pela absurda proibição
    das empresas estatais investirem recursos próprios e alavancar
    financiamento junto ao BNDES. Dentre essas limitações,
    a mais grave, é a que impede a "transferência"
    de energia da Região Sul para o Sudeste. Pode-se estimar
    que durante o ano 2000, as afluências excedentes não
    aproveitadas no Sul equivaleriam a uma usina de 1800 MWmédios.
    Essa energia corresponde a 5% do consumo total brasileiro e valorado
    à tarifa de geração de US$ 20/ MWh corresponderia
    a mais de US$ 300 milhões. Problema simlar ocorre com
    a interligação Nordeste – Sudeste. Todo esse prejuízo
    fruto do desmonte do planejamento e do "engessamento"
    das empresas públicas.

  • O efeito descrito no item anterior, só se
    verifica no sistema brasileiro. Dotado de grandes reservatórios
    sujeitos a regimes pluviométricos distintos e, na maioria
    do tempo, complementares, o sistema de transmissão têm
    um papel radicalmente distinto dos sistemas que interligam parques
    térmicos. Aqui, as linhas têm a capacidade de organizar
    as reservas hídrcas pelas bacias de modo a minimizar vertimentos
    desnecessários, aumentando desse modo a oferta de energia
    garantida. Ao contrário da suposiçào básica
    do modelo de mercado, as linhas não são "neutras"
    em relação à geração. Uma
    vez expandiadas em harmonia com o parque gerador, são
    capazes de garantir o máximo de energia para uma mesma
    capacidade instalada, barateando as tarifas. Infelizmente o país
    está perdendo essa imensa vantagem comparativa ao adotar
    um esquema que separa as atividades de transmissão e geração
    apenas para implantar um modelo importado e ainda não
    totalmente testado no mundo

  • Pelo lado da demanda, o país tem evidências
    de que apresentará por longo período de tempo um
    crescimento acentuado no consumo. O brasileiro consome apenas
    2000kWh/ano, índice que o coloca abaixo da média
    mundial. O consumo médio dos domicílios brasileiros
    atendidos por serviço de energia é extremamente
    baixo. Nos estados do nordeste esse valor não ultrapassa
    100 kWh, energia suficiente apenas para suprir uma pequena geladeira
    e duas lâmpadas. Observe-se que por ser um número
    médio, há domicilios que consomem bem abaixo deste
    valor. A utilização da energia na imensa maioria
    dos lares brasileiros é incompressível, correspondendo
    às necessidades básicas da família brasileira.
    Imaginar quedas de preços fruto de concorrência
    na geração é imaginar um crescimento da
    oferta sempre acima da demanda, fato altamente improvável.
    Para que tal efeito ocorresse nos níveis atuais, seria
    preciso garantir no mínimo uma expansão de 4000
    MW anuais.

  • A solução das térmicas a gás,
    anunciadas como salvadoras da crise está longe de ser
    equacionada. Além de o setor privado desejar dolarizar
    a receita dessas usinas, a implantação dessas unidades
    próximas às cargas implica em mudanças no
    sistemas de proteção de todo o sistema interligado.
    Tal efeito e seu impacto nos custos sequer foi estudado. Mesmo
    depois de implantadas, essas usinas poderão levar à
    exdrúxula situaçào de, em anos úmidos,
    queimaremos gás e jogaremos água pelo vertedouro,
    uma vez que os contratos de consumo de gás não
    são flexíveis o bastante para complementar um parque
    hidráulico. De um certo modo, todo o sistema estará,
    nesse período, operando longe de seu ótimo. O efeito
    sobre o preço médio do sistema será significativo.

  • A venda de empresas de geração tais
    como FURNAS, CESP, CHESF e COPEL vai agravar ainda mais a crise,
    pois o capital privado que poderia ser dirigido a novos investimentos
    será absorvido pela compra de ativos em operação
    que não acrescentam 1 kWh sequer ao parque gerador. Além
    disso o "timing" para modelar e vender essas empresas
    é incompativel com a premência da crise que se anuncia.
    A solução ideal é liberar essas empresas,
    agora lucrativas, e propor parcerias com o capital privado. Não
    é verdade que não existem sistemas onde convivem
    empresas públicas e privadas. O Canadá, Estados
    Unidos e Noruega são exatamente assim.


Os pontos
listados acima configuram o resultado da total indefinição
quanto à responsabilidade de quem deveria monitorar indicadores
e alertar a proximidade da crise. Grande parte dos problemas
resulta da total incompatibilidade do sistema de mercado imaginado
com a realidade energética do sistema brasileiro. Não
se trata de posições ideológicas mas sim
de bom senso. A COPPE e o ILUMINA muitas vezes chamaram atenção
para este fato, mostrando indicadores que levavam à essa
conclusão.

Institucionalmente, há um vazio na formatação
do setor. O ONS, entidade privada, é responsável
apenas por operar o sistema que lhe é dado. Não
influi na expansão do parque gerador. A ANEEL faz a fiscalização
das empresas mas é incapaz de avaliar o sistema globalmente,
e, mesmo que o fizesse, seria incapaz de responsabilizar alguma
empresa ou figura jurídica pois a confiabilidade embutida
na deterioração da reserva energética
é uma responsabilidade difusa. A monitoração
do risco do déficit deveria ser uma atividade permanente,
com critérios bem definidos e debatidos. Ao invés
dessa atitude, o governo adotou a idéia de um planejamento
"indicativo" que coloca em segundo plano a obrigação
de suprir e o substitui pelo conceito de "indução"
ao suprimento, que muitas vezes não funciona. Vide fatos.

Esse cenário leva à conclusão
que apesar de se privatizar a expansão, e , simultaneamente,
adotar um modelo de mercado incompatível com um sistema
hídrico de dimensões continentais, não
se consegue "privatizar" a responsabilidade sobre a
confiabilidade do sistema como um todo. O setor público
volta a ter que assumir as funções de investidor,
só que agora em soluções emergenciais, mais
caras, de tecnologia importada, não complementares ao
parque instalado e mais custosas para toda a sociedade brasileira.

Resta saber se os brasileiros vão deixar
esses fatos impunes. Está claro que os dirigentes que
participam da formulação do setor tinham todos
os meios para avaliar o aumento de risco de suas escolhas. Não
o fizeram por temer a opinião pública que hoje
já se posiciona contrária às privatizações.
Ao invés de admitir a crise e discutir com a sociedade
alternativas para superá-la, prefere culpar o consumidor
pelo aumento da demanda e S. Pedro pela falta de chuvas ao mesmo
tempo em que insiste em privatizar empresas públicas rentáveis
e construidas com o sacrifício de toda a sociedade brasileira.

E ai? Fica tudo por isso mesmo??

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