Eletrobras desperdiça energia intelectual

 



Comentário: Já que a Eletrobrás se conforma em ser transformada numa mera empresa de participações minoritárias, para que expertise? Se os projetos são escolhidos também com influência política, para que tanta tecnicalidade? Assinam os contratos baseados em estudos incompletos e depois esperam os aditivos.

Será que a sociedade sabe o que está ocorrendo? Se os próprios funcionários se calam e os casos citados na reportagem são pequena exceção, como querer um grito das ruas??

É o buraco negro da capacidade construída por décadas!

 



O Plano de Demissão Incentivada da estatal vai retirar da folha de pagamento 4,3 mil funcionários até dezembro. Muitos passaram por diversas funções, como o engenheiro Luciano Carneiro, que chegou a assessorar a presidência. Demitido há um mês, ele vai criar um instituto e trabalhar até para concorrentes da empresa. A Eletrobras garante que não haverá perdas nas suas operações. Na subsidiária Eletronuclear, o PDI foi adiado para evitar a dispersão de expertise

Evasão de talentos na Eletrobrás – Brasil Econômico – 17/09/2013

Fernanda Nunes

Por quatro décadas o engenheiro Luciano Carneiro atuou e acumulou conhecimento em atividades no Grupo Eletrobras. No auge da carreira, assessorou a presidência, trabalhando diretamente no planejamento do setor elétrico brasileiro. Mas, há cerca de um mês, deixou a empresa na mesma leva em que sairão, até 13 de dezembro, 4,3 mil empregados, que aderiram ao Plano de Demissão Incentivada (PDI), uma solução orçamentária para a companhia, após a imposição de queda de receita pelo governo.

Carneiro irá abrir um instituto para repassar o conhecimento adquirido a novatos do setor, inclusive de concorrentes da estatal, e projeta atuar, até mesmo, em países da África, onde a Eletrobras ajudou a estruturar o sistema elétrico para, em seguida, retirar-se. Em trajetória semelhante, Alcimar Tomas, após 37 anos de dedicação, deixará a Eletrobras até o fim do ano para ser “taxista ou corretor de imóveis”. E Adilson de Souza, com38 anos de experiência, “vai para casa para ficar uns tempos sem planejar nada”.

“O problema do PDI é que não é a empresa que escolhe quem sai. É voluntário. E a tendência é que saiam os melhores, com mais possibilidade de recolocação no mercado. O impacto para a companhia depende da sua ambição. Se a intenção é alterar o papel estratégico que possui hoje, os danos são menores. Mas é claro que tem impacto”, ressalta o professor do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da UFRJ Edmar de Almeida.

Todo o conhecimento adquirido em décadas de trabalho na empresa responsável pela montagem e condução da infraestrutura elétrica no país será transmitido aos que permanecerão em seus cargos no curto período de cinco meses —de julho, quando o primeiro grupo de demitidos deixou a companhia, a dezembro deste ano, data da última saída em massa.

Nesse intervalo de tempo, os que aderiram ao PDI são obrigados a preencher um formulário, no qual descrevem o cotidiano dos seus trabalhos, uma tentativa da empresa de reter o conhecimento, conta Tomas. “Preenchi rapidamente o formulário de repasse de conhecimento, o que teria que ter feito até o dia18, mas não consegui. Nos próximos meses, aproveito para continuar transmitindo minha experiência a quem fica, no meu dia a dia”, afirma Tomas, responsável pela marcação de viagens de funcionários da controladora do grupo.

Souza diz que, a três meses de se desligar, ainda debate com a chefia do departamento financeiro um plano de transição, para tentar deslocar a experiência adquirida ao longo de décadas. “Entrei como contínuo e estou saindo como economista. Conheço todas as divisões do meu departamento”, ressalta. Já Carneiro é explícito na crítica ao processo de transição da experiência dos funcionários.

“A Eletrobras não se preocupa com o know how que está perdendo. Não há treinamento de transição. Só existe a preocupação de redução do efetivo”, contesta. O que considera um vácuo de conhecimento especializado no setor de eletricidade como consequência do PDI, Carneiro irá utilizar como matéria-prima no instituto que está criando junto com quatro ex-funcionários da Eletrobras.

Aos 70 anos, ele admite que não tem chance de se recolocar no mercado. Em compensação, os profissionais que ingressam nem de longe têm a sua experiência, diz ele. “O mais fácil foi partir para o meu próprio negócio, prestando consultoria em conservação de energia ou em treinando novatos no setor, que possui uma carência muito grande de recursos humanos”, relata.

A ideia é prestar serviço para qualquer empresa, inclusive para a Eletrobrás e, possivelmente, a companhias do segmento de energia que não lidam somente como negócio de eletricidade, como a Petrobras. “Tem muita gente operando o sistema sem saber o que está fazendo”, argumenta. A Eletrobras, por meio de sua assessoria de imprensa, afirma que as “empresas do grupo estruturaram planos para o repasse do conhecimento e eles estão em andamento”.

A estatal informa que, após o PDI, mantém a proporção de profissionais envolvidos à sua atividade principal, de 55%, em comparação aos empregados de apoio, de 45%. A ideia é que a relação de trabalhadores focados na operação do sistema elétrico alcance 80% com o passar do tempo, com a redução gradativa do pessoal de apoio.

 

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