Energia entrega conta bilionária para montadoras – Valor

Comentário; Observem a declaração do presidente da Nissan:

“Primeiro, não sei se vou ter energia. Se tiver, não sei qual será a qualidade dessa energia”, diz François Dossa, presidente da Nissan no Brasil. “Fizemos nossa parte, investimos R$ 2,6 bilhões no país, pagamos impostos e agora não tem energia? Isso não acontece em nenhum lugar do mundo“.

O ILUMINA acha a frase, em negrito e sublinhada, essencial para que alguma indignação inicie alguma reflexão mais profunda abandonando as atuais gambiarras.

Apresentamos respectivamente dados de apenas três outros “não acontecimentos” em lugar nenhum do mundo:

  1. Os bizarros preços do nosso mercado comparados em Euros com o mercado NORDPOOL escandinavo.
  2. Aumentos tarifários com inflação de 6,5%.
  3. Tarifas impostas pela medida provisória 579 nas usinas da Eletrobrás. Média R$ 7,67/MWh (US$ 3/MWh). Comparar com os R$ 822/MWh do mercado livre.


 

Por Eduardo Laguna e Rodrigo Polito | De São Paulo e do Rio

A escalada no preço da energia impôs uma conta salgada à indústria de veículos e se tornou uma das grandes preocupações do setor frente a um mercado que, já há um bom tempo, não tem aberto muito espaço a repasses de custos.

O impacto a ser administrado nos próximos quatro anos por montadoras e grandes fabricantes de autopeças é estimado em R$ 1,6 bilhão, levando-se em consideração que o setor consome 5% da energia contratada no chamado mercado livre, onde o custo adicional desse insumo deve alcançar R$ 32 bilhões até 2018 – conforme projeção da Abrace, a entidade que abriga grandes consumidores industriais de energia.

A conta varia de empresa para empresa, a depender de fatores como prazos, consumo, custos de transmissão e exposição aos novos preços. Mas, em geral, fabricantes de automóveis e alguns de seus maiores fornecedores queixam-se de aumentos na faixa de 15% a 30% em 2015, o que, dizem eles, elimina o benefício dos descontos na energia promovidos pelo governo no ano passado.

No mercado livre, como o nome sugere, há liberdade para se negociar diretamente com geradoras ou comercializadoras de energia contratos de médio e longo prazo. Na maioria das vezes, as empresas procuram cobrir de três a cinco anos de consumo para se protegerem da volatilidade de preços no mercado à vista, onde o valor do megawatt-hora (MWh) “decolou” nos últimos meses e já supera R$ 822.

O problema é que no longo prazo os preços também dispararam em decorrência da escassez de chuvas, que reduziu o nível de água nos reservatórios de hidrelétricas, diminuindo a capacidade de geração. Para não comprometer o abastecimento, todas as usinas térmicas do país tiveram de ser acionadas, mas nesse caso o custo de geração é mais alto.

O preço do megawatt-hora em contratos de 12 meses, cobrindo o consumo de 2015, atingiu, então, R$ 450, ou quatro vezes a mais do que as empresas estão pagando neste ano. Nos contratos de três anos, o preço é menor – em torno de R$ 300/MWh, conforme fontes do mercado -, mas, ainda assim, cerca de três vezes mais caro do que o custo atual.

O impacto para a indústria não é da mesma magnitude porque as empresas costumam carregar em carteira contratos fechados antes da alta de preços. A exposição se limita apenas aos contratos que estão sendo renovados. Mas como, em geral, sempre há contratos em vencimento todos os anos, altas de preço acabam aumentando o custo médio dessas carteiras.

No setor de veículos, o consumo está longe da carga demandada pela metalurgia ou pela indústria química, que absorvem, respectivamente, 26% e 15% do que é vendido no mercado livre, conforme dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). A alta no preço da energia, no entanto, tem provocado espanto entre dirigentes da indústria automobilística, não apenas por ser superior ao aumento de outras matérias-primas, mas também por colocar mais pressão sobre custos num momento em que eles tentam se recuperar do tombo de vendas e exportações sofrido neste ano.

Se repassarem a nova conta aos preços dos carros, as montadoras colocam em risco a recuperação do mercado, que já estará, no ano que vem, vulnerável à possibilidade de retirada de ao menos parte dos descontos no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) cobrado nas vendas de automóveis. Se não repassarem, garantem um ambiente mais favorável à retomada das vendas, mas ao custo do sacrifício das margens de lucro.

Nos últimos anos, a segunda lógica é a que tem prevalecido. Levantamento do setor mostra que entre 2011 e 2013 os custos das montadoras com mão de obra e logística subiram, respectivamente, num ritmo anual médio de 8,5% e 11,7%, ao passo que, nos três anos, o preço dos veículos novos no país caiu mais de 5%.

“Duas coisas nos preocupam mais para 2015: o alto custo da assistência médica para funcionários e o preço da energia”, diz Silvio Barros, diretor da Meritor, que produz eixos para a indústria de caminhões em Osasco, na Grande São Paulo. “Parte desse custo terá de ser dividida com o cliente, outra parte terá d ser absorvida por nós”, acrescenta o executivo.

Nas fábricas de pneus, os custos de produção subiram 50% nos últimos sete anos, enquanto o preço final do produto ao consumidor avançou mais lentamente, acumulando alta de 29,3% em igual período, de acordo com a Anip, entidade que representa o setor.

Alberto Mayer, presidente da Anip, diz, sem revelar nomes, que dois grandes fabricantes de pneus já relataram aumentos de 20% a 30% com a atualização de contratos de energia. “Estamos perdendo margem e capacidade de inovação. Assim, fica cada vez mais difícil cobrar investimentos de nossos acionistas. Estamos nos tornamos cada vez menos competitivos e rentáveis”, reclama o executivo.

Além dos preços mais altos, fabricantes de veículos citam problemas como instabilidade no fornecimento, por conta de deficiências na infraestrutura de transporte de energia, e demonstram preocupação com risco de racionamento no ano que vem, apesar de o governo descartar essa possibilidade. Lembram ainda de um impacto indireto sobre o consumo de carros, já que o preço maior das tarifas nas residências reduz a renda disponível para compra de outros bens.

“Primeiro, não sei se vou ter energia. Se tiver, não sei qual será a qualidade dessa energia”, diz François Dossa, presidente da Nissan no Brasil. “Fizemos nossa parte, investimos R$ 2,6 bilhões no país, pagamos impostos e agora não tem energia? Isso não acontece em nenhum lugar do mundo”, diz o executivo, que inaugurou em abril a nova fábrica da Nissan em Resende, no sul do Rio de Janeiro. Segundo ele, interrupções no fornecimento de energia têm comprometido o funcionamento da linha de pintura de veículos, um dos setores que mais consomem eletricidade numa fábrica de veículos.

Paulo Pedrosa, presidente da Abrace, classifica como “trágica” a situação vivida pelos grandes consumidores de energia. Ele diz que, além do aumento no preço dos novos contratos, o custo da transmissão ficou quase 70% mais alto. Já quem opera no mercado cativo – onde compra-se energia das distribuidoras que atendem a região – está pagando neste ano tarifas 24% mais caras.

Carlos Zarlenga, diretor financeiro da General Motors (GM), diz que a montadora ainda não sentiu os efeitos dos novos preços, mas que isso poderá ser um problema em 2015, quando vencem contratos do grupo. “Vamos enfrentar a situação com maior produtividade”, afirmou o executivo após participar, no mês passado, de um congresso do setor automotivo.

Na BMW, a energia ainda não é motivo de grande preocupação. Contudo, poderá ser daqui um ano, quando seu consumo vai quadruplicar com o início das operações das linhas de carroceria e pintura na fábrica de carros premium inaugurada recentemente no norte de Santa Catarina. Por enquanto, a marca alemã está preferindo operar no mercado cativo.

A modernização do parque industrial, com a instalação de equipamentos mais eficientes, permitiu ao setor reduzir, via ganhos de produtividade, o consumo de energia a cada automóvel que sai das linhas de produção. Paralelamente, a dependência ao fornecimento que chega do sistema interligado nacional vem caindo à medida que as empresas investem em geração própria e avançam no uso do gás ou de fontes alternativas, como a energia solar – essa última aproveitada na fábrica de motores da GM em Joinville (SC).

Mesmo assim, os fabricantes dizem que é significativo o impacto da nova conta. Nas linhas de produção de pneus, a energia responde por cerca de 2,5% do custo total, diz a Anip. No grupo Randon, que produz desde freios a implementos rodoviários e caminhões usados em grandes construções, esse peso, a depender da empresa, pode variar de 1% a 10%, diz o diretor de compras, Esdânio Nilton Pereira. Segundo ele, fábricas de autopeças, sobretudo por conta da fundição, são relativamente mais atingidas do que a indústrias de veículos.

A falta de perspectiva de recuperação nos níveis dos reservatórios – o que poderia pressionar os preços novamente para baixo – tem levado empresas a alongar contratos no mercado livre. Isso também é uma estratégia para minimizar o impacto dos novos preços, uma vez que quanto maior o prazo, menor o valor cobrado pelo megawatt-hora.

Neste ano, a Randon está negociando contratos até 2016. Pereira diz que, por esse prazo, é possível encontrar preços na faixa de R$ 170 a R$ 220. “Nosso risco é voltar a chover muito. Mas vale a pena fechar contratos por esse valor porque nada indica que vai chover muito mais”, afirma o executivo.

 

Categoria

4 respostas

  1. Muito embora, erroneamente o Governo tenha dado sempre , nestes ultimos 12 anos, subsidios a industria automobilistica, causando uma grande imobilidade urbana além de poluição ambiental, enquanto não incentivou o transporte público. Haja visto o aumento nas tarifas dos transportes publicos bem superiores a inflação. Mas,no caso de automoveis , também não é totalmente verdade que os preços venham caindo ao longo dos anos: Vejam, por exemplo , um toyota corolla 2014, em dezembro de 2013, custava 68 mil reais; agora, em dezembro, o novo corolla 2015, custa cerca de 90 mil reais ( em materia de automoveis sempre estamos um ano a frente). Mas no caso das tarifas de energia elétrica e as reclamaçoes da industria, o ponto de vista principal é a falta de previsibilidade dos preços e a quebra de contratos pelo Governo, isso gera desconfiança para os investimentos privados, onde óbvio a ótica que tem que prevalecer é o lucro. Cada vez fica mais claro, inclusive pelos brilhantes comentários do Ilumina, que há necessidade de fazermos ajustes ao modelo atual. Redefinir novos conceitos e valores de energia garantida; emergir usinas com novos reservatórios estocando nova riqueza água e iniciar uma campanha para poupar energia e água. Não podemos ficar aguardando as chuvas aleatorias.

  2. A propósito desta matéria jornalística, que considero da maior pertinência e atualidade, faço questão de repetir aqui o que já venho falando faz anos.
    Até quando as autoridades do setor elétrico brasileiro e o próprio “Mercado”, vão insistir no equívoco de considerar a energia elétrica uma “commodyte” e não um “serviço público de natureza essencial”?
    Agora está ruim para os consumidores livres, não está? Mas ninguém reclamou quando durante muito tempo compraram energia nesse mercado pela bagatela de R$ 4,00 por MWh, ou um pouco mais. Claro, R$ 822,00 é um absurdo! Mas se é mercado haveria de prevalecer a lei da oferta e da procura.
    A verdade é que este modelo produziu de fato três coisas: – permanente ameaça de crise de abastecimento, como agora está acontecendo; – tarifas cada vez mais altas; – e queda acentuada da qualidade do serviço. Há que ser substituído pelo pelo Modelo de Serviço Público, o quanto antes para o bem de todo o País. Insistir nesse modelo será cada vez pior.

  3. Um pequeno comentario : Não acho pertinente que o presidente de uma multinacional vocifere que sua empresa paga impostos no Brasil. Será que seria uma obrigação indevida ? E os benefícios fiscais recentes ?

    Se investiram US$ 2,6 bi tinham expectative de bom lucro. E tiveram e continuam tendo mesmo com a tarifas bizarras de energia elétrica.

    Só sugiro ao Ilumina ter cuidado com a syndrome de Adriano Pires .

    1. Caro Olavo;

      Esse é um comentário que deve ser dirigido ao governo ou à Nissan. O ILUMINA está apenas mostrando os aspectos danosos à sociedade brasileira de escolhas feitas pelas autoridades brasileiras em um setor onde o Brasil só deveria ter vantagens. Quanto à “syndrome” (sic) achamos que o momento é de troca de idéias e não de rotulagens.

Deixe um comentário para Olavo Cabral Ramos F. Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *