Especialistas temem retração de investimento
Adiamento do processo privatização das geradoras pode atrapalhar
RENÉE PEREIRA
Alguns especialistas temem que a possibilidade de adiamento do processo de privatização das geradoras de energia seja mais um empecilho para a expansão do setor elétrico brasileiro. A grande preocupação, se a proposta for aceita, é a retração do investimento estrangeiro diante do medo de manipulação do mercado, já que mais 70% da geração está nas mãos do governo.
Segundo o professor da Universidade de São Paulo e ex-integrante do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), José Goldemberg, é sempre mais difícil atrair a atenção da iniciativa privada dentro de um mercado predominantemente estatal. O problema, explica, é que o País necessita de novos empreendimentos para expandir seu parque gerador. "Mas sem investimento estrangeiro duvido que o mercado seja atendido nos próximos anos."
O ex-secretário de Minas e Energia, Peter Greiner, acredita que enquanto não houver competição no mercado o País não terá o volume de investimento compatível à sua necessidade. Ele questiona, por exemplo, como competir com empresas do porte de Furnas, Chesf e Eletronorte, que detém a maior parte da capacidade de geração do setor. Segundo Greiner, essas empresas podem até operar no vermelho dependendo da conveniência do governo. Isso significaria manipulação do preço da energia.
Ele diz reconhecer as dificuldades políticas do governo, mas afirma que é possível encontrar outras soluções. Uma saída durante este momento de crise, explica, seria privatizar apenas as pequenas empresas. Desta forma, daria a sinalização para o mercado de que o processo vai continuar.
Além disso, comentam os especialistas, a mudança de rumo no modelo do setor elétrico tende a diminuir a credibilidade do setor. A justificativa é que o investidor estrangeiro não vai querer aplicar seu capital num mercado onde as regras são alteradas a todo momento. Para Greiner, adiar a privatização das geradoras é prorrogar o funcionamento do mercado.
Mas nem todos pensam desta forma. O vice-diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Pinguelli Rosa, acredita que o adiamento da privatização é uma proteção para o País. "Não precisamos de investidores para comprar usinas velhas, precisamos de empreendedores para contruir novas instalações", argumenta. Pinguelli Rosa afirma que o governo não pode ceder às pressões dos investidores. "Não queremos quebra de empresas, mas capitalismo significa ganhar ou perder."