Esse é um dos efeitos da contabilização dos investimentos das estatais como "gastos" do governo. Elas foram proibidas de investir, pois precisava-se cortar alguma coisa do orçamento, mesmo que os recursos de investimento venham da tarifa e os outros de impostos. É uma prova concreta que, no Brasil de FHC, tarifa de energia elétrica é mais um imposto entre tantos.
Abaixo, os efeitos no mundo real do mesmo problema. O sistema de transmissão foi a principal vítima da política "destruidora de futuro" do governo FHC. É também uma prova viva da incoveniência técnica da separação dos sistemas de geração e transmissão, que, como mostra a reportagem, são um só sistema.
Eletrobrás só investiu 60% dos recursos programados para 2001 (Estado de São Paulo 18/02/2002)
Obras aprovadas a toque de caixa por causa da crise não foram contratadas a tempo
SÉRGIO GOBETTI
BRASÍLIA – Apesar da crise energética e das medidas do governo para revitalizar o setor elétrico, o Grupo Eletrobrás só realizou 60,4% dos investimentos previstos para 2001. A informação é do relatório de execução orçamentária das estatais, cuja fonte principal de financiamento são as receitas das próprias empresas. Em média, as estatais utilizaram 80,7% dos recursos orçados para despesas de capital.
Do montante de R$ 4,2 bilhões programados para investimentos da Eletrobrás no ano passado, apenas R$ 2,6 bilhões foram executados. Do programa de energia no Eixo Sudeste, por exemplo, apenas 52,8% do R$ 1,59 bilhão foram empenhados até o final de dezembro. Já a Petrobrás gastou 92,8% dos R$ 9,1 bilhões orçados para 2001, com destaque para o programa de oferta de petróleo e gás natural, que mobilizou R$ 4,4 bilhões – 7,3% a mais do que o previsto.
O Grupo Eletrobrás é constituído por várias companhias do setor elétrico, como Furnas, Chesf (Hidrelétrica do São Francisco) e Eletrosul, que concentram os principais projetos de ampliação do parque gerador e da rede de transmissão de energia do País. De acordo com o presidente do grupo, Cláudio Ávilla, os baixos porcentuais de execução orçamentária em 2001 que aparecem nos relatórios do Ministério do Planejamento se devem fundamentalmente à aprovação, no segundo semestre, de suplementações orçamentárias emergenciais para enfrentar a crise, num total de R$ 1 bilhão, que não tiveram condições de serem contratadas até o final do ano.
O projeto de Furnas para a construção das usinas termoelétricas de Santa Cruz, Campos e São Gonçalo, num valor de R$ 495 milhões, por exemplo, foi acrescentado pelo governo ao cronograma original, mas só foi contratado em janeiro deste ano. A Chesf também não teve tempo para iniciar a ampliação das térmicas de Camaçari (BA) e Bongi (PE), que tinham à disposição R$ 240 milhões no orçamento. "Essas obras demandam tempo e concentraram-se no final do ano", disse o presidente da Eletrobrás. "O peso dos investimentos vai se refletir em 2002", assegura.
Retirando o R$ 1 bilhão de créditos suplementares do bolo orçamentário de 2001, o nível de execução se aproxima dos 80%, mas ainda restam cerca de R$ 600 milhões que não foram utilizados. Segundo Ávilla, essa lacuna se deve a dois projetos que não saíram do papel: a usina térmica de Macaé (R$ 346 milhões) e a usina nuclear de Angra 3 (R$ 146 milhões).
Depois da seca, hidrelétricas têm água de sobra (Estado de São Paulo 18/02/2002)
Restrições no sistema de transmissão não permitem produção máxima de usinas
RENÉE PEREIRA
As fortes chuvas que caíram nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste do País têm causado uma situação inusitada dentro do sistema elétrico brasileiro. Em pouco mais de dois meses, as usinas hidrelétricas, que estavam com seus reservatórios secos, conseguiram recuperar a capacidade máxima de armazenamento de suas represas e, para espanto da população, hoje se dão o luxo de jogar água fora (vertimento). Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), trata-se de uma forma de manter a segurança operacional do sistema, inclusive da rede de transmissão, que não suportaria a produção máxima das hidrelétricas. Pelo menos oito unidades estão nessa situação.
As principais usinas da bacia do Rio Paraná, como Ilha Solteira (3.444 MW), Jupiá (1.551 MW) e Porto Primavera (403 MW), da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), estão com seus reservatórios quase na capacidade máxima.
Juntas são responsáveis por cerca de 5.299 metros cúbicos de água vertidas por segundo. Nesse caso, explicam técnicos do ONS, a restrição é a vulnerabilidade do sistema de transmissão, que não tem capacidade para transportar toda a energia gerada pelas usinas. "Se todas produzirem ao mesmo tempo tudo o que podem, não teremos linhas para transferência", dizem.
Mas o vertimento de água por conta dessas restrições não é um problema novo.
No início do racionamento, as hidrelétricas da Região Sul do País jogavam água fora por não terem como transferir sua energia para o Sudeste e o Centro-Oeste. Para um especialista do setor, que não quis se identificar, o país que sempre preferiu contruir grandes usinas parece não ter se preparado para usá-las na sua potência máxima.
Segundo o ONS, além dos problemas de transmissão, outros fatores são responsáveis pelos vertimentos, como as restrições de uso múltiplo da água para abastecimento de água potável, saneamento, navegação e irrigação. Nas unidades dos rios Tietê (usina de Promissão) e Paranapanema (Jurumirim e Capivara), por exemplo, a água é jogada fora – em menor proporção – por causa da pequena capacidade de armazenamento de seus reservatórios. Com o aumento das chuvas nessas regiões, as represas passaram a receber mais água do que podem armazenar. Outro problema é que se essa água não for jogada fora, as barragens podem ser colocadas em risco em caso de cheias. Para isso, existe um controle do nível das represas que, em determinados casos, não podem chegar a 100% de armazenamento.
Térmicas – Mesmo com esses reservatórios cheios, vertendo água, o ONS continua despachando as usinas térmicas cuja energia é mais cara. Segundo os técnicos, diante do conjunto de restrições do sistema, "é perfeitamente justificável que ocorram ao mesmo tempo, durante o período de chuvas, vertimentos em reservatórios de usinas situadas em determinada bacia, enquanto outras estão com geração mínima, bem como usinas térmicas sendo utilizadas com diferentes níveis de geração."
Tudo isso em decorrência de limitações de geração hidrelétrica por restrições de transmissão, de limites de enchimento de reservatórios para controle de cheias e de necessidades de geração térmica acima de seus requisitos mínimos operacionais para controle de tensão e segurança da rede.