Estado de São Paulo 13/5
Uma crise anunciada.É como dois especialistas em energia analisam a necessidade de racionamento no país. Os dois, no entanto, divergem quanto às políticas a serem adotadas para estimular novos investimentos no setor. Para o Coordenador do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coordenação de Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da UFRJ, Maurício Tolmasquim, e para Jacques Haratz, engenheiro especializado em sistemas de cogeração de energia, o grave estado em que se encontra o setor elétrico é resultado da ausência de investimentos em geração nos últimos anos.
– O país está contra a parede porque não investiu na expansão das hidrelétricas. Furnas poderia investir, mas foi impedida pela área econômica do governo e suas metas para as contas públicas – analisa Tolmasquim.
Sem os investimentos estatais, a esperança estava nas chuvas e no capital privado, diz Haratz, que indica outros gargalos no setor:
– O custo do gás natural é muito elevado e isso inibiu os investimentos em usinas termelétricas e sistemas de co-geração. O setor precisa de uma política de incentivos e de maior agilidade, além da autorização para a entrada de equipamentos importados no país – diz o engenheiro, que é diretor da Co-gerar, empresa responsável pelo sistema de co-geração de energia nos estúdios do Projac, do NorteShopping e de outros empreendimentos com grande consumo de energia elétrica.
Para ambos, o impacto do racionamento na economia vai provocar queda na produção e conseqüente desemprego.
Tolmasquim calcula entre R$ 12 bilhões e R$ 14 bilhões as perdas no PIB em um ano, além de perdas na balança comercial, impacto inflacionário, alta nos preços ao consumidor e das taxas de desemprego.
A energia no Brasil custa menos que nos EUA’Não custa não! E nem deveria custar igual, pois o Brasil conta com a fonte mais barata disponível no planeta . Basta juntar duas coisas: Água, que é de graça e gravidade, que também é. Quem quiser ver a realidade das tarifas no Brasil e Estados Unidos, basta clicar. Quem paga mais?
JACQUES HARATZ
O engenheiro Jacques Haratz, especializado em sistemas de co-geração de energia, que consistem em gerar energia elétrica com uso de gás natural e reutilizá-la no resfriamento de água, defende tarifas de gás mais baixas para estimular investimentos em geração de energia no país.
Por que o país chegou à atual situação de racionamento?
JACQUES HARATZ: Chegamos a esta situação por falta de investimentos em geração de energia. O governo acreditou no programa para a construção de 20 termelétricas, mas a maioria não sairá do papel a tempo.
Era possível evitar a crise? Como?
HARATZ: Seria possível evitar o racionamento com uma política de preços do gás natural mais viável, que estimulasse investimentos em termelétricas e em sistemas de co-geração. Se o país quiser energia elétrica, o combustível tem de estar em reais, e não variar com o petróleo. E temos o gás natural aqui, 70% dele na Bacia de Campos.
Quanto custa um projeto de co-geração?
HARATZ: Um empreendimento como um shopping exige investimentos de R$ 8 milhões, que pedem menos tempo para a implantação, em torno de oito meses, contra os dois anos, em média, para as termelétricas.
As distribuidoras estão certas quando pedem o repasse de custos para as tarifas?
HARATZ: O preço da energia no Brasil é a metade do preço na Argentina e nos EUA. Com riscos altos, o setor privado não investe. Ao mesmo tempo, é uma distorção privatizar o setor elétrico e a Petrobras assumir o risco do câmbio do gás. É estatizar o risco, ainda que ela mesma possa repassar esses custos.
Como a economia vai reagir?
HARATZ: Mal. Estudos mostram que, além da interrupção do fornecimento, é preciso tempo extra para a retomada da produção. (L.F.)
O governo não investiu o suficiente’MAURÍCIO TOLMASQUIM
Coordenador do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coordenação de Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da UFRJ, Maurício Tolmasquim lamenta a crise. Ele critica o governo por não deixar que Furnas investisse no sistema elétrico. "O país está contra a parede", diz.
O que provocou a crise de energia?
MAURÍCIO TOLMASQUIM: O país chegou à situação atual pela falta de investimentos em geração de energia.
Era possível evitar o racionamento?
TOLMASQUIM: O sistema hidrelétrico foi concebido para enfrentar momentos de seca. Empresas como Furnas, com endividamento baixíssimo, tinham condições de investir em expansão, mas o governo não deixou. E o capital privado não investiu porque a desvalorização cambial elevou o custo do gás e dos equipamentos.
Que medidas devem ser adotadas agora?
TOLMASQUIM: Racionalizar é importante, mas tem que ser feito antes. A complementação com energia das termelétricas é necessária, mas não acredito nesse modelo e sim nas hidrelétricas. Deveríamos investir em co-geração e fontes de energia eólica, de longo prazo.
Distribuidoras como a AES estão certas em reclamar das tarifas impostas pela Aneel?
TOLMASQUIM: Deveríamos estar em situação mais confortável para não dar vantagens para os investidores do setor elétrico, que terá riscos menores. Mas o país está contra a parede e, ao priorizar as termelétricas, isso vai sair caro para o consumidor. Essa chantagem que o governo está sofrendo é culpa dele mesmo.
Como a economia vai reagir?
TOLMASQUIM: O impacto será de cerca de R$ 12 bi a R$ 14 bi em um ano, sem contabilizar a perda de
Kits antiapagão: as opções para o dia-a-diaAna Cecília Santos
Os bazares e as lojas de ferragens do Centro foram pegos de surpresa por consumidores em busca dos produtos do kit de prevenção aos apagões, que inclui luminárias de emergência, lampiões e lanternas. Muitos comerciantes não estavam preparados para a demanda das últimas semanas, mas garantem que já renovaram os pedidos para repor o estoque dos produtos que funcionam sem necessidade de energia elétrica.
O gerente da Eletro Boavista, na Avenida Marechal Floriano, José Orlando de Oliveira, diz que vendeu em apenas uma semana todo o estoque de luminárias de emergência, lampiões a querosene e lanternas.
– Fizemos uma nova encomenda ao fornecedor e já temos vários pedidos de reserva, dos clientes da casa, para quando as mercadorias chegarem – diz o gerente.
O vendedor Clebio da Silva, da loja Aracaju, na Rua Uruguaiana, diz que há um mês o local vive um movimento anormal de consumidores em busca dos produtos do kit. Segundo ele, o mais procurado é a luminária de emergência.
O equipamento utiliza duas lâmpadas fluorescentes e funciona a bateria. Se apenas uma das duas lâmpadas for mantida acesa, é possível ter luz por seis horas ininterruptas. Para recarregar, basta ligar a luminária na tomada quando a energia voltar. Nas lojas Aracaju e Eletro Boavista, o produto sai por R$ 49. A Sendas também vende a luminária, em um modelo com duas lâmpadas direcionáveis, a R$ 39,90.
O consumidor também tem procurado produtos térmicos como geladeiras, galões e caixas de isopor.
Por último, na falta da televisão para distrair a família, uma opção é escolher entre os diversos jogos disponíveis no mercado. No supermercado Extra, é possível encontrar o War, jogo de estratégia de guerra, por R$ 47,10, e o Imagem e Ação, jogo de adivinhação por meio da mímica e do desenho, a R$ 47,10. Sob medida para jogar na penumbra.
Leonardo Feijó