Famílias e comércio já respondem por 46,78% do consumo de energia – O Globo

Comentário: Seja por imposição, como em 2001, seja por redução da atividade econômica, como em 2009 e em 2014, o consumidor dá suas “colheres de chá” para a oferta de energia.

Racionamento é uma palavra muito forte e as autoridades não gostam. Mas, mesmo sem incentivos, a demanda já se comporta bastante “domesticável”. Se os dados já mostram uma redução de nível de 8% e a indústria reduz seu consumo ou “vende” seu direito de consumir, alguma coisa está fora da ordem e chamar esse efeito de racionamento ou penúria energética é uma questão de gosto.

São Pedro entra sempre como culpado, apesar de já termos mostrado inúmeras vezes que, em termos do sistema interligado, 2014 não é o pior ano e a sequencia 2011- 2014 está longe de ser crítica. Mesmo com os ajustes da demanda o setor passa por uma crise sem precedentes.

Convivendo com a crise, permanecem inalterados os certificados de garantia física(*), emitidos através de metodologia que se choca com a realidade. As usinas hidroelétricas, que não decidem a sua geração e não têm responsabilidade sobre o certificado, assistem passivamente a suas “exposições” ao louco mercado livre brasileiro. Algumas, com tarifas irrisórias, repassam esse prejuízo para as distribuidoras. Outras compensam a exposição vendendo energia por preços de térmicas. O governo, que sabe dessas deficiências, mas não tem coragem de admitir erros, fica fazendo leilões de “energia de reserva”, outra conta do consumidor.

E assim vamos empurrando com a barriga fingindo que está tudo bem.

(*) No bizarro modelo brasileiro usinas não “vendem” a sua geração. Comercializam sua “garantia física”, uma conta de escritório. Quem quiser ficar abismado com a complexidade e subjetividade desse cálculo, procure o artigo “Da superfície às profundezas” na página do ILUMINA.


Danilo Fariello

BRASÍLIA – Em meio a um período de seca severa e escassez na geração de energia elétrica, o consumo no país cresce sistematicamente em razão de gastos residenciais e do comércio, que, somados, superam o consumo industrial, em queda livre desde 2010. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em agosto, a participação das residências e do comércio na carga total do país era de 46,78%, enquanto a fatia da indústria correspondia a 37,77%. O resultado contrasta com o de 2010, quando a fatia do consumo residencial e do comercial correspondia a 42,43% do total, inferior à parcela da indústria, que respondia por 43,18% do consumo.

O consumo residencial foi impulsionado por estímulos do governo. Sua fatia do consumo total do país passou de 25,79% em 2010 para 27,95% em agosto deste ano. No mesmo período, o consumo do comércio avançou de 16,97% para 18,83%, estimulado pelo aumento de vendas. No caso das famílias, os ganhos de renda e o maior acesso a eletrodomésticos, combinados com recordes de calor, contribuíram para elevar o consumo de energia.

ESTAGNAÇÃO NO SETOR PRODUTIVO

Ao editar a Medida Provisória 579, de 2012, que reduziu em 20% as contas de luz residenciais a partir do início de 2013, o governo também contribuiu para essa mudança. Segundo especialistas, com a queda nos preços da tarifa e a falta de campanhas institucionais de estímulo ao consumo consciente, os consumidores não perceberam que há um cenário de estresse na geração de energia no país, exigindo a força total das usinas térmicas, mais caras e mais poluentes.

— Houve uma redução inoportuna das tarifas de energia pela MP 579, quando já se tinha sinais de escassez de energia. Houve também incentivo fiscal para que se comprassem mais eletrodomésticos, levando as pessoas a atingirem um nível de consumo, conforto e status dos quais não querem mais abrir mão — diz Fausto Bandeira, consultor para assuntos de energia elétrica da Câmara dos Deputados.

Já Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc Energia, comercializadora que atende a grandes consumidores, avalia que os consumidores domésticos poderiam reduzir seu consumo de energia significativamente, caso o governo promovesse campanhas de uso mais racional, como ocorreu na época do racionamento do início dos anos 2000.

Ainda que o governo tome novas medidas para aumentar a eficiência energética, falta comunicação com a sociedade e oferta de crédito incentivado para que esses programas ganhem corpo, afirma o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), Rodrigo Aguiar. Ele destaca que, neste ano, foi aprovada a instrução normativa 2 do governo federal para prédios públicos, que prevê medidas de eficiência energética em caso de reformas. Para ele, foi tímida a divulgação da medida:

— Não temos uma espiral sustentável que possa levar ao desenvolvimento dessas ações, por isso ficamos com a impressão de que nada está acontecendo, e daí fica tudo parado mesmo.

Nos cálculos do presidente da Abesco, os consumidores de energia elétrica no país desperdiçam 55 Terawatts-hora (TWh) de energia por ano — o que equivale à metade da geração de Itaipu — pelo “desleixo” em relação às rotinas de consumo:

— Uma campanha de redução do consumo, como houve em 2001 e 2002, seria ainda mais produtiva hoje. O potencial que se tem de economia é maior, seja pela troca de equipamentos, ou pelos hábitos e processos dos consumidores.

Os especialistas afirmam que o adiamento da adoção das bandeiras tarifárias (que repassarão aos consumidores custos extras da geração de energia, em períodos adversos, como o cenário atual) de janeiro de 2014 para janeiro de 2015 também estimulam a expansão do consumo residencial e comercial neste ano de crise. Há expectativa de que a adoção das bandeiras tarifárias reduza o ritmo de expansão do consumo residencial, que está acima de 3,7% ao ano desde 2010. Para a Abesco, a alta das contas de luz deste ano (ao redor de 25%) e a previsão de avanço acima da inflação nos próximos cinco anos contribuirão para a redução.

— Se tivéssemos a bandeira tarifária neste ano, a situação financeira das distribuidoras não estaria tão crítica e o consumidor teria o sinal de preço necessário (para economizar). Esse consumidor tem de saber pela mídia ou pelo preço que aquele bem está escasso. Você não pode subsidiar tarifas e gastar um bem que pode, no futuro, fazer falta — diz Vlavianos.

Especialistas apontam que a queda de participação do consumo de energia na indústria refletiu não apenas a estagnação do setor produtivo nos últimos anos, mas a adoção de medidas de controle de custos e busca de alternativas, como resposta à alta do preço.

— Com a crise, muitas empresas adotaram metas de redução de custos e a energia está, para alguns setores, entre os principais deles — explica Vlavianos.

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3 respostas

  1. Se Dilma ganhar seria hora de que ?

    Seria hora do Ilumina , o Clube de Engenharia, o SENGE RJ , etc, voltarem a carga ao estilo da carta que o Ilumina
    enviou a presidente eleita Dilma em 2 de dezembro de 2010.
    Diriam que foi uma carta inocente. De inocência imensa. Inocência candida. O texto no seu conteudo mostrava uma crença de que Dilma mudaria o seu estrago continuista de 2003/2004.
    A Presidente eleita nem mesmo confirmou recebimento. Tal como aconteceu com a carta aberta do Clube de Engenharia sobre o setor elétrico em 2013.

    Quem sabe o Ilumina volte ao assunto. Dilma caso eleita em 26 de outubro deve rever muita coisa.

    Quem sabe o modelo mercantil volte ao proposto no Plano lançado por Lula no Clube de Engenharia em 30 de abril
    de 2002. ?

  2. Questões:

    a) A aplicação da bandeira tarifária será instituída sem qualquer período de adaptação/aprendizagem?
    b) Os medidores já estão adaptados à mudança?

    1. A bandeira tarifária será aplicada em função de um parâmetro do Operador Nacional do Sistema, o CMO (Custo Marginal de Operação). Esse valor não depende apenas da hidrologia. Pode se elevar, implantando a bandeira mais cara, se a gestão dos reservatórios cometer erros. Além disso, as bandeiras durarão meses. Consumos mais significativos não podem ser deslocados nem por alguns dias. Por isso o ILUMINA é contra a aplicação dessa medida, pois é simplesmente um modo de penalizar o consumidor que nada tem a ver com a gestão do setor.
      Não será necessário mudança nos medidores. Sua tarifa vai simplesmente aumentar.

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