Gazeta Mercantil Paraná 05.03.01
ENERGIA E COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIAIvo Augusto de Abreu Pugnaloni
O debate sobre a desestatização da COPEL, CEMIG , Furnas , CHESF e outras geradoras apaixona o Brasil.
Aqui no Paraná temos, de um lado o Governador Jaime Lerner , com a capacidade de convencimento que só poder dá , mesmo em fim de governo.
De outro , seis ex-governadores , três senadores , o CREA ,a OAB ,o Sindicato dos Engenheiros e toda a chamada sociedade civil organizada , Câmaras de Vereadores à frente. E até parte da imprensa.
Além, é claro , de um numero surpreendente de deputados estaduais , quase todos os federais e milhares de vereadores .
Na minha opinião , falta alguém importante neste debate : os industriais (e comerciantes) do Paraná e do Brasil
O que estarão pensando sobre a privatização das empresas geradoras aqueles empresários que mais dependem da energia barata e de qualidade , como os exportadores de frango congelado, do aço , dos veículos , do calcáreo, do cimento e do papel ?
A industria brasileira firma-se no mundo de forma surpreendente. Dos aviões de médio porte à carne enlatada, nossas empresas aprenderam as lições da globalização , reduziram custos , e lançaram-se à disputa no mercado internacional .
Mas e se a oferta de energia diminuir , após a passagem da geração para o controle privado, como ocorreu na California , em outros 18 estados americanos ?
Adam Smith vaticina : oferta baixa é sinônimo de preço alto.
Perdendo o controle estatal após 2002 à razão de 25 % ao ano, os contratos iniciais de fornecimento , com tarifas controladas pela ANEEL, vão perder gradualmente sua validade até 2005. Aí , toda a energia deverá ser comprada por preços absolutamente livres . Como obras de geração levam anos para ficarem prontas ,as projeções de todos os especialistas ,dos analistas de mercado e de todos os estudiosos nas universidades apontam para uma elevação sensível dos preços da energia já nos próximos anos.
Esta é a previsão de todas as 28 empresas comercializadoras de energia e da própria TRADENER, subsidiária da COPEL ,que atua com grande sucesso na venda de energia.
Na falta de melhores argumentos , nosso Governador contradiz todo mundo e diz que a energia vai baixar de preço, e que porisso ,é melhor vender rápido a COPEL.
A verdade inegável dos fatos é que consumo de energia no Brasil tem crescido nos últimos quinze anos na velocidade média de 7 % ao ano , ou um Paraná por ano. É como se a cada ano fossem ligados no sistema brasileiro todas as industrias , todas as cidades que existem no Paraná. "Todo ano, um Paraná de carga entra no sistema". Como gosta de dizer o Prof. Roberto D’Araujo do Instituto Ilumina. E a geração ? Quanto tem crescido ? Apenas, 3,5% ao ano , desde 1991.
Como ainda não estamos no escuro ? Em primeiro lugar , porque Deus também é Brasileiro .
Em segundo lugar porque a margem de segurança com que foram planejados os reservatórios de nossas usinas foi suficiente para cobrir , até agora , com água de um ano parte do período de seca do ano seguinte.
Como sair dessa ? Com certeza não será entregando, bem agora , o controle do nosso futuro energético a quatro ou cinco grupos privados estrangeiros que estariam livres para fazer aqui o que já fizeram em seu país de origem : deixaram de investir em geração para forçar aumentos de preços.
Exatamente como ,de vez em quando , fazem os países da OPEP ,para subir o preço do barril de petróleo. Só que para convencer a OPEP a aumentar a produção e baixar os preços temos do nosso lado os bombardeiros das esquadras do Tio Sam .E para aumentar a produção , no caso do petróleo , basta abrir de novo as torneiras.
E para convencermos a AES , a EDP , a Enrom e a Duke Energy a investirem em geração para baixarmos as tarifas , com quantos canhões contaríamos ? E aumentar a produção de eletricidade requer construir obras que podem levar no mínimo cinco anos…
Além do mais , preços altos de energia no Brasil ajudariam nossos concorrentes lá de fora na competição pelo mercado internacional , baixando a capacidade de competição de nossas industrias…
A previsão de quase todos os especialistas é que o comércio e a industria do Paraná e do Brasil serão diretamente afetados em sua competitividade pelo que acontecer com a COPEL , Furnas, Chesf e Eletronorte .
Se acontecer no Brasil algo parecido com o que ocorreu com as tarifas na California , muitas empresas verão seus custos subirem numa escalada incontrolável , pois o custo da energia não afetará apenas o seu processo produtivo mas todos os demais insumos e serviços que entram na sua composição. Toda uma cadeia de fornecedores terá aumentos na energia a transfeir para os componentes.
Custos mais altos significam menor competitividade , menos exportação , menos empregos , menos desenvolvimento.
Não sei se é impressão minha ou parece que nossa imprensa tem evitado falar sobre o que ocorreu na California. A verdade é as tarifas chegaram a 800 dólares por MWh no horário de pico no dia 22 de janeiro último quando a crise chegou ao seu auge.(nossa tarifa industrial hoje anda perto de 40 dólares) Dezenas de pessoas morreram em elevadores parados, desastres em semáforos apagados e mesas de operação. Segundo o Wall Street Journal ,mais de 600 empresas já foram à falência devido aos apagões e aos novos custos da energia. O Governo da California pagou 13 bilhões de subsídios para as distribuidoras não "quebrarem". Um motorista morreu quando jogou seu caminhão contra o prédio da Assembleia Legislativa estadual para protestar. No último dia 21 de fevereiro o Senado Estadual autorizou o governo da California a encampar as redes elétricas das duas distribuidoras locais , para pagar os subsídios concedidos.
Dois últimos dados mostram que apesar do silencio da maioria das entidades de classe , alguns empresários já transformaram preocupação em ação concreta : enquanto em 1998 a ANEEL aprovou apenas 28 MW em projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas, em 2000 a potencia total dos projetos aprovados atingiu 499 MW. A maioria de propriedade de industrias que estão se preparando superar a crise. E mais : de 1996 até agora , através de estudos sobre eficiência energética , industriais e comerciantes já de tiraram do sistema 1,2 mil MW ,uma Salto Caxias, que estavam sendo desperdiçados.
Em Minas ,a Federação das Industrias já manifestou interesse em juntar-se à CEMIG para impedir que , no caso da privatização de Furnas, seu controle acionário saia do Estado. "Já levaram todo o investimento que fizeram", disse Salej, referindo-se ao fato de os sócios estrangeiros da Cemig terem enviado para o exterior os lucros que tiveram com o negócio sem reinvestir em Minas.
Com a palavra , sobre a privatização da COPEL e de outras geradoras nesta conjuntura, os empresários do comercio e da indústria do Paraná e do Brasil. Energia barata e fornecida com qualidade é fundamental para a competitividade de nossos produtos aqui e lá fora. Se para alguns o silêncio hoje vale ouro , o choro de todos depois , pode ser de lata…
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni é engenheiro eletricista ,mestrando em engenharia mecânica pela UFPR e consultor em energia , pugnalonfinn@onda.com.br