GLOBO 4/12/98 Leilão da Ceal fracassa por falta de lance
Roberto Machado
O fracasso do leilão de privatização da Companhia Energética
de Alagoas (Ceal) surpreendeu o mercado e os atuais
controladores da empresa – BNDES e Eletrobrás – que ofereceram
87% do capital da companhia de distribuição alagoana pelo
preço mínimo de R$ 313 milhões. O único consórcio que
depositou as garantias na Câmara de Liquidação e Custódia da
Bolsa de Valores do Rio, o grupo Cosepar, liderado pela
distribuidora mineira Cataguazes-Leopoldina, acabou não
comparecendo ao leilão.
O clima na manhã de ontem na Bolsa do Rio, minutos antes do
leilão, já era de apreensão. A existência de apenas um consórcio
pré-qualificado já havia sido uma surpresa, uma vez que até a
tarde de anteontem 14 grupos haviam se pré-apresentado para a
compra da Ceal, incluindo a empresa portuguesa EDP e a
espanhola Endesa. No entanto, a apreensão se transformou em
incredulidade, depois que o leiloeiro Alexandre Hunter declarou
aberto o leilão e nenhum envelope foi entregue. Menos de um
minuto depois, o leiloeiro encerrou a sessão.
A Cataguazes-Leopoldina alegou quatro razões para a
desistência: dívidas trabalhistas, empréstimos de R$ 55 milhões
da empresa alagoana que vencem nos próximos 12 meses,
cláusulas do contrato que inibem a sinergia entre empresas do
setor e o aumento da TJLP – que subiu de 11,6% para 18,6%. O
diretor da empresa Maurício Botelho explicou que os quatro
fatores justificam a desistência:
– Exceto em relação ao aumento dos juros, conhecíamos as
regras do contrato, mas esperamos até o último momento por
uma mudança. Mas continuamos interessados na empresa.
A falta de interessados surpreendeu tanto os responsáveis pelo
leilão que não houve acerto sobre a nova data para a
privatização. O diretor de Gestão Financeira da Eletrobrás, Paulo
Roberto Ribeiro, disse que seria possível vender a Ceal ainda este
mês:
– Queremos vender logo. Se for possível ainda este ano. Isso é
normal num processo de privatização. Pode ter sido um fator
conjuntural – disse Ribeiro.
Já a superintendente da área de privatização do BNDES, Estela
Palombo, disse que, antes de tudo, levará o problema para a
próxima reunião do Conselho Nacional de Desestatização (CND).
O objetivo é ter um diagnóstico do fracasso antes do novo leilão:
– Tivemos realmente uma surpresa. O grupo interessado fez o
depósito e esperávamos pelo menos de dois a três outros grupos.
Vamos levar a questão para o CND e fazer um diagnóstico. Vai
ver teve o impacto das medidas no Congresso – disse Estela,
referindo-se à rejeição da medida provisória da Previdência que
instituía alíquota adicional para servidores ativos e criava uma
contribuição para aposentados e pensionistas do serviço público.
Aroldo Ceotto, presidente da Metal Data, empresa que liderou a
modelagem, disse que o consórcio da Cataguazes pode ter tido
problemas na sua composição:
– O resultado do Congresso pode ter influenciado. Também pode
ser um problema na composição do consórcio.
Fontes ligadas ao processo de privatização afirmam que a
rejeição da MP pelo Congresso, anteontem à noite, realmente
contribuiu para o fracasso. Isso porque a rejeição da MP
comprometeria o êxito do ajuste fiscal.
O ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito, disse que a
razão para o fracasso do leilão foi uma ação trabalhista movida
pelos funcionários da Ceal. Na sua avaliação, os dois consórcios
que disputariam a Ceal desistiram porque uma derrota na Justiça
implicaria um desembolso de cerca de R$ 190 milhões.