Gráficos e dados para entender e pensar – Capítulo V

Capítulos anteriores:

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Esse é o capítulo V.

O resumo do que vimos até agora mostra uma enorme complexidade que se transforma em algo incompreensível para o consumidor de energia. Considerando que estamos tratando de uma atividade cuja tecnologia data do século passado, a complexidade foi introduzida ao se implantar um sistema competitivo em quantidades de energia sobre um parque gerador que apresenta características de cooperativa. Como cooperativados podem competir, se a cooperação é uma forma de organização que reconhece a proteção mútua?

Mas, como há uma forte teoria de que as relações de mercado resolvem o equilíbrio entre oferta e demanda, a maneira “quimérica” foi estabelecer quantias fixas de cada cooperativado que simulem uma quantidade de energia que cada um gera, como se estivéssemos num sistema térmico não cooperativo. Esse é o mimetismo sob o qual vivemos no setor elétrico brasileiro. Não há situação semelhante no mundo.

Portanto, até agora, a partir de dados oficiais, vimos que:

  1. Usinas (térmicas ou hidráulicas) “vendem” sua “garantia física”, um valor que não é a sua geração de energia!
  2. A expansão dessa garantia nos últimos 12 anos se deu principalmente com térmicas.
  3. O consumo total só esteve folgado em dois períodos: 2004 – 2008 e 2014 – 2016 por conta da recessão. No resto do tempo, andamos muito próximo ao limite da garantia.
  4. As hidráulicas geraram acima da sua “garantia física” até 2014. As térmicas geraram abaixo de sua garantia física exceto em alguns meses de 2015. Como as usinas vendem a sua garantia, as térmicas, na realidade, repassaram energia hidráulica.
  5. A princípio, essa estratégia permitiria oferecer energia das hidráulicas mais barata do que a das térmicas, mas, evidentemente isso não pode ser mantido por longo tempo.
  6. Como algumas hidráulicas geram abaixo da sua garantia e outras acima, existe um condomínio entre hidráulicas, que é feito através do MRE (Mecanismo de Realocação de Energia). Vimos que a sua validade depende fortemente do sistema de transmissão.
  7. Essa é uma característica totalmente estranha em sistemas mercantis, pois fios de transmissão não geram energiaNo nosso caso, eles também não geram, mas realocam grande quantidade de energia num sistema de mais de 4.000 km de extensão. Isso não ocorre em nenhum sistema de base térmica.
  8. Até agora, com dados oficiais, mostramos como se deu a oferta e a demanda de energia elétrica no Brasil nos últimos 12 anos. (capítulos anteriores)

Para mostrar, também com dados concretos, evidências dessa “cooperação” entre usinas, nada mais útil do que dar uma olhada na quantidade de energia que fluiu nos troncos de transmissão. Todos os gráficos abaixo mostram GWh (milhões de kWh) no eixo vertical.

Barras vermelhas – Sul socorre sudeste. Barras azuis – Sudeste socorre sul.

Barras vermelhas – Nordeste socorre sudeste. Barras azuis – Sudeste socorre nordeste.

Barras vermelhas – Norte socorre sudeste. Barras azuis – Sudeste socorre norte.

Barras vermelhas – Nordeste socorre Norte. Barras azuis – Norte socorre Nordeste.

Apenas para termos uma ideia do que significam 2000 GWh trafegando for fios que cobrem mais de 1.000 km, essa quantidade é o que o estado do Rio de Janeiro consome em 1 mês na área da Light! Essa longa viagem teria sentido num sistema de base térmica? Certamente não. No Brasil, além de fazer sentido, a quantidade ofertada de energia depende dessas “viagens”.

Conclusões desse capítulo:

  1. O que se pode ver é que, como se esperava, as usinas do Nordeste, para que possam validar suas “garantias físicas”, dependem de grandes transferências de energia do Norte e do Sudeste.
  2. O próprio Sudeste também depende de transferências do Norte e do Sul.
  3. Observar que a energia cedida pelo Norte e pelo Sul ao Sudeste são muito significativas, pois essas regiões têm uma capacidade instalada bem menor que a do Sudeste.
  4. Como símbolo desse sistema, observar que nada impede que alguns GWh gerados no Sul trafeguem através do Sudeste rumo ao Nordeste.
  5. Portanto, se fossemos desenhar uma representação do nosso sistema, a figura abaixo de caixas d’água com vasos comunicantes seria a mais adequada. Essa é a melhor visualização do caráter cooperativo do nosso parque gerador. Ao contrário de outros sistemas no mundo, aqui, a oferta total depende da capacidade do sistema de transmissão exercer o papel de vasos comunicantes entre reservatórios.

Portanto, que característica deveria chamar nossa atenção? Quantos sistemas no planeta podem dizer que a oferta total depende do sistema de transmissão? Qual é a “máquina” que produz a nossa oferta de energia? Apenas as usinas? Óbvio que não! Nossa “máquina” é composta de usinas, reservatórios e linhas. O nome disso é “monopólio natural” e é uma característica tão capitalista quanto qualquer outra. Ver postagem.

Permanece um mistério no ar. A intervenção da MP 579 (redução tarifária “na marra”) causou uma ruptura forte no mundo físico ou não?

Capítulo VI

 

 

 

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Uma resposta

  1. Roberto
    Excelente análise. Esses gráficos falam por si.
    Uma observação sobre o Nordeste. Ainda tem gente na EPE e no MME que afirma que o Nordeste se configura como exportador de energia (por causa do monte de térmicas que instalaram). Dá para levar a sério?
    Quanto à MP 579, seria o caso de se dizer que não foi por falta de aviso. Antes e depois da sua edição, como outras entidades, o ILUMINA mostrou claramente que não ia dar certo.

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