ISTO É 21.01.98 Produção selvagem Busca do lucro piora a qualidade do serviço e provoca acidentes de trabalho em empresas privatizadas USIMINAS O operário Rinaldo Fontes, 21 anos, morreu no setor de …


ISTO É 21.01.98




Produção selvagem

Busca do lucro piora a qualidade do serviço e provoca acidentes de trabalho em empresas privatizadas

USIMINAS O operário Rinaldo Fontes, 21 anos, morreu no setor de laminação, uma semana depois da intoxicação por gás

ANDRÉ VIEIRA E LIANA MELO

“Rio de Janeiro, cidade que me seduz. De dia, falta água, de noite, falta luz”, dizia a marchinha de Carnaval nos anos 50 em alusão à má qualidade do fornecimento de energia elétrica da Light, quando era controlada pelo “polvo canadense”, o grupo privado Brascan antes da estatização no final dos anos 70. Passados 19 meses desde a volta à iniciativa privada, por US$ 2,2 bilhões, para um consórcio liderado pelo empresário Benjamin Steinbruch da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a concessionária vem deixando o Rio às escuras enquanto seus lucros tiveram uma recuperação extraordinária ö de um prejuízo de US$ 111 milhões antes da privatização para mais de US$ 200 milhões em resultados positivos previstos para 1997. O caso ilustra apenas uma parte dos problemas enfrentados pelas estatais vendidas pelo governo. Na semana passada, tanto a Usiminas quanto a Acesita, duas usinas siderúrgicas localizadas no Vale do Aço, em Minas Gerais, tiveram acidentes de trabalho que resultaram em mortes trágicas. “O que está acontecendo é o resultado da busca desenfreada pela maior produtividade”, afirma Geraldo Guimarães, diretor do sindicato dos metalúrgicos de Ipatinga, onde está a Usiminas. Na semana anterior, um vazamento de gás do alto forno já havia intoxicado 28 pessoas.




ACESITA Oito mortes por asfixia e queimaduras nos últimos 12 meses: acidentes preocupam sindicato

No caso do abastecimento de eletricidade no Rio, os consumidores acumulam prejuízos. O empresário Paulo Henrique Pedras perdeu R$ 150 mil em equipamentos da Cervejaria Petrópolis, fabricante da cerveja Itaipava, na região serrana do Rio, em razão dos seguidos cortes de luz no fornecimento da Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro (Cerj), vendida à companhia Chilectra em 1996. “Depois da privatização, só uma equipe de manutenção atende a nossa área. Antes eram duas”, diz o diretor da empresa Roland Reis. Pior para quem está obrigado a conviver, às vezes na penumbra, com as duas companhias. O restaurateur Danio Braga, do Locanda della Mimosa, em Correias, distrito de Petrópolis, é um deles. “Como moro na Lagoa, zona sul do Rio, costumo ficar sem luz porque o serviço da Light anda péssimo. O mesmo vem ocorrendo no meu restaurante que é abastecido pela Cerj. Não tenho para onde correr.” No dia 8, seu restaurante ficou 20 horas sem luz. Diante das volumosas queixas dos consumidores cariocas, o próprio presidente da Light, Michel Gaillard, admite deficiências no fornecimento de luz e diz que também não está satisfeito com os serviços. “Mas não dá para mudar o perfil da empresa em tão pouco tempo.”

A má qualidade dos serviços públicos é a ponta mais visível dos problemas enfrentados pelos consumidores com as empresas privatizadas. Acidentes graves, os quais muitas vezes os consumidores nem ficam sabendo, estão ocorrendo com perigosa frequência nas empresas siderúrgicas. Era quase meia-noite de domingo 11, quando Rinaldo Abreu Fontes foi convocado para a tarefa de limpeza na área de laminação a quente na Usiminas, a primeira estatal privatizada, em 1991. De repente, sua mão esquerda foi puxada pela correia transportadora, sugando o braço, ombro e parte do tórax. Rinaldo, homônimo do presidente da siderúrgica, Rinaldo Campos Soares, teve morte instantânea, segundo o sindicato dos trabalhadores ö para a empresa, Rinaldo veio a falecer no Hospital Márcio Cunha. A morte do rapaz, de 21 anos, foi o primeiro acidente fatal na usina desde 1994, segundo a direção da empresa.



CERJ Cortes de luz provocaram prejuízo de R$150 mil em equipamentos na cervejaria de Reis

Na siderúrgica Acesita, o sindicato dos metalúrgicos de Timóteo, que abriga seus empregados, aponta os acidentes de trabalho como o maior problema de agora. “Quando a empresa era estatal, os operários trabalhavam com mais firmeza e segurança”, afirma Darci Barbosa, vice-presidente do sindicato. Nos últimos 12 meses, a usina teve um crescimento acentuado no número de acidentes com vítimas. Sete dos seus 3,9 mil trabalhadores morreram tragicamente ö três deles com queimaduras e outros dois asfixiados. Na quarta-feira 14, mais uma vítima: Moacir Barros, prestador de serviços na Acesita, não se recuperou das queimaduras de 3º grau provocadas pelo vazamento de gusa líquido do alto forno e faleceu. “A empresa tinha um plano de reformar o alto forno em 1996, mas até agora não fez nada”, diz Marinho Teixeira, presidente do sindicato dos metalúrgicos. Por criticar a situação, Teixeira está com seu contrato de trabalho suspenso.

Os sindicalistas dizem que a direção das usinas vem terceirizando serviços antes realizados por funcionários próprios a fim de reduzir custos, porém as normas de segurança foram deixadas em segundo plano. A Usiminas contava com mais de 13 mil funcionários antes da privatização. Hoje, tem 17 mil pessoas trabalhando na usina em Ipatinga, mas apenas 8,5 mil usam o avental da empresa. Os demais são terceirizados. O esforço das diretorias das ex-estatais para melhorar o ambiente interno e, ao mesmo tempo, os ganhos de produção estão distantes das promessas declaradas pelos defensores da privatização. “Na reestruturação das ex-estatais, a maior crítica é de que os investimentos não são destinados à melhoria do ambiente de trabalho, mas sim ao aumento de produtividade”, afirma Carlos Clemente, especialista em acidentes de trabalho da Força Sindical. A Petroquímica União investiu cerca de US$ 200 milhões depois da privatização em 1994. Quase US$ 50 milhões foram aplicados em projetos de meio ambiente e segurança de trabalho. Um sistema de tratamento de ar dos tanques de caminhões que transportam benzeno, substância altamente tóxica, não saiu do papel. Custa US$ 500 mil. “Não tivemos tempo hábil para construí-lo e pedimos o adiamento do prazo para o final deste ano”, afirma o diretor-superintendente da companhia, Édson dos Santos. Um reconhecido defensor da privatização, o senador José Serra (PSDB-SP) teme que os maus exemplos contaminem o processo de desestatização, especialmente do setor elétrico, que está por vir. “Os tropeços iniciais dos serviços públicos privatizados não devem frear a privatização”, alerta Serra.

Colaborou László Varga




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