Jornal do Commercio 14/12/98
Xadrez elétrico
As participações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) no setor elétrico são a peça-chave de um novo confronto entre o grupo Vicunha, de Benjamin Steinbruch, e a Votorantim, de Antônio Ermírio de Moraes. A revisão iminente dos acordos de acionistas na Light e na CSN abrem caminho para recomposições puxadas pelos sócios mais fortes, como Previ e Bradesco.
Na primeira rodada, em outubro, os principais sócios da CSN não chegaram a um consenso sobre a revisão do acordo de acionistas. Para o acerto definitivo, é preciso que a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, defina o que quer fazer de suas participações siderúrgicas. No caso da CSN, a tendência é que o fundo admita vendê-las, recomendação do Chase, um dos dois bancos (o outro foi o espanhol Santander) contratados para sugerir um redesenho estratégico de sua presença no setor. A mudança de direção do fundo, forçada pelos desdobramentos do caso do grampo e da intervenção revelada pelas gravações na disputa do Sistema Telebrás, não teria alterado essa
disposição. O foco, no setor, ficaria para o núcleo CST/Acesita.
CONTRAPONTO. Steinbruch teria interesse em ampliar a fatia de seu Vicunha na CSN. Não tanto pelo negócio em si, até porque siderurgia não anda exatamente no melhor dos ciclos, mas pelo reforço indireto da presença do Vicunha na Vale do Rio Doce, menina dos olhos de Steinbruch. Nessa hipótese, Steinbruch até já deixou vazar, em conversas com colaboradores e até em declarações para a imprensa, que admitiria incluir uma revisão das parcelas de CSN no setor elétrico (Light e Metropolitana) como parte do acerto.
A Light e a Metropolitana são empresas lucrativas, capazes de uma grande geração de caixa para seus controladores, verdadeiras cash cows, vacas que em vez de leite dão dinheiro a seus donos. Energia elétrica é um bem de consumo interno bem menos sensível às flutuações do mercado internacional e mesmo à recessão doméstica do que o aço. Sabendo disso, Steinbruch espera o melhor momento para negociar, sem ceder à pressa do grande interessado nos ativos da CSN, que incluem também a presença na hidrelétrica de Itá: o Votorantim.
O grupo de Antônio Ermírio de Moraes, o V da VBC( Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa), é quem mais pressiona pela entrada na Light e, principalmente, para evitar problemas com os limites fixados pela Aneel, na hidrelétrica de Itá, estratégica para seus interesses de distribuição na região Sul/Sudeste, por reduzir sua dependência da energia gerada por Furnas. De resto, o Votorantim é um usuário de energia bem mais pesado do que os parceiros da VBC, e trabalhou toda sua influência política e o argumento da invejável liquidez US$ 2 bilhões em caixa
para trazer a Previ para o consórcio vitorioso na CPFL.
FURNAS NA MIRA. O esforço do Votorantim para firmar a aliança com a Previ, maior investidor institucional do País que definiu em favor de Steinbruch, ao lado do Bradesco, a disputa da Vale do Rio Doce, se vincula também à disputa prevista pelas geradoras de Furnas, avaliadas em não menos de US$ 10 bilhões. Nesse xadrez societário, complexo por natureza e tornado ainda mais difícil pela restrição interna e externa de créditos, pesa também, e muito, a inclinação da BNDESPar, detentora de fatias significativas da Light, por sinal com venda prevista para o início do ano que vem, e do BNDES, principal credor da maioria dos grupos privados direta e indiretamente envolvidos na disputa.
Em alta
Cotada até então para a presidência do BNDES, maior caixa de fomento do mundo, a economista Maria Sílvia Bastos Marques entrou na rota das especulações para postos ministeriais, agora. Na hipótese cada dia mais provável de Valdeck Ornellas aceitar o convite para a Seplan, Maria Sílvia seria chamada para a Previdência. Caso isso não ocorra, a economista, diretora do Centro Corporativo da CSN com trânsito entre o alto tucanato e a direção do PFL, poderia ir para o Trabalho. E o BNDES, então? Bem, aí o nome tende a depender da escolha do seu superior imediato, o ministro da Produção. Qualquer dos nomes apresentados pelo ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, ao
presidente Fernando Henrique Cardoso, como o presidente da Perdigão, Nildemar Secches, tem boas chances, desde que combine com o titular da Produção, nome guardado a sete chaves por FHC.
Cota pessoal
Ainda no mesmo estilo, de ouvir aliados mas reservar os orçamentos mais importantes para gente de estrita confiança, o presidente Fernando Henrique Cardoso teria definido o nome do diretor-executivo do Sebrae: Henrique Saraiva, ex-diretor da Sul América.
Chave de força
A joint-venture para manutenção entre a Light e a francesa Alsthom depende apenas do aval da Aneel, agência reguladora da energia elétrica, dirigida por José Mário Abdo. Na joint, a francesa Alsthom terá 51% do capital, mas a Light entra com ativos, daí a necessidade do aval da agência. A expectativa é de que a decisão saia logo no comecinho de 99, e a associação faz parte de um programa de terceirização ultra-agressivo em curso na Light. (Com Larissa Morais)
OFF THE RECORD
ALERTA VERMELHO. A não-renovação do bônus da Coelba, claro, preocupou, por indicar riscos extras de captação para as empresas brasileiras. mas o que assustou mesmo o BC, no movimento cambial de sexta-feira, foram as remessas do Bank of America e do Rabobank, ligadas ao que parece a perdas no exterior. Se a moda pega, com remessas de lucros no Brasil para compensar as muitas escoriações sofridas por gigantes como esses na Ásia e na Rússia, os recursos de emergência obtidos junto ao FMI vão começar a parecer insuficientes.
Pôquer pesado. Para conferir, só mesmo quando a disputa estiver concluída. mas muita gente boa está convencida que a Bell South desistiu na última hora do consórcio com grupos nacionais de peso (Safra, Bradesco, Globopar), exatamente para forçar o adiamento do leilão das empresas-espelho. Como não há perspectivas imediatas de recuperação do crédito barato no exterior, maiores são as chances dos americanos correrem sozinhos pela Telesp, sem ágio, na nova rodada. Maquiavélico? Pode ser. Mas já foi usado em outras disputas, no setor elétrico…