Ministro desmente Lessa sobre idéia de ‘reprivatização’
De Paris, Palocci diz que proposta do presidente do BNDES não existe no governo
JOÃO CAMINOTO
Enviado especial
PARIS – O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, disse desconhecer a idéia de assumir o controle e "reprivatizar" empresas em dificuldades, ao comentar uma entrevista do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, ao jornal Valor Econômico. "A idéia não existe dentro do governo", disse Palocci, depois de participar ontem de almoço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente francês Jacques Chirac.
Na entrevista, Lessa afirma que "grandes empresas em dificuldades, principalmente por má gestão, não podem ser fechadas". "Se elas desaparecerem, criam danos extensivos a toda a sociedade. Então, o que fazer? Hospitalizamos a empresa e dispensamos o empresário." O presidente do BNDES chegou a admitir, na entrevista, que o banco poderá voltar a assumir o controle de empresas em dificuldades e depois devolvê-las à iniciativa privada, como aconteceu com a Aracruz Celulose a a Caraíba Metais, nos anos 80, e defendeu ações de estímulo à parceria empresa/Estado, como no caso da Embraer.
No Rio, Carlos Lessa disse acreditar que a interpretação do ministro Antônio Palocci sobre a idéia de "reprivatização" de empresas foi feita com base numa informação dada fora de contexto. Ontem, ele sustentou que a idéia apresentada por ele "de modo algum se opõe ao que pensa o governo", e deu a entender que Palocci entendeu a proposta como um "novo surto de privatizações". Por escrito, o presidente do BNDES apresentou a sua versão para o incidente entre os integrantes do governo, depois de informar que não comentaria as decisões do ministro.
A íntegra da resposta é a seguinte: "Nós entendemos que descontextualizada a frase poderia até dar idéia de que haveria um novo surto de privatizações.
Mas, rigorosamente, não é isso. O BNDES não quer ser gestor de empresas. Se hipoteticamente o gestor privado perdeu o controle da saúde da empresa, nós assumimos temporariamente este controle, seguindo critérios consagrados pela boa prática econômica, saneamos e devolvemos a empresa à esfera do mercado, que é a esfera privada. Agora como empresa fortalecida e competitiva. Pode ser ou não para as mesmas mãos. E este era o teor da minha entrevista ao jornal Valor e que não se opõe, de modo algum, ao que pensa o governo".
Empréstimo – Ontem, a Parmalat divulgou pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) que está tomando um empréstimo de R$ 27,539 milhões com o BNDES. Segundo o banco, a operação foi aprovada em dezembro pela diretoria anterior e o contrato ainda não foi assinado porque está em tramitação, dependendo da entrega de documentos pela empresa.
O BNDES também confirmou informações divulgadas pela AES Transgás de que aceitou, assim como outros investidores, a proposta da empresa para adiar até 28 de fevereiro o pagamento de ações preferenciais da Eletropaulo, no valor de US$ 336 milhões. A AES queria adiar o pagamento até 15 de abril.
(Colaboraram Irany Tereza e Adriana Chiarini/AE)
AES perdeu US$ 2,7 bilhões no exterior
Resultado do 4.º trimestre incluiu prejuízos da Cemig e da Eletropaulo
RENÉE PEREIRA
A empresa americana de energia AES informou que registrará em seu balanço do 4.º trimestre do ano passado um ajuste de US$ 2,7 bilhões negativos referente à "deterioração de seus ativos" no mundo. Apenas os investimentos no Brasil foram responsáveis por cerca de 47% do montante, sendo US$ 706 milhões da Eletropaulo e US$ 587 milhões da participação na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig).
Segundo o analista do Banco Pactual Pedro Batista, esses registros não interferem nos resultados das empresas nacionais, mas significam que a companhia americana teve perdas em seus investimentos no Brasil. Ele afirma que a participação na Cemig, por exemplo, custou à AES cerca de US$ 650 milhões, mas hoje não vale nem a metade desse valor. Por meio do consórcio Southern Electric Brasil, a empresa adquiriu 14,41% do capital da Cemig. A dívida do consórcio, segundo Batista, é de US$ 700 milhões.
No caso da Eletropaulo, maior distribuidora do Brasil, o problema não é diferente. Seu valor de mercado vem sofrendo quedas consecutivas, com as turbulências do setor elétrico e da economia nacional. Em um ano, as ações da companhia perderam 64% seu valor, para R$ 26,20, no pregão de ontem. Boa parte desse desempenho é decorrente dos problemas que a empresa teve no ano passado para rolar dívidas que se acumularam no segundo semestre de 2002. "O problema é que os ativos se desvalorizaram", afirma o analista do Unibanco Sérgio Tamashiro.
Em nota oficial, o presidente da empresa, Paul Hanrahan, afirmou que "esses encargos refletem os impactos de mudanças nos mercados de energia na Grã-Bretanha e Estados Unidos, e moeda e condições econômicas fracas no Brasil". Ele acrescentou que esses valores não envolvem desembolso de caixa, não causarão impacto algum na posição de liquidez da controladora nem violarão cláusulas de acordos corporativos de financiamentos ou de outras coligadas e controladas da AES.
Segundo a nota, na Grã-Bretanha a deterioração dos ativos representará US$ 1 bilhão decorrente do término de contrato de longo prazo com duas usinas da empresa, movidas a carvão e gás. Segundo Hanrahan, o objetivo da medida é fortalecer o balanço da empresa e melhorar o desempenho dos negócios no mundo.
Transgás – A AES também informou que conseguiu prorrogar o vencimento de US$ 300 milhões da AES Transgás com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e investidores do mercado, para 28 de fevereiro. A AES Transgás é detentora de 64% das ações preferenciais da Eletropaulo. Em nota divulgada na semana passada, a empresa argumentou que por "falta temporária de recursos" teria de postergar o vencimento da dívida.
Esse débito foi contraído em janeiro de 2000, quando o BNDES, que detinha papéis da distribuidora, resolveu fazer um leilão das ações preferenciais da Eletropaulo. Após a compra, a Transgás teve de fazer uma oferta pública.
Cerca de 18% do valor foi pago à vista e o restante dividido em três vezes, com pagamento em janeiro de 2001, 2002 e 2003. O valor vencido no ano passado foi parcialmente pago e o restante rolado até 2004.
Criada para adquirir essas ações, a Transgás detém hoje 39% do capital da Eletropaulo.
MAE liquida hoje operações de outubro
O Mercado Atacadista de Energia (MAE) concluirá hoje a liquidação das operações realizadas no mês de outubro do ano passado, que totalizaram R$ 113 milhões. Por causa do acordo feito no ano passado, apenas 50% do montante será acertado agora e o restante apenas depois da auditoria dos valores.
Segundo o presidente da instituição, Lindolfo Paixão, o processo de liquidação começou ontem e teve 86,3% de adimplência. Isso significa que dos R$ 56,5 milhões (50% do valor total) devidos, os agentes do setor pagaram R$ 48 milhões. "Apenas três companhias não fizeram os depósitos", afirmou Paixão. O montante não pago será revertido em faturas que serão entregues aos credores do setor.
Nos dias 11 e 12, o MAE fará as liquidações dos negócios realizados em novembro, e nos dias 25 e 26, as de dezembro. "Assim, regularizaremos a contabilização e as liquidações do mercado atacadista em 2002", conclui Paixão.
A partir deste mês, as liquidações terão de ser feitas integralmente. O acordo de pagamento de 50% do montante devido apenas é válido para as liquidações atrasadas até dezembro de 2002. Os outros 50% somente serão pagos depois da conclusão de uma auditoria nos números apresentados pelo MAE. Esse acordo foi firmado no ano passado entre a equipe de transição do PT e a do governo de Fernando Henrique Cardoso. (R.P.)
AES prorroga nova parcela da dívida de US$ 1,2 bi no BNDES
Leila Coimbra , De São Paulo
A americana AES enfrenta neste ano o grande desafio de rolagem da dívida da compra da Eletropaulo junto ao BNDES. A dívida total da AES junto ao banco estatal é de US$ 1,2 bilhão, dos quais US$ 920 milhões vencem até dezembro. Em janeiro de 2004, vence a parcela de US$ 274 milhões adiada em 2002, concentrando todo o vencimento nos próximos doze meses. A AES é dona de 70% da Eletropaulo, cujo controle é dividido em duas subsidiárias: AES Elpa, que possui 31% do capital em ações ordinárias e AES Transgás, que tem 39% em papéis preferenciais.
Ontem, a AES conseguiu postergar por um mês, para 28 de fevereiro, o pagamento de US$ 336 milhões de dívida da AES Transgás junto ao BNDES, vencida no último dia 25. O débito refere-se a uma das quatro parcelas em que foi fracionado o pagamento da compra de ações da Eletropaulo no mercado, feita pela Transgás no início de 2000. O BNDES é o maior credor desse montante, com 98% do total. A AES pleiteava o adiamento do vencimento para o dia 15 de abril, mas o banco fechou a prorrogação para o dia 28.
A rolagem por apenas um mês, no entanto, garante fôlego a AES para conversar com a nova diretoria do BNDES na tentativa de uma reestruturação completa da dívida, segundo fonte próxima às negociações. O banco possui as ações da Eletropaulo caucionadas e pode exercer a opção de tomá-las, o que caracterizaria a primeira reestatização de uma companhia elétrica privada no país.
O presidente do BNDES, Carlos Lessa, disse ao Valor que a instituição poderia voltar a controlar empresas em dificuldades para posterior privatização. Fontes envolvidas no processo acreditam, no entanto, que o banco deve preparar um plano de reestruturação da dívida da companhia americana.
Na sexta-feira, outros US$ 85 milhões da AES Elpa junto ao BNDES vencem. O vencimento original desse débito foi em outubro de 2002, mas depois de sucessivos adiamentos o BNDES concordou em prorrogar até 30 de janeiro. A companhia espera para hoje uma resposta da instituição sobre uma nova rolagem deste montante.
A AES Corporation passa por sérias dificuldades financeiras nos Estados Unidos e não possui condições financeiras de honrar os seus compromissos. Na segunda-feira, a empresa anunciou uma baixa contábil de investimentos de US$ 1,3 bilhão feitos no Brasil. Foram US$ 706 milhões da deterioração do investimento feito na Eletropaulo e outros US$ 587 milhões como reflexo da reavaliação do valor de mercado na equivalência patrimonial do investimento feito na Cemig.
No seu comunicado, a empresa alegou como motivo da baixa do valor patrimonial o atual ambiente econômico e regulatório desfavorável no Brasil.
Se, por um lado a AES enfrenta sérias dificuldades para a rolagem da dívida de aquisição da Eletropaulo, a distribuidora, por sua vez, já passou por seus momentos financeiros mais difíceis. "O pior momento da Eletropaulo foi em 2002. Para 2003 o cenário é mais tranqüilo", afirma Sérgio Tamashiro, analista do Unibanco. Em 2002 a empresa reestruturou ou quitou R$ 2,5 bilhões que venceram. Neste ano, os vencimentos somam R$ 950 milhões, aproximadamente.