Márcio Moreira Alves no Globo 24/11/98 Juno e a nuvem Ixion era o rei dos lápitas, um povo que entendia mais de cavalos que o André Lara Resende. As mulheres da Lápita não deviam ser grandes amorosas …

Márcio Moreira Alves no Globo

24/11/98

Juno e a nuvem

Ixion era o rei dos lápitas, um povo que entendia mais de cavalos que o André Lara Resende. As

mulheres da Lápita não deviam ser grandes amorosas, porque Ixion se apaixonou pela deusa Juno,

mulher de Júpiter, mandachuva do Olimpo. Júpiter grampeou seus maus pensamentos e resolveu

castigá-lo. Fez com que uma nuvem assumisse o aspecto de Juno e aceitasse dormir com Ixion.

Assim nasceram os centauros, meio homens, meio cavalos.


Tomar a nuvem por Juno é uma expressão que entrou nas línguas latinas desde os tempos em que

se aprendiam nas escolas as estripulias dos deuses. É uma maneira elegante de dizer que alguém

se enganou ou caiu num conto-do-vigário.


Muitas nuvens passaram por Juno nas últimas semanas e houve também muita gente oferecendo

gato por lebre, que é outra forma de se dizer a mesma coisa, só que, desta vez, a origem da

expressão é plebeiamente camponesa, herdada de Portugal, onde, como aqui, é mais fácil pegar

gatos do que lebres.


O caso dos grampos no BNDES é exemplar: ficou provado que o vocabulário dos principais

personagens, Mendonça de Barros e André Lara Resende – que se demitiram, como era inevitável –

não é o recomendado pelos antigos manuais de etiqueta. Constatou-se, ainda, que estavam

ambos interessados em privilegiar, num leilão de empresas prestadoras de serviços públicos de

telefonia, um dos consórcios concorrentes.


Consideravam que o consórcio, que tinha na diretoria o velho amigo Pérsio Arida, daria melhores

garantias operacionais aos futuros usuários e maior preço ao Tesouro. Finalmente, constatou-se

que não conseguiram fazer com que o seu preferido ganhasse o leilão.


Não se acusou nenhum dos implicados de ganhar dinheiro à custa do patrimônio público. Ao

contrário: o ministro Mendonça de Barros justificou sua conduta dizendo que buscava elevar o

preço do leilão e não foi contestado. Nem mesmo o senador Requião, cujo apreço pela honra

alheia é tão reduzido que chega a inventar falsos criminosos, chamou-o de ladrão com todas as

letras. Apenas sugeriu que o fosse, lendo artigos da Lei das Licitações. O poder público deve

obedecer à Lei das Licitações quando compra alguma coisa e deve, portanto, buscar o menor

preço, disse o ministro. Quando vende, deve procurar o preço maior, e a busca nada tem a ver

com a Lei da Licitações. O argumento pareceu tão lógico que não se insistiu no assunto.


Esta é a nuvem. A Juno, que não foi procurada, tem dois aspectos; um policial, outro estrutural. É

importante que a polícia consiga identificar quem colocou o grampo no telefone da presidência

do BNDES, um crime que não parece interessar muita gente, e, em seguida, encaminhe o nome

dos responsáveis, tanto pelos grampos como pela divulgação de seu conteúdo ao Ministério

Público, para que sejam processados.


O próprio processo de financiar as privatizações é que está estruturalmente errado, como alguns

comentaristas econômicos têm escrito. Quem tem financiado a venda de empresas do Estado a

grupos privados, nacionais e estrangeiros, tem sido o próprio Estado. Sem o BNDES e sem os

fundos de pensão de empresas estatais não se teria vendido quase nada. Não é de estranhar,

portanto, o entusiasmo com que o FMI e o Banco Mundial, que defendem os interesses do mundo

financeiro internacional, especialmente os dos Estados Unidos, recebem este programa, tão

originalmente caridoso. Na Inglaterra, onde a onda de privatizações nasceu e chegou ao auge

com o Governo Thatcher, não passaria pela cabeça de político algum fazer tamanhas concessões

ao setor privado nacional. Ao capital estrangeiro, muito menos.


Até os catadores de papel sabem que o investimento estrangeiro, real ou virtual, acaba remetendo

lucros para o exterior. É para gerar lucros que é aplicado, o que significa onerar a balança de

pagamentos do país.


O último setor econômico importante ainda em mãos do Governo federal é o elétrico, cuja

privatização deverá acontecer nos próximos dois anos. A maior empresa a ser vendida é Furnas,

que tem sede no Rio de Janeiro. O BNDES quer dividi-la em três partes, deixando a transmissão,

que não dá lucro, com o Governo e vendendo as duas empresas geradoras. Os técnicos, inclusive

o presidente de Furnas, dizem que essa modelagem é estúpida.


A primeira providência para a venda já foi tomada: transformar o departamento de energia nuclear

numa empresa independente, a Eletronuclear, que continuará federal. Essa empresa está fadada

a dar prejuízo porque vende energia de Angra I por preço mais baixo que o seu custo. Caso não se

garantam verbas no Orçamento para cobrir o prejuízo, o preço dos sistemas de segurança não

poderá ser coberto.


O único parlamentar federal que tem medo deste Tchernóbil em perspectiva é o Fernando

Gabeira, único solitário representante do Partido Verde. O resto anda namorando nuvens.

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