Na apresentação do plano de ontem, fomos mais uma vez obrigados a ouvir do presidente que a culpa é da falta de chuvas. Fora essa insistência quase pueril, percebe-se a gravidade da situação atrav …

Na apresentação do plano de ontem, fomos mais uma vez obrigados a ouvir do presidente que a culpa é da falta de chuvas. Fora essa insistência quase pueril, percebe-se a gravidade da situação através das decisões tomadas. Primeiro o antigo entusiasmo pelo gás foi substituido por uma reavaliação do número viável de usinas. Nas questões ambientais associadas, aperta-se o Ministério do Meio Ambiente. As questões de impacto de preço, como sempre, continuam esquecidas. A decisão de formar uma empresa comercializadora para comprar qualquer energia e forçar as distribuidoras a adquiri-las repassando o custo ao mercado, mostra duas coisas: primeiro o descompromisso com a minimização do impacto para o consumidor, segundo a morte anunciada da metodologia do MAE. Que bagunça!!!


Especialistas do setor elétrico criticam medidas divulgadas

Dependência do governo ao capital privado pode ser perigoso


RENÉE PEREIRA


O plano para aumentar a oferta de energia elétrica no País, anunciado ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, não recebeu tantos elogios como se imaginava. Na primeira análise feita pelos especialistas do setor, várias medidas foram fortemente criticadas, como a dependência do programa ao capital privado. Segundo o pacote, entre 2001 e 2003, o investimento no setor elétrico deverá ser de R$ 31,525 bilhões. O setor privado responderá por R$ 22,198 bilhões e o governo com R$ 9,327 bilhões.


Na análise do vice-diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade do Rio de Janeiro (Coppe), Luiz Pinguelli Rosa, o maior problema é que o governo quer estimular o investidor estrangeiro por meio do aumento de tarifas. "Daqui a pouco vamos estar pagando energia a preço de ouro", comenta.


Pinguelli Rosa diz que isso pode comprometer o desenvolvimento do País, pois o custo da energia interfere diretamente na formação do preço de vários produtos. Além disso, afirma, com os aumentos da energia, o consumidor residencial novamente será prejudicado. "Seria muito mais prudente o governo usar os recursos da Eletrobrás e de Furnas para expandir o parque de geração de energia", completa Pinguelli.


Outra crítica feita pelo vice-diretor da Coppe é que as novas explorações de energia hídrica barata estão sendo entregues exclusivamente para a indústria eletrointensiva. Ou seja, o consumidor comum não deverá usufruir desta energia.


Paulo Feldman, vice-presidente da Ernst Young, também acredita que a postura do governo de apostar na iniciativa privada pode ser perigosa. Até porque não é possível garantir a adesão dos investidores ao plano. No caso das hidrelétricas, a situação pode ser favorável pois existem regras mais claras. Mas quanto às termoelétricas faltam normas precisas.


Além disso, Feldman desconfia dos números apresentados ontem pelo governo para entrar no sistema este ano. "É impossível incluir mais quatro mil megawatt até o fim do ano." Para 2002, os números são aceitáveis, mas para 2001, é exagero, diz. Na avaliação de Feldman, os próximos dois anos ainda serão bastante complicados para o País. Somente a partir de 2003 as medidas anunciadas ontem pelo governo poderão começar a surtir efeito.


Alternativa – O professor da Universidade de São Paulo, José Goldemberg, esperava que as medidas anunciadas ocorressem em várias frentes, principalmente em relação ao aumento de oferta de energias alternativa. Para ele, não adianta dizer que vai incentivar esses produtores se não houver nenhuma regra que, nesse caso, determine a compra dos excedentes pelas distribuidoras de energia. "Neste momento, todos querem comprar; mas e quando tiver água em abundância?", questiona Goldemberg.


Estado de São Paulo 6/7/2001


Pacote energético dependerá das chuvas

Obras anunciadas não eliminariam a racionalização do consumo


LEANDRA PERES


BRASÍLIA – O pacote de R$ 31,5 bilhões de investimentos no setor de energia, anunciado ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, não resolve o problema da oferta de eletricidade no ano que vem, mantendo a restrição atual ao crescimento da economia. Se as 21 hidrelétricas e 15 termoelétricas previstas no programa forem concluídas exatamente no prazo, mas as chuvas continuarem em 70% da média histórica, será necessário manter um racionamento de quase 10% do consumo no Sudeste e Centro-Oeste ao longo de 2002.


Caso São Pedro ajude e a chuva aumente, o risco cai proporcionalmente. O presidente confia na ajuda divina para contornar o problema. "Deus não vai jogar contra nós. Nós não somos nosso time de futebol. É o País. Duas vezes seguidas não dá", disse o presidente no discurso de apresentação do programa, referindo-se ao porcentual de chuvas necessário para acabar com o racionamento. Ele ressaltou que a crise atual é conseqüência da pouca chuva no ano, e não da falta de investimentos no setor.


Mas para evitar depender apenas da ajuda dos céus, a saída encontrada pelo governo é comprar 4 mil MW de fontes alternativas de energia como barcaças e caminhões de geração, contêineres ou outros equipamentos de montagem rápida e repassar a conta ao consumidor. O custo dessa energia será bem mais alto que aquele pago na eletricidade produzida por hidrelétricas e o governo já avisou que vai repassar esse gasto extra para as tarifas. Ou seja, o consumidor vai pagar o custo do déficit de energia que não puder ser resolvido com investimentos privados ou estatais. Se o governo conseguir comprar toda a energia, o porcentual de economia forçada cai para 5% e pode ser obtido apenas com medidas de racionalização.


"Não podemos afirmar agora de quanto será esse reajuste. Isso vai depender de quanta energia conseguirmos comprar, do preço obtido nas negociações e das fontes de combustíveis usadas na geração", disse o presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE), ministro Pedro Parente.


De acordo com o ministro, não será feito um repasse linear para as tarifas e os porcentuais de reajuste de energia serão definidos com base no subsídio que cada categoria de consumidor recebe. Com isso, os maiores aumentos devem recair sobre a indústria, que recebe subsídio dos consumidores residenciais.


O problema nesse caso passa a ser o impacto sobre a economia.


"O que estamos vendo é que esse ano as repercussões sobre a economia estão sendo muito menores do que se imaginava inicialmente. Além disso, estamos prevendo um consumo no ano que vem 30% superior ao que está sendo consumido, o que não implica restrição ao crescimento", disse Parente.


Recursos – Na lista das hidrelétricas e termoelétricas incluídas no programa de investimentos até 2003 não há nenhuma obra nova. São todos investimentos que já estão em andamento e serão concluídos até 2003.


Além dessas fontes tradicionais, que devem gerar 14.200 MW ao fim do período, o governo conta com a importação de 2.800 MW, com a geração por pequenas centrais hidrelétricas de 846 MW, com a cogeração de mais 960 MW e o uso de mais 1.050 MW de energia eólica para fechar o programa de ampliação de oferta de energia. Está prevista ainda a construção de mais 6 mil quilômetros de linhas de transmissão.


Os recursos necessários para esses investimentos serão divididos entre o governo e a iniciativa privada. Pelos cálculos da GCE, R$ 22,2 bilhões serão investidos pelo setor privado, enquanto as estatais responderão por outros R$ 9,3 bilhões. Esses gastos não terão impacto sobre as contas públicas porque já faziam parte do plano de investimentos do setor público.


A ampliação das redes de transmissão, que terão o objetivo de interligar as diversas regiões do País, custará R$ 1,1 bilhão e essa despesa, de acordo com Pedro Parente, terá impacto sobre as metas do ajuste fiscal. Estado de São Paulo 6/7/2001


CPFL anuncia prejuízo e gastos de R$ 85 milhões com plano de energia

Para presidente da companhia, perdas poderão chegar a R$ 500 milhões ao final de 7 meses


PAULO SAN MARTIN


CAMPINAS – A Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) contabilizou quase R$ 85 milhões de prejuízos e gastos adicionais provocados pelo racionamento de energia. Os cálculos dos prejuízos foram divulgados ontem, na sede da empresa, em Campinas, pelo presidente da companhia, Wilson Ferreira Júnior.


"Se o Anexo n.º 5 não for regulamentado com urgência, deveremos chegar ao final de sete meses de racionamento com perdas de cerca R$ 500 milhões", estimou Ferreira. A regulamentação do Anexo, dispositivo previsto no plano de racionamento, permitiria que as empresas distribuidoras negociassem no Mercado Atacadista de Energia (MAE) a energia economizada acima da meta de 20% estabelecida pelo governo.


A CPFL prevê redução de 25% do consumo em julho. "Isso nos daria um excedente de 5% para vender no mercado atacadista", disse Ferreira. O megawatt-hora (MWh) é negociado hoje a R$ 684 no MAE, quase seis vezes mais do que a média próxima dos R$ 100 por MWh negociado entre os clientes da companhia.


A diferença de valores permitiria a reposição dos prejuízos, na avaliação de Ferreira. "Estimamos que, caso possamos negociar 5% do nosso volume total de fornecimento no MAE e existam clientes para comprar esta energia, equilibraremos nossa perda com a redução de 20% em nossas vendas", disse.


Segundo Ferreira, R$ 70 milhões de prejuízos de junho referem-se à redução de cerca de 23% nas vendas de energia. R$ 15 milhões em despesas adicionais provocadas pelo programa de racionamento: em comunicação, R$ 5,5 milhões; em subst ituição de lâmpadas, R$ 6 milhões; e outros R$ 3,5 milhões em despesas operacionais e adequação dos sistemas de controle.


Queda – A CPFL registrou ontem uma queda acumulada de 25,2% no consumo de energia entre os dias 1.º e 3 de julho em relação à média de energia distribuída em maio, junho e julho de 2000. A economia, de 45 GWh, seria suficiente para abastecer Campinas por uma semana. A CPFL distribui energia elétrica para 234 municípios no Estado de São Paulo.


Ontem, o consumo de energia caiu 23,1% ou 15 GWh em comparação à média das terças-feiras de maio, junho e julho de 2000, o que bastaria para abastecer uma cidade como Itatiba por 19 dias. No domingo, dia 1.º, a concessionária atingiu seu recorde diário de economia desde o início do racionamento, em junho: 28,3%. A economia de energia elétrica em junho foi de 20%.


Por causa do racionamento, cerca 67 mil usuários residenciais tiveram as metas de consumo revistas pela CPFL no primeiro mês do plano. Segundo Ferreira, a empresa recebeu mais de 109 mil solicitações de revisão de meta, mas conseguiu analisar até o momento apenas 83 mil. "Destas, 67 mil foram referendadas". Os pedidos de revisão de meta correspondem à quase 4% do total de clientes da empresa. (Colaborou Luciana Xavier/AE) Estado de São Paulo 6/7/2001


Tarifa vai subir com custo emergencial

GABRIELA LEAL E CLARISSA LIMA


BRASÍLIA – O custo da energia elétrica a ser obtida através de leilões no mercado atacadista será repassado aos consumidores finais a partir de janeiro de 2002, admitiu ontem o presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia, ministro Pedro Parente. Ele não quis antecipar um percentual de aumento, apesar da estimativa de 5% de reajuste das tarifas calculada pelo Ministério de Minas e Energia. Essa energia emergencial é fundamental para reduzir o risco de racionamento em 2002 e 2003.


O ministro garantiu, entretanto, que o impacto para o consumidor residencial será menor porque hoje ele já paga mais pela energia. ïïO repasse não será aplicado de forma linear aos consumidores. Quero dizer que se o aumento existir o consumidor residencial pagará menos que os demais”, explicou. O maior impacto, segundo o ministro, cairia sobre quem recebe mais subsídio, como os consumidores industriais, por exemplo.


Energia mais cara – A demanda por essa energia emergencial, que será fornecida por usinas térmicas instaladas em caminhões ou barcos, por exemplo, é de 3.743 Megawatts médios (MW) nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Essa energia é mais cara porque será gerada por meio de gás, óleo combustível ou diesel.


O governo vai criar uma empresa comercializadora para adquirir essa energia. Essa empresa poderá ser uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), com data marcada para ser extinta. Ela vai durar cerca de dois ou três anos, que é o prazo dos contratos de compra dessa energia emergencial. No dia 16, o governo fará a convocação pública das empresas para os leilões.


Com o aumento da oferta praticamente garantido para este ano e com os leilões emergenciais, o risco de racionamento em 2002 ficará menor. Poderá haver necessidade de economia de 5% nas regiões Sudeste e Centro-Oeste mesmo se as chuvas de dezembro deste ano a abril de 2002 ficarem em apenas 66% da média histórica dos últimos 70 anos.


Expansão – Ontem, o apresentou o Programa Estratégico de Aumento de Oferta de Energia até 2003 com base em obras já iniciadas. A expansão do parque gerador será de 19.918,9 megawatts (MW) até 2003, com investimentos em curso da ordem de R$ 31,5 bilhões. Desse total, R$ 22,19 bilhões são da iniciativa privada e 9,32 bilhões são aportes do setor público.


ïïSe fizéssemos um programa maior, correríamos o risco de não executá-lo”, justificou o ministro das Minas e Energia, José Jorge. O plano inclui 21 hidrelétricas já iniciadas, com capacidade instalada de 7.803 MW, e 15 térmicas, com 6.423 MW. Além disso, serão importados 2.836 MW de energia, basicamente da Argentina. JB 6/7/2001


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