Nem com a ajuda da recessão? – Artigo

A figura acima mostra a evolução da reserva hidráulica de todo o nosso sistema de reservatórios comparada à carga de cada mês no sistema interligado. Cada ponto da curva azul é igual à divisão da reserva pela carga daquele mês. A curva pontilhada vermelha é a média móvel de 12 meses da curva azul.

O círculo vermelho mostra a preocupante situação de outubro (reserva equivalente a 1,5 x carga mensal). Traduzindo, temos uma “poupança” equivalente a 1 mês e meio de consumo.

Claro que estamos no início do período chuvoso, mas é preciso considerar que a grave recessão brasileira reduziu bastante o consumo de energia elétrica de todo o país. A curva abaixo mostra que a carga está estagnada desde maio de 2014. Se estivéssemos na trajetória ascendente da reta verde, a situação seria gravíssima.

Esses são indicadores de que há enormes problemas estruturais no setor elétrico. Se o equilíbrio entre oferta e demanda estivesse normal, o gráfico da poupança deveria ser bem mais alto, dada a ajuda do consumo que não cresce.

As autoridades não gostam dessa análise por alguns motivos, a nosso ver, todos “furados”:

Os argumentos e as nossas respostas em itálico.

  • A situação de seca do nordeste é grave.

A redução de vazão do Rio S. Francisco já é observável desde a década de 80. Quando é que se vai se admitir essa nova realidade, já que nada se faz para tentar reverter a situação? Vamos continuar com uma base de dados que não existe mais?

  • A análise do sistema como um todo não é válida pois o que há na realidade são sistemas regionais.

Se a nossa análise não é válida, é preciso explicar qual o papel dos grandes blocos de energia que trafegam milhares de quilômetros através dos troncos de transmissão do sistema interligado. Infelizmente, por erros de planejamento e destruição da capacidade financeira da Eletrobras, esse sistema essencial já está perdendo investimentos e pode criar gargalos que agravam o problema. Será que é intencional?

Caso haja uma mudança de filosofia e se relaxe o caráter global do nosso sistema, é preciso urgentemente rever o conceito de MRE (mecanismo de realocação de energia) entre hidráulicas onde é possível que uma hidroelétrica localizada a muitos km de distância “compense o déficit de uma outra hidráulica”. Problemas da fragmentação de responsabilidades na gestão do sistema.

Finalmente, para manter o suspense, a pergunta nunca respondida: Por que raios a complementação térmica, que tem papel na preservação do estoque, teve uma súbita alteração justamente no mês de anúncio da medida de intervenção de redução tarifária?

 

 

 

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Uma resposta

  1. Roberto
    Não há dúvida, tratam-se de erros sucessivo, acumulados ao longo de vinte anos.
    O resultado não podia ser outro. Portanto, só não tivemos outro racionamento a partir do final de 2012 porque tínhamos térmicas e agora por causa da recessão.
    Como você salienta, se o consumo tivesse crescido de forma natural, nem as térmicas teriam dado jeito.

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