NO MÍNIMO UM PECULIAR DESTINO TECNOLÓGICO
Olavo Cabral Ramos Filho
…Se a tecnologia é o nosso destino,ele não é uma divindade superior aos homens: o assunto depende ainda de nós; é sempre, e mais do que nunca, um assunto político cuja decisão está em nossas mãos."JEAN JACQUES SALOMON – Titular da Cadeira de Tecnologia e Sociedade do Conservatório de Artes e Ofícios de Paris ( do livro O Destino Tecnológico).
Os defensores do neo-liberalismo, que no terceiro mundo deveria ser chamado de liberalismo sem escrúpulos, dirão que o autor francês citado em epígrafe conceitua coisas válidas exclusivamente no primeiro mundo. Prefiro constatar que, entre outros méritos culturais, o Sr. Salomon não raciocina com os padrões de servidão voluntária com os quais estão acostumadas as elites do terceiro mundo.
A situação dos profissionais de ciência, tecnologia e engenharia no Brasil precisa ser analisada com um enfoque , até extremado, justificado o ranger de dentes por um panorama de fundo do poço, após uma longa história centenária de esperanças, sucessos e sucumbimentos se alternando sem cessar .Drama que afeta a categoria, mas deveria afligir muito mais toda a sociedade, quando projeta para os jovens estudantes dos centros de ciência e tecnologia das universidades o seu negro destino.
Parece consenso que em todos os exemplos históricos de desenvolvimento científico, tecnológico, industrial e econômico, os profissionais de ciência, tecnologia e engenharia tiveram sua existência incentivada e sua posição posta em relevo, como um dos principais agentes daquele desenvolvimento. Os exemplos, em países que conseguiram avançar em bem estar da maioria da sociedade e na sua soberania e autonomia nacional, mostraram sempre, não um lugar de hegemonia corporativista para aqueles profissionais, mas uma posição em pé de igualdade com outras categorias de nível médio e universitário que no decorrer do século tornaram-se majoritariamente assalariadas.
Não é o que tem acontecido no terceiro mundo. Está registrada na história da ditadura militar a aliança tecnocrática-militar iniciada no final dos anos sessenta, com seu auge em meados dos anos setenta. Os profissionais de tecnologia e engenharia ( nem tanto os cientistas!) foram privilegiados, sobretudo no que se refere as suas remunerações. Entretanto, a partir de 1979 as políticas econômicas sucessivas dos governos militares reverteram o quadro, iniciando o processo de debacle das remunerações e – o que foi pior – dos empregos. Qualquer cálculo do poder aquisitivo do salário, por exemplo, de um engenheiro recém-formado, usando-se índices diversos da inflação no país e no exterior, mostra uma redução para a metade, em 1990, em relação a 1960. Dizem os "scholars"do liberalismo sem escrúpulos que salário não se decreta; depende da lei da oferta e da procura . Contudo,seria bom recordar que a debacle das remunerações dos profissionais de ciência, tecnologia e engenharia, começou por decreto em outubro de 1979, pelas mãos de um liberal, o ministro e atual deputado federal Delphim Neto. Naquele momento foi iniciada a prévia da avalanche neo-liberal extrapolada programadamente para o Brasil sem ditadura militar pós 1984. Primeiro, é decidido estrategicamente que países como o Brasil não podem ter nenhuma soberania e/ou autonomia científica e tecnológica. Tomaram providências objetivas e subjetivas para implantar tal situação, conseguem total sucesso, e agora somos obrigados a ouvir falar do divino mercado e da lei da oferta e da procura em cada declaração de economistas empregados no governo, nas grandes empresas privadas, sobretudo do setor financeiro, ou nos dois simultaneamente.
Como num pesadelo ou num cenário de realismo fantástico, o mercado decidiu que os profissionais de ciência, tecnologia e engenharia deixaram de ser necessários em países como o Brasil num mundo, que ouvimos sem cessar, ser chamado de globalizado. Para que seriam necessários se não precisamos, nesse globo, nos preocupar com o luxo de uma simples soberania ? Como conseqüência, para que seriam necessários os cursos de graduação e pós-graduação nos centros de ciência e tecnologia das universidades, quando de seus graduados só se espera competência para montar e fazer manutenção de sistemas e máquinas? Para que investir em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento ? Das universidades sairão profissionais para uma realidade de aprofundamento da dessalarização , do subemprego e do desemprego; da institucionalização de diferenças enormes de remuneração a favor de categorias que as teses hoje vencedoras consideram eleitas – e merecedoras – pelo mercado: categorias peculiarmente hegemônicas do setor financeiro, da medicina e do direito para a alta classe média, todos se beneficiando crescentemente, num processo que parece não ter fim, sendo contudo perfeitamente lógico num país em que a injustiça social já criou abismos piores para dezenas de milhões de excluídos na miséria absoluta.
O país se defronta com a exigência de resolver duas situações, que, ao contrário do que pensam e agem aqueles com pouca imaginação ou muita má fé, não são excludentes no escopo de um sonhado projeto nacional de soberania : programas simultâneos e urgentes de superação da miséria absoluta, trazendo os excluídos para a vida da sociedade, e políticas educacionais, culturais, científicas, tecnológicas e industriais que contribuam para o resgate da situação colonial de toda a sociedade, contribuindo para a recuperação da situação dos profissionais de ciência, tecnologia e engenharia, esses, na sua maioria ,torturados porém conscientes do seu papel como agentes muito importantes para o sucesso do projeto. Conscientes e questionadores: Terminar o século XX em situação pior do que há cem anos – quando otimismo até exagerado estava presente no quotidiano de todos – seria absolutamente necessário para manter a estabilidade monetária ?