O "ato falho" da manchete na notícia denuncia todo o logro do processo de privatização no Brasil. Chamar o resultado da venda de estatais de "receita" é brincadeira! E no mês posterior à venda? Qual é a receita?Além disso, reparem que o valor das empresas em US$ despencou. Mais do que nunca ficou extremamente vantajoso comprar usinas prontas do que construir novas.
GLOBO 21/02/99
Venda de empresas federais e estaduais pode gerar receita adicional de R$ 40 bi
Roberto Cordeiro
BRASÍLIA. O Brasil tem 33 empresas estatais federais e estaduais para serem vendidas nos próximos dois anos. Companhias que estão nos setores de energia elétrica, de saneamento básico, na informática e no sistema financeiro. Vendidas, elas podem representar uma receita adicional de R$ 40 bilhões. Isso sem contar com a licitação de nove bacias de petróleo e gás promovida pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A concorrência despertou o interesse das 43 maiores companhias de petróleo do mundo. Só os 22 grupos que receberam a aprovação da agência reguladora até o momento pagaram US$ 5,74 milhões pelos documentos que contém os detalhes dos blocos colocados em disputa.
As seis geradoras de energia elétrica federais representam o principal ativo a ser leiloado pelo Governo. O presidente do BNDES, José Pio Borges, espera uma arrecadação de cerca de R$ 15 bilhões com a venda do Sistema Eletrobrás. Para fechar o modelo deste negócio, o Conselho Nacional de Desestatização (CND) aprovou a cisão de Furnas, Chesf e Eletronorte. O presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, explicou que o patrimônio das empresas é de R$ 27,8 bilhões.
-O CND já autorizou a cisão das empresas de energia elétrica. Neste processo, vamos preparar a parte de geração para ser colocada à venda e manteremos o setor de transmissão sob o controle da Eletrobrás – disse Firmino.
A cisão das companhias permitirá a surgimento de duas geradoras de Furnas, três geradoras da Chesf e um geradora da Eletronorte. Este processo, segundo Firmino, estará concluído no fim do mês de março. A etapa seguinte se dará com a separação entre as empresas que serão vendidas e a Eletrobrás. No momento seguinte, estes ativos serão incorporados pelo Tesouro Nacional.
– Espero que as geradoras estejam prontas para serem leiloadas em junho. Caberá ao CND decidir qual será o melhor momento para a privatização – explicou o presidente da Eletrobrás.
O secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, acredita que o comportamento do mercado será avaliado na privatização das três geradoras estaduais, cujos ativos equivalem a R$ 20 bilhões. Serão leiloadas as participações da Cesp, Companhia de Geração do Tietê e Companhia de Geração do Paranapanema – que, segundo Arce, podem resultar numa receita de R$ 6 bilhões. A maior preocupação do secretário está relacionada à mudança cambial.
– Se o leilão fosse realizado hoje, possivelmente não teríamos compradores. Para nós, o ideal é que o dólar chegue ao patamar de R$ 1,60 – avaliou.
O Governo federal dispõe também da geradora Manaus Energia e de outras quatro distribuidoras estaduais que foram transferidas para a Eletrobrás no âmbito da negociação das dívidas de Alagoas, Piauí, Rondônia e Acre. No entanto, o BNDES ainda não definiu quando estas companhias serão vendidas.
No cronograma de privatizações federais do CND consta também o Banespa, o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), a Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa), e a Rede Ferroviárias de Armazéns Gerais (AGEF), entre outras. A BNDESPar também possui participações relevantes na Companhia Vale do Rio Doce e na Light, cujos papéis foram desvalorizados por causa da queda das cotações nas bolsas de valores. Ações da Petrobras representam outro ativo na carteira do banco. -Só venderemos as ações da Vale, Light e Petrobras quando o mercado estiver melhor – afirmou um assessor do BNDES.