O Brasil precisa de Belo Monte? NÃO SIM Belo Monte: uma usina cara e inútil Célio Bermann* Com o título "Belo Monte: ambientalistas, índios e o Supremo", O LIBERAL publicou em 25 de abril & …

O Brasil precisa de Belo Monte?


NÃO
SIM

Belo Monte: uma usina cara e inútil


Célio Bermann*


Com o título "Belo Monte: ambientalistas, índios e o Supremo", O LIBERAL publicou em 25 de abril último, artigo do Deputado federal Gerson Peres que faz referência a um texto de minha autoria "O Brasil não precisa de Belo Monte", criticando meu posicionamento contrário ao projeto desta usina no rio Xingú.


Para que os leitores deste prestigioso jornal tirem suas conclusões, trago neste artigo as razões que me levam a afirmar que a Bacia do Rio Xingú está correndo o risco de se tornar uma jazida de megavates cara e inútil, social e ambientalmente insustentável.


Não se trata de anúncio catastrófico, nem de sectarismo. Esta afirmação se apoia em fatos irrefutáveis, sob o ponto de vista técnico e científico, tomando como referência o que aconteceu com Tucuruí, citada como um exemplo pelo Deputado.


Com efeito, em 1997 o Banco Mundial, governos, empresas e organizações não-governamentais constituíram uma Comissão Mundial de Barragens, independente, para avaliar as barragens construídas no mundo. No Brasil, a usina estudada foi Tucuruí. Em novembro de 2000, a Comissão divulgou seu Relatório Final "Barragens e Desenvolvimento: Um Novo Modelo para a Tomada de Decisões", após dois anos de estudos e pesquisas.


Conforme este Relatório, Tucuruí é uma fonte de prejuízos. O custo de geração é de US$ 50 por cada MW-hora. A metade da energia anual produzida pela usina, cerca de 12.000 GWh (ou 12 bilhões de kWh), é vendida para as indústrias de alumínio (Albrás e Alumar) ao preço médio de US$ 20/MWh, o que significa um prejuízo de US$ 200 milhões por ano que a Eletronorte retira do Tesouro Nacional.


A Eletronorte está apresentando custos de geração da usina de Belo Monte distantes da realidade financeira. O custo divulgado de US$ 12/MWh só será atingido com um custo de capital de US$ 400/kW, com uma taxa de desconto de 10% ao ano, para um tempo de retorno de 35 anos.


Entretanto, o custo médio de capital instalado para hidrelétricas é hoje de US$ 1.000/KW. Considerando uma taxa de desconto de 15%, adotada no mercado brasileiro, e um tempo de retorno de 15 anos, período para viabilizar financeiramente qualquer investimento no país, o custo final de geração não será menor que US$ 41,40 por MWh. É um custo extremamente alto, que não considera os custos de transmissão da energia a ser gerada em Belo Monte, que vai dobrar o custo final da eletricidade para as empresas distribuidoras do centro-sul do país.


Com Belo Monte corre-se o risco de repetir Tucuruí, que custou quatro vezes mais que o previsto no orçamento inicial. O custo de investimento de Belo Monte será de 11,18 bilhões de dólares, e não de 3,7 bilhões como diz a Eletronorte. Uma vez aprovado o projeto e iniciadas as obras, Belo Monte irá se tornar numa obrigação para os cofres públicos, que já participam com 70% dos investimentos através do BNDES, conforme a proposta da Eletronorte..


Não apenas os aspectos financeiros mostram a inviabilidade de Belo Monte. Em seu artigo, o Deputado aponta que a produção da pesca, no reservatório de Tucuruí, tem curva ascendente, produzindo hoje 400 mil quilos/mês de pescado. Entretanto, o Relatório da Comissão Mundial de Barragens verificou que na área do reservatório desapareceram 11 espécies de peixes, como tambaquis, pirarucus, douradas e filhotes. Apenas os peixes predadores, como piranhas e tucunarés, aumentaram em quantidade. E é isso que vai ocorrer no reservatório de Belo Monte.


Mas, o maior problema para a Bacia do Xingú é que Belo Monte não virá sozinha.

O projeto com 11.182 MW só vai utilizar esta potência durante tres meses por ano. Nos demais meses, a água disponível só vai possibilitar uma energia firme de 4.670 MW. Para aumentar o fator de capacidade e viabilizar Belo Monte, será necessário regularizar a vazão do rio Xingu, através da construção de outras quatro usinas ­ Altamira, Ipixuna, Kakraimoro e Jarina ­ que formarão reservatórios com áreas tão grandes que a própria Eletronorte tem receio de divulgar. E o mais preocupante: nestas áreas vivem mais de 20 etnias indígenas.


Existem alternativas para aumentar a capacidade de geração, a custos menores e ambientalmente mais adequados. Uma delas é reduzir as perdas técnicas do sistema elétrico brasileiro, da ordem de 15%, que ocorrem nas linhas de transmissão e nas redes de transmissão. Uma redução para 6% – padrão internacional – representaria uma economia equivalente à produção de meia usina de Itaipu, ou cerca de 6.500 MW. Se ao lado disso se engajasse um programa de repotenciação das usinas com mais de 20 anos, poder-se-ia alcançar um acréscimo de potência de 7.600 MW.


Por outro lado, as enormes possibilidades abertas por fontes alternativas de energia ­ eólica, solar, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas -, sem impactos sociais e ambientais significativos, podem aumentar as condições de suprimento de energia elétrica no Brasil de forma descentralizada.


No seu conjunto, estas alternativas tornam possível acrescentar ao Sistema Elétrico brasileiro 33% da atual capacidade de geração no país.


A população brasileira ainda espera para o nosso país uma política energética onde o bom senso prevaleça.


* Professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da USP. Autor do livro Energia no Brasil: para quê? Para quem?. Editora FASE/Livraria da Física, 2002.


Artigo publicado no jornal O LIBERAL, em 05/05/2002.



O Brasil precisa de Belo Monte


Segundo as projeções do Comitê Coordenador do Planejamento da Expansão dos Sistemas Elétricos ­ CCPE, o mercado de energia elétrica do Sistema Interligado Brasileiro crescerá a taxas da ordem de 5% ao ano. Isso implica a necessidade de ampliação da capacidade instalada em cerca de 4.000 MW ao ano, considerando o qüinqüênio 2006-2010. Para fazer frente a esse crescimento de mercado, deverão ser construídos no Brasil novos empreendimentos hidrelétricos e termelétricos. O único aproveitamento hidrelétrico da Bacia do Rio Xingu em estudo de viabilidade é o Complexo Hidrelétrico Belo Monte, que tem o nome de complexo por ser constituído de duas casas de força, uma principal, com 11000 MW, e outra, complementar, com 181 MW.


Potencial


Atualmente, 50% do potencial hidrelétrico brasileiro encontram-se na Amazônia, sendo que somente 5% estão aproveitados. Caso não se utilize o potencial hidroenergético da Amazônia, economicamente e ambientalmente viável, será necessária a implantação de usinas térmicas utilizando combustíveis fósseis e usinas nucleares para suprir as necessidades energéticas brasileiras.


Além do custo da energia de origem térmica ser superior, uma expansão com base em usinas termelétricas provocaria impactos significativos na balança de divisas brasileira, tendo em vista que tanto os equipamentos principais quanto os combustíveis são importados. Acrescenta-se que a emissão de CO2 pelas usinas termelétricas é muitas vezes superior à emissão de gases pelo reservatório da hidrelétrica de Belo Monte, se considerarmos a energia gerada equivalente.


Segundo os Estudos de Viabilidade recentemente concluídos pela Eletronorte, a usina de Belo Monte, com 11.181 MW de potência instalada, acrescentará ao Sistema Interligado Brasileiro 4.796 MW médios de energia firme, o que representa um fator de capacidade de 43%. Todas as usinas hidrelétricas brasileiras apresentam fator de capacidade que variam entre 40% e 60%.


Custo


É importante ressaltar que não se deve determinar o custo da energia gerada por uma usina hidrelétrica através do seu fator de capacidade. O fato de se ter um fator de capacidade alto ou baixo não significa dizer necessariamente que uma usina hidrelétrica é cara ou barata. Fator de capacidade não é índice que mede custo.


A usina de Belo Monte, por exemplo, caracteriza-se como o empreendimento hidrelétrico brasileiro mais competitivo a ser implantado nos próximos 10 anos no cenário energético nacional. Esse custo é de 12,4 US$/MWh (sem considerar o sistema de transmissão associado) ou de 20,5 US$/MWh (se considerarmos o custo da usina associado ao custo do sistema de transmissão).


Os Estudos de Viabilidade de Belo Monte demonstraram a expressiva viabilidade técnica e econômica dessa usina, mesmo sem considerar os possíveis benefícios da regularização de outros reservatórios que possam ser construídos a montante. A interligação elétrica de Belo Monte com outras usinas do Sistema Interligado Brasileiro também possibilita a regularização da energia de Belo Monte, sem a necessidade da construção de grandes reservatórios no rio Xingu a montante de Belo Monte para torná-la viável.


Sistema Interligado


O chamado Sistema Interligado Brasileiro apresenta características próprias raramente encontradas em outros países. Dentre elas, a mais importante é aquela que permite que seus diversos sub-sistemas ajudem-se mutuamente, dando origem à estratégia de operação centralizada, muitas vezes comparada a um condomínio.


Segundo essa estratégia, pode-se gerar intensamente nos sub-sistemas que, em um dado período, estejam em condições hidrológicas favoráveis e enviar parte dessa energia para os demais sub-sistemas, conseguindo-se com isso aumentar o estoque de água (energia armazenada) nestes últimos, sem prejuízo para a qualidade do atendimento.


Dessa forma, a implantação de aproveitamentos com grande potencial de geração, como o de Belo Monte, apresenta considerável vantagem, visto que, além de suas produções locais, os mesmos proporcionam, face à estratégia de operação condominial, efeito semelhante à implantação de vários reservatórios (ainda que, conforme ocorre efetivamente com Belo Monte, não possuam reservatório de acumulação).


Fontes alternativas


Fontes de geração alternativas, tais como as pequenas centrais hidrelétricas, a energia eólica, a biomassa, a energia solar, etc., são importantes e o seu desenvolvimento deve ser incentivado. Entretanto, essas alternativas serão apenas complementares à geração tradicional, e não podem ser consideradas como soluções para a expansão do sistema interligado no médio prazo.


A construção de 982 pequenas centrais hidrelétricas como opção à Belo Monte, conforme é sugerido no artigo, certamente causará impacto ambiental negativo superior à Belo Monte. Enquanto este empreendimento, com 11.181 MW de potência instalada, apresenta um reservatório com área de 440 km2, as 982 pequenas centrais hidrelétricas, considerando cada uma com reservatório de 3 km2, inundarão um total de 2.946 km2 de área, ou seja, quase 7 vezes maior que Belo Monte.


A geração eólica, viável apenas no litoral do Brasil, apresenta-se como uma alternativa também interessante de complementação energética. Entretanto, essa fonte de energia ainda apresenta custo bastante superior ao da geração hidrelétrica (da ordem de 60 US$/MWh) e um fator de capacidade em torno de 25%, muito mais baixo que o de Belo Monte, pois estão sujeitas aos regimes dos ventos, que não são contínuos e nem constantes. Se para o autor do artigo, um baixo fator de capacidade representa alto custo de geração, então o custo de geração da energia eólica também deveria ter sido considerado extremamente alto, e não "com viabilidade econômica" como ele mesmo descreve.


Finalizando, a redução dos índices de perdas é uma meta que vem sendo perseguida por todas as empresas de energia elétrica do país, tanto estatais, como privadas. Entretanto, há de se levar em conta a relação custo x benefício para a redução das perdas. Se o custo de redução de perdas for inferior ao custo de expansão do sistema, então essa alternativa deve ser adotada.


Alexandre Magno Rodrigues Accioly


Assessor de Comunicação Empresarial da

Eletronorte


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