O GLOBO 04.02.98
Governo cobra providências da Light
BRASÍLIA E RIO.
O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), José Mário Miranda Abdo, exigiu ontem do presidente da Light, Michel Gaillard, um plano de emergência para acabar com as constantes interrupções no fornecimento de eletricidade no Rio. José Abdo determinou que a Light instale de imediato dois mil transformadores de rua, contrate profissionais para garantir o serviço de emergência e melhore o atendimento ao consumidor pelo telefone 196.
A ação da autarquia ocorreu após as críticas do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, que semana passada atacou a privatização da Light e da Cerj. O Governo federal mobilizou-se para tentar uma solução para os constantes piques de energia. Para Abdo, a demora no atendimento às reclamações dos consumidores é inadmissível.
– A Light terá que instalar, de imediato, mais dois mil transformadores de rua. A empresa precisa melhorar o canal de atendimento aos seus consumidores. Se o telefone 196 não está funcionado a contento, que busquem outras soluções através do 0800, ou coisa desse tipo. Há a necessidade de ampliar as turmas de emergência, quer seja contratando profissionais experientes, ou terceirizando o serviço de atendimento. Não pode haver demora no reparo do defeito – disse o diretor da Aneel.
O diretor da Aneel informou que no encontro foram cobradas explicações sobre as demissões de funcionários da Light. Gaillard teria dito que a redução do quadro de pessoal não é o responsável direto pelos cortes de energia. No entanto, Abdo ressaltou que essa questão só será devidamente apurada quando os fiscais da autarquia concluírem a auditoria que está sendo feita na Light.
– Existem punições que podem ser aplicadas à empresa. Não descartamos nem a hipótese de cassar o contrato de concessão. Mas não podemos tomar qualquer medida nesse instante. Temos que aguardar a conclusão da auditoria – disse o diretor da Aneel.
Na próxima semana, José Abdo pretende ter a mesma conversa com a diretoria da Cerj. Segundo ele, serão propostas metas de emergência para garantir o fornecimento de energia aos consumidores dessa companhia.
A Cerj e a Light vão ter que dar explicações ao Ministério Público sobre os constantes cortes de energia. A promotora Léa Freire, da Equipe de Proteção ao Consumidor da Procuradoria-Geral de Justiça, disse ontem que vai abrir inquérito administrativo e que, até o fim desta semana, a Light será intimada a explicar os motivos de tanta falta de luz. Também até sexta-feira, Luiz Fernando Voss Chagas Lessa, procurador da República em Niterói, deve instaurar inquérito civil público contra a Cerj e a Aneel. Além de requerer informações sobre a qualidade do serviço, ele pretende pedir a técnicos independentes que verifiquem se os problemas podem estar sendo causados por falhas de operação.
No caso da Cerj, o inquérito civil público foi motivado por uma representação feita, anteontem, pelo Conselho Comunitário da Região Oceânica de Niterói (CCRON), que reúne 33 associações de moradores, clubes de serviço e entidades empresariais.
– Só em novembro do ano passado, houve 34 cortes de energia, sendo oito num único dia. Em dezembro foram 29 e em janeiro, até o dia 15, faltou luz pelo menos 22 vezes – declarou Paulo Ricardo do Vabo, conselheiro do CCRON.
A campanha contra a falta de luz inclui a venda de camisetas e adesivos para carros com a frase “Eu odeio a Cerj”. Detalhe: a letra “i” foi substituída por uma vela.
O gerente de Relações Corporativas da Cerj, José Luiz Echenique, atribuiu os problemas à falta de investimentos durante os dez anos anteriores à privatização. O aumento do consumo, devido ao verão e à estabilidade econômica – mais eletrodomésticos foram comprados – também teria contribuído.
– No ano passado inauguramos seis novas subestações e elas já começaram a operar sobrecarregadas. Em 97, o consumo de energia foi 12% superior ao de 96. Já investimos US$ 150 milhões e este ano pretendemos investir mais US$ 120 milhões, mas tudo isso só vai transformar uma empresa que era muito ruim em regular. Ainda vai demorar um pouco para a empresa atingir o nível ideal.
Mais do que as críticas que tem recebido, o que preocupa a Cerj, no momento, é um fato que ainda está por vir: o fim do horário de verão, no próximo dia 15. Segundo o gerente, o início do horário de verão contribuiu para evitar que os problemas aumentassem num momento em que a geração de energia estava praticamente no mesmo nível do consumo. O fim do horário de verão, ainda durante a estação mais quente do ano, pode contribuir para aumentar ainda mais o consumo de energia.
Na noite de anteontem e na madrugada de ontem, vários bairros voltaram a ficar sem energia no Rio, em Niterói e São Gonçalo. De acordo com a Light, cinco transformadores foram substituídos de madrugada: dois na Penha; um na Ilha do Governador; um na Tijuca e outro na Rocinha. Além dos problemas com transformadores, ocorreram cortes de energia por problemas em linhas de transmissão. Na segunda-feira à noite, moradores do Leblon, da Gávea e do Jardim Botânico ficaram sem energia, mas a Light disse que a culpa foi de funcionários de um supermercado que erraram ao fazer uma manobra nos transformadores dentro do próprio estabelecimento. Com isso, sobrecarregaram a rede da Light e provocaram um problema na subestação do Jardim Botânico, sanado apenas às 23h36m.
Na Rua Saturnino, em Vigário Geral, moradores contaram que, há uma semana, todas as noites o fornecimento de energia é interrompido. A Rua Delgado de Carvalho, na Tijuca, e a Rua das Laranjeiras também tiveram problemas de fornecimento, só resolvidos no início da madrugada. Em São Gonçalo, a falta de energia durou quase toda a noite no bairro Mutuá. Várias ruas ficaram sem energia das 22h até as 4h.
Fio da meada
Privatização da Light não resolve o problema de falta de luz no Rio
Quem esperava que com a privatização da Light os problemas de falta de luz no Rio de Janeiro fossem resolvidos teve uma grande decepção.
A cidade continua a sofrer com a queda de energia que estraga aparelhos elétricos e torna as noites quentes do verão carioca insuportáveis para quem não pde ligar o ventilador ou o ar-condicionado.
A Light se defende acusando o forte calor que faz na cidade de ser o grande vilão. O verão mais quente faz com que as pessoas utilizem um número bem maior de aparelhos de ar refrigerado – adquiridos graças à estabilidade trazida pelo Plano Real – que acabam gerando sobrecargas e queimam os transformadores, segundo a empresa. A Light afirma que 8.500 transformadores foram substituídos no ano passado e outros 10 mil devem ser trocados em 1998.
– Temos um problema cultural: ninguém comunica à empresa que está aumentando o número de aparelhos instalados, assim só descobrimos que o transformador está no limite da pior maneira: quando falta luz – disse Alexandre Coimbra, da Assessoria de Comunicação da Light.
Por causa das constantes reclamações dos consumidores cariocas a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ameaçou cassar a concessão da Light. Mas antes de adotar qualquer medida punitiva contra a Light, a Aneel realizará umaa fiscalização na empresa privada. Segundo Abdo, antes de qualquer decisão, a agência promoverá uma audiência pública no Rio com os clientes da Light.
Em seu site oficial, a empresa informa que investiu R$ 267 milhões na melhoria dos serviços em 1997, sendo R$ 202 milhões na distribuição e transmissão de energia, R$ 34 milhões na geração e R$ 31milhões em informática e material.
A Light teve um lucro líquido acumulado de R$ 200 milhões até o terceiro trimestre de 1997 e o seu ativo em 30 de setembro era de R$ 3,5 bilhões.
Moradores armados obrigam funcionários da Cerj a fazer reparos PLANTAO
RIO, 4 – Um grupo de quase 50 moradores do Bairro Jóquei, em São Gonçalo, reteve por mais de duas horas uma equipe de técnicos da Cerj para que eles resolvessem o problema de falta de energia do bairro. Armados, eles foram hoje de madrugada ao bairro vizinho e pegaram uma equipe da Cerj que fazia reparos no local. Eles ameaçavam os técnicos que tiveram que consertar um transformador, parado por causa de uma sobrecarga. Há duas semanas, todas as noites o fornecimento de energia do bairro é interrompido por volta das 20h e só retorna na manhã do dia seguinte.
O bairro tinha ficado sem luz das 22h de segunda-feira até as 19h de terça-feira. Uma hora depois, o bairro ficou mais uma vez sem energia. Revoltado, um grupo de moradores começou a se preparar para invadir o prédio da Cerj, que fica a cerca de dez quilômetros do bairro. Por volta de 1h de hoje, uma caminhonete da Cerj passou e foi interceptada pelos moradores. Os técnicos foram ameaçados e tiveram que resolver o problema. Com a volta da energia, os moradores voltaram para casa.