O GLOBO 10.07.97 Tema em discussão: Novo modelo para energia elétrica Nossa opinião: Na base, a competição O Estado está se preparando para transferir à iniciativa privada a responsabi …

O GLOBO 10.07.97




Tema em discussão: Novo modelo para energia elétrica

Nossa opinião: Na base, a competição

O Estado está se preparando para transferir à iniciativa privada a responsabilidade pelos

investimentos nos setores de telecomunicações e energia elétrica. Em relação ao

primeiro, o desafio está na criação de um mercado competitivo, com as atuais

operadoras, que serão privatizadas, podendo enfrentar concorrência de toda sorte – até

mesmo na telefonia convencional.

No caso da energia elétrica, o Governo tem como objetivo criar um mercado

competitivo, mas para isso precisa desenhar novo modelo para o setor. O Ministério de

Minas e Energia contratou para isso uma empresa de consultoria, cujo relatório foi há

pouco divulgado. Como o Brasil é dos raros países com todo o seu sistema de energia

elétrica interligado (brevemente, os sistemas Norte e Sul estarão conectados) foi preciso

encontrar critérios para compatibilizar o mercado competitivo com tal estrutura.

Os consultores sugeriram que, nos primeiros anos, as linhas de transmissão de energia

elétrica fiquem aos cuidados de uma empresa estatal, que teria o papel de uma via

pública através da qual qualquer companhia geradora possa entregar eletricidade aos

clientes. Durante uma transição de cinco anos, as tarifas básicas permanecerão sob tutela

governamental. Após esse prazo, o Brasil certamente já contará com um mercado

competitivo, pois as companhias geradoras serão obrigadas a oferecer a terceiros pelo

menos 50% da energia que gerarem. Inicialmente terão acesso ao mercado apenas os

maiores consumidores. No futuro até grandes condomínios residenciais poderão se

organizar para participar da negociação. A gerência do sistema interligado de energia

elétrica provavelmente será exercida por um colegiado. E ao Governo caberá

basicamente o papel de fomentar investimentos. E será o agente regulador do setor

(dando concessões para construção de centrais hidrelétricas e termoelétricas, por

exemplo). Por imposição constitucional, as usinas nucleares e a Itaipu Binacional terão

de ser mantidas na esfera estatal.

O modelo proposto tem a racionalidade como característica básica. Com ele, será

possível atrair capital e viabilizar o considerável volume de investimentos que o setor

exigirá nos próximos anos para suprir o crescimento da demanda interna.




Tema em discussão : Novo modelo para energia elétrica

Outra opinião: Quem?

AGENOR DE OLIVEIRA

Quem vai garantir o fornecimento de energia elétrica? A proposta de reorganização do

setor elétrico apresentada pelo Governo Federal e feita pela Coopers & Lybrand, uma

consultoria inglesa, não responde a questão. Tentam implantar aqui o modelo inglês,

onde as usinas são térmicas, o consumo não aumenta há anos e as distâncias para

transmissão da energia são pequenas. No nosso caso, a maioria das usinas são

hidráulicas, as distâncias grandes e o consumo cresce mais de 5% ao ano, uma enorme

diferença.

Na tentativa de adaptar o modelo inglês ao Brasil, chegou-se a uma colcha de retalhos

que não garante os objetivos que o Governo diz querer: competição, tarifas mais baixas,

atendimento mais eficiente etc. Só garante a arrecadação de fundos para abater a dívida

pública, que poderiam ser obtidos de outras formas, sem o Governo abrir mão da

obrigação constitucional de garantir energia elétrica para a população.

Que competição poderá haver entre empresas mantidas inteiras, como a Light (privada)

e a Cemig (estadual com sócio privado), com as novas pequenas empresas que

nascerão do desmembramento das estatais? Se o Primeiro Mundo já decidiu fundir

empresas para mantê-las inteiras e competitivas, por entenderem que é o caminho para

terem lastro para novos investimentos na expansão dos negócios, por que temos de ficar

na contramão da História?

Como conseguir um atendimento mais eficiente, sem estabelecer responsabilidades para

os novos investidores em geração? No modelo do Governo, ninguém ficará responsável

em atender ao crescimento do mercado de energia elétrica, ponto de partida para o

atendimento eficiente. No final, quem terá que investir será o Governo, aumentando os

gastos públicos, se não quiser que os blecautes se tornem freqüentes. Pior será investir

em usinas térmicas a gás, com equipamentos e combustível importados, aumentando o

déficit da balança comercial.

Há outras formas de se promover a reformulação do setor com competição, mais

eficiência, captação de recursos e atendimento ao crescimento do mercado – sem

desintegrar as empresas federais, como Furnas, a principal do setor e bola da vez do

programa de privatização. O modelo da Cemig, com venda de parte do capital e divisão

de responsabilidades na direção, mantendo o controle acionário com o Governo de

Minas- se adotado pelo Governo federal – poderia garantir recursos expressivos, além

de manter a integridade da empresa para enfrentar os desafios futuros. A gestão

compartilhada entre Governo, consumidores, e um sócio privado certamente trará

benefícios. Os cargos de direção não poderão ser mais distribuídos em função do

fisiologismo político-partidário e não haverá a prevalência desmedida do lucro. A pressa

em implantar o novo modelo não mede as conseqüências do desmonte de um setor que

levou anos para se estruturar, e que é reconhecido como um dos mais eficientes no

Brasil e no exterior. O melhor exemplo dessa inconseqüência é a tentativa de retirar do

complexo energético de Furnas as usinas nucleares de Angra dos Reis, primeiro passo

para desintegração da empresa. O trabalho da consultoria inglesa é importante para

trazer o debate aos consumidores, ao Congresso e a sociedade. Não é hora de fechar a

questão, sob o risco de voltarmos aos racionamentos dos anos 60, incompatíveis com

um país que quer chegar ao Primeiro Mundo.

AGENOR DE OLIVEIRA é diretor da Associação dos Empregados de Furnas (Asef).




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