O GLOBO 19.07.97 Miriam Leitão Panorama econômico E-mail: paneco@oglobo.com.br A turma do repasse Existem empresas que no Brasil estão protegidas dos rigores do capitalismo, da economia aberta e da desindexa&ccedi …

O GLOBO 19.07.97




Miriam Leitão

Panorama econômico

E-mail: paneco@oglobo.com.br

A turma do repasse

Existem empresas que no Brasil estão protegidas dos rigores do capitalismo, da

economia aberta e da desindexação. Elas não entraram ainda no sufoco de cortar custos,

buscar eficiência, negociar com fornecedores a redução de preços, enfim tudo o que

ocupa a agenda das empresas modernas. É a turma do repasse. Nela estão as empresas

de ônibus, as companhias aéreas e as empresas privatizadas de serviço que ainda têm

preços indexados.

O Governo que desindexou a economia está privatizando a indexação. As empresas

públicas estão sendo vendidas com cláusulas que mantêm o direito de o comprador

reajustar tarifas de acordo com a inflação passada. Foi assim com a Light e agora com a

CEG e Riogás. Isto contradiz o plano de estabilização e revoga a vantagem da

privatização. Se o setor privado é mesmo mais eficiente que o setor público na gestão

das empresas haverá ganhos de eficiência. Só que se ele houver será tudo do comprador.

O consumidor precisa esperar alguns anos para começar a se apropriar de alguma

vantagem da privatização. Isso deseduca e enfraquece o programa.

No caso das empresas de ônibus, as prefeituras organizam o cartel. À sombra destas

tarifas baixadas pelo poder público escondem-se trocas de favores, financiamento a

campanhas eleitorais e seguidos abusos aos consumidores. No caso das empresas de

transporte interestadual, o pedido de aumentos a Brasília já deu no que deu no Governo

Collor. Hoje, o dinheiro deles não está servindo para reformar casa de autoridades, mas

os aumentos são concedidos com a mesma ótica míope de repasse de inflação passada.

O setor teve há dias um aumento de 13%. Quando reajusta o salário-mínimo, o Governo

diz que é preciso olhar para frente, para a expectativa de inflação do ano, no caso 7%.

Ao reajustar os ônibus não se sabe para que lado olham as autoridades porque nem no

ano passado a taxa ficou em 13%.

Mas, de todos, o negócio mais seguro é mesmo o das companhias aéreas. Elas nem

precisam de uma Rodonal, ou algo que o valha. Têm o DAC. O Estado faz todo o

trabalho de organização e representação do cartel. O GLOBO de ontem foi claríssimo

ao mostrar que as empresas brasileiras cobram o dobro do que cobram as empresas que

fazem transporte doméstico nos Estados Unidos, França e Argentina. Mesmo assim

continuam querendo e obtendo “repasses” de custos.

A idéia do repasse está casada com tudo o que há de velho na economia brasileira. Tudo

do que o país vem se livrando com as duas revoluções da década de 90: a abertura

comercial e a estabilização. Sabendo que pode repassar seus custos adiante, a empresa

fica preguiçosa, leniente com os próprios erros, ineficiente. Por fim repassa para os

consumidores não os custos, mas a própria incompetência. É um processo que subverte

o capitalismo no que ele tem de qualidade: a exigência da eficiência, o risco, a

competição. É um processo que conspira contra os consumidores e solapa a própria

empresa. Hoje, apesar de todas as vantagens, a maioria das companhias aéreas

brasileiras acumula prejuízo.


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