O GLOBO 5.09.97
FURNAS – LUTA PELO RIO
Lima Neto
Atenção cariocas e fluminenses! Querem tirar FURNAS do Rio de Janeiro. O modelo que está sendo proposto pelo Ministério de Minas e Energia para a privatização de Furnas divide a empresa em diversos pedaços. Como conseqüência, a empresa vai sair do Rio. Vão esvaziar mais ainda o Rio. Dos impostos que Furnas paga, R$ 130 milhões por ano vão para o Tesouro do estado e do município do Rio de Janeiro. Além disso, gera milhares de empregos diretos em sua sede em Botafogo, produzindo renda de salários e benefícios da ordem de R$ 270 milhões/ano que movimentam a economia local, sem contar os empregos indiretos. Efetua compras de materiais e serviços no mercado local de mais de R$ 150 milhões por ano. Em termos de PIB, por conta de sediarem Furnas, estado e município contabilizam entre R$5 e R$6 bilhões.
Furnas supre 43% da energia do país, 69% das regiões Sudeste e Centro-Oeste, quase 90% do Rio de janeiro e 100% do Distrito Federal, o que pressupõe preocupações com a segurança nacional. Não seria interessante para o Brasil que fosse controlada por um único privado, como é o caso da Cia. Siderúrgica Nacional (CSN)e da Vale do Rio Doce.
O modelo proposto pelo BNDES. Ao contrário do proposto pelo Ministério, separa somente a parte de transmissão, deixando a geração integrada, com sede no Rio. A transmissão ficaria numa empresa estatal. Essa solução não é a ideal, mas é a melhor para o Rio. A solução ideal é privatizar a empresa toda como ela é hoje, mantendo-se a integridade da mesmo e a unidade de seu acervo tecnológico. Furnas íntegra será o caminho natural para a atração de capitais privados, nacionais e estrangeiros, com o objetivo de expandir o sistema elétrico e o desenvolvimento econômico do país. Essa fórmula permite a abertura do capital do capital da empresa, através da atração de parceiros institucionais estratégicos, que abrangerá tecnologia de gerência privada e capital para novos investimentos.
Furnas é uma grande empresa, com imensa capacidade tecnológica, que não pode ser ignorada e que desaconselha sua divisão em várias empresas de porte menor e muito menos atraentes para o investidor privado.
Há trilhões de dólares de capital financeiro buscando pouso seguro, uma âncora firme e rentável que somente uma empresa de grande porte, sólida e com capacitação tecnológica, como Furnas íntegra, pode ofertar. O capital global busca segurança e rentabilidade – daí a proposta de manter-se a unidade de Furnas, aumentando sua atratividade para investidores privados nacionais e estrangeiros, para alianças estratégicas com o capital privado.
Furnas, detendo uma tecnologia e experiência acumulada em 40 anos de atividade, por sua posição estratégica no setor elétrico brasileiro, abastecendo a região mais desenvolvida do país, além da sede do governo da República – o que implica em questão de segurança – se mantida sua integridade como empresa de grande porte e, assim, atrativa para o capital privado, poderá com capital democratizado e com novos sócios em novos projetos passar por um processo inteligente de desestatização, tornando-se uma empresa ainda maior, mais ágil e ainda mais produtiva, preparada para um novo salto de desenvolvimento do país.
O acerto dessa política de parceiros foi comprovada em Serra da Mesa, que está sendo construída por Furnas com investidores privados detentores de capital destinado ao negócio de energia elétrica. Serra da Mesa entrará em operação em março próximo. O empresários certamente não se animariam a fazer esse negócio com uma empresa de pequeno porte ou com Furnas subdividida em várias empresas e fragilizada econômica e tecnologicamente.
O investidor internacional, interessado em energia elétrica no Brasil, precisa Ter um ponto de apoio para começar as conversações sobre seus novos investimentos, uma grande empresa do setor elétrico para negociar. A primeira indagação de um empresário estrangeiro, disposto a investir num país, é com quem conversar. O investidor quer Ter contato com uma empresa grande, que detenha tecnologicamente informações indispensáveis, experiência e credibilidade. Furnas enquadra-se nessa perspectiva de grandes negócios, de grandes parcerias, na área da energia.
Temos de repensar nosso modelo de privatização. Os absurdos que estão acontecendo na Cia. Siderúrgica Nacional(CSN), que está implementando uma política selvagem com grandes danos para a região de Volta Redonda, Barra Mansa e Pinheiral, mostram a urgência de se discutir nosso modelo. Nossas grandes empresas não podem ser vendidas concentrando-se o capital nas mão de uns poucos grupos empresariais que praticam um capitalismo selvagem.
A venda de Furnas integrada, sendo feita em modelo de dispersão das ações em bolsa, seria muito mais rentável para o país. O clube dos empregados e aposentados poderia ser financiado para comprar 10% das ações votantes , os fundos de pensão poderiam ser autorizados a comprar 10% cada um e as ações restantes seriam vendidas no mercado, permitindo, inclusive, que qualquer trabalhador, usando parte de seus ativos no FGTS, também participasse do negócio.
Termino com um apelo para a atuação conjunta, envolvendo a classe política, trabalhadores, empresários e, especialmente, a mídia. O Rio tem que se unir. Sem união, vamos perder mais uma jóia da coroa. Você concorda?
Lima Neto é deputado federal pelo PFL/RJ