O ministro Tourinho já vai anunciando um aumento de tarifa depois da privatização. Transmite um recado dos "investidores" que supostamente salvarão o país de um desabastecimento de energia gravíssimo. Investimentos em novas usinas mesmo que é bom, nada! Muita conversa de bastidores, muito lobby, muitas concessões de favores que vão amoldando o setor ao estilo de um capital que espera 20% de retorno, no mínimo!.
JB 25/5/99
Funcionários de Furnas decidem entrar em greve
MAIR PENA NETO, TEODOMIRO BRAGA E LUIZ ORLANDO CARNEIRO
RIO, BELO HORIZONTE E BRASÍLIA – Os funcionários de Furnas entram em greve a partir de zero hora de hoje contra a privatização da empresa e o modelo de cisão proposto pelo governo, que divide Furnas em duas empresas de geração e uma de transmissão. A assembléia dos acionistas que decidirá pela cisão da empresa está marcada para quinta-feira, embora ainda dependa da derrubada de uma liminar impetrada pela Associação dos Empregados de Furnas.
Em assembléia realizada ontem, os funcionários de Furnas recusaram o pedido de mais um dia de crédito feito pelo novo presidente da empresa, o ex-ministro Luiz Carlos Santos. Os funcionários reclamam o não pagamento do abono e a dívida da empresa com a Fundação Real Grandeza, fundo de pensão dos empregados. A dívida com a Fundação Real Grandeza, estimada em R$ 1,2 bilhão, seria absorvida pela empresa Geração 1, segundo acordo feito com o ex-presidente de Furnas Luiz Laércio Simões Machado, mas o BNDES recomendou que fosse reestudada e provisionada pela Eletrobrás, que ficará com a empresa de transmissão.
Mau negócio – Em Belo Horizonte, no encerramento da fase de depoimentos da comissão de juristas criada pelo governador Itamar Franco para estudar a desestatização do sistema elétrico, o cientista Luís Pinguelli Rosa afirmou que a privatização de Furnas será um "pessimo negócio" para o governo. Pelas estimativas de venda de Furnas, segundo Pinguelli, o governo vai arrecadar apenas R$ 3,4 bilhões com o leilão do controle acionário das duas empresas de geração que assumirão as atividades de Furnas nessa área.
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) ingressaram, no Supremo Tribunal Federal, com pedido de liminar em ação de inconstitucionalidade contra a Medida Provisória 1.819, do último dia 30 de abril, que trata da reestruturação dos serviços de energia elétrica no país e da privatização das companhias estatais de energia. De acordo com os partidos, a MP contraria dispositivo constitucional que exige prévia autorização legislativa para a criação de subsidiárias de empresas públicas, sendo seu objetivo prático viabilizar o processo de privatização de Furnas.
Será apresentado hoje pelo ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, o novo sistema de segurança do setor elétrico brasileiro, que pretende livrar o país de apagões como o de março passado.
Globo 25/5/99Funcionários de Furnas entram em greve
Roberto Machado e Walter Huamany
RIO e BELO HORIZONTE. Em protesto contra a privatização de Furnas, os funcionários da empresa decidiram entrar em greve à meia-noite de ontem. Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Urbanitários, Alderísio Catarino dos Santos, não deve haver interrupção do fornecimento de energia elétrica e a população não será prejudicada. O sindicato montou um esquema de plantão para garantir a manutenção dos serviços essenciais.
– As operações da empresa vão continuar e a população não será prejudicada. Só não posso garantir que não haverá anormalidades porque isso não depende só da gente. No dia 11 faltou luz e não havia nenhum sindicato em greve. O risco existe sempre, mas é bom salientar que manteremos as operações essenciais da empresa – afirmou o sindicalista.
Os funcionários pretendem permanecer em greve pelo menos até quinta-feira, data marcada para a assembléia que deve decidir pela cisão de Furnas – o primeiro passo para a privatização.
O ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, admitiu ontem que as tarifas de energia elétrica poderão ter reajustes após a privatização de Furnas. Segundo ele, o país tem que se adaptar aos custos reais, principalmente em função da desregulamentação total do setor, prevista para 2002.
O ministro disse que a energia ainda é barata em relação a outros países e que os ajustes poderão acontecer nesta fase de transição, embora não especificamente por causa da desestatização de Furnas.
– De um modelo estatal para um modelo privado, você pode ter algum tipo de ajuste. Isso faz parte do sistema – disse Tourinho, em entrevista à rádio CBN de Belo Horizonte.
Tourinho explicou que a intenção do Governo federal é dividir Furnas em três empresas, sendo duas de geração e uma de transmissão de energia elétrica. Inicialmente, somente as duas primeiras serão privatizadas. Ele afirmou que o modelo permitirá uma concorrência maior entre as vencedoras do leilão, provocando até uma redução da tarifas.
Apesar da decisão do Governo, seis liminares impediram a realização da assembléia que trataria da cisão, no fim de abril.
Segundo o ministro de Minas e Energia, a privatização é o único caminho para garantir investimentos no setor. Ele disse que não se trata de um objetivo financeiro e sim de uma estratégia para atrair o capital privado, assegurando a retomada do desenvolvimento energético.
Tourinho acrescentou que ainda não foi acertada a destinação dos recursos provenientes da venda de Furnas, empresa com patrimônio líquido estimado em R$ 10,4 bilhões e que teve um lucro de R$ 453 milhões em 1998.
– Esse dinheiro não é carimbado. Vai para o Tesouro Nacional – afirmou o ministro.