Onda de investimentos amplia sistemas de transmissão
Obras começam a sair do papel e gargalos vão sendo eliminados
RENÉE PEREIRA
Vilão durante o racionamento de energia, o sistema nacional de transmissão começa a viver novos tempos. Aos poucos, os principais gargalos vão sendo eliminados, com obras que enfim saem do papel. Nos próximos meses, importantes linhas serão inauguradas em trechos estratégicos do País, permitindo o intercâmbio de eletricidade entre as regiões. A previsão é que até dezembro, pelo menos, 11 obras sejam concluídas, segundo relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Outras 19 linhas entrarão em operação a partir do ano que vem. Boa parte delas estará disponível entre os meses de janeiro e maio, inclusive o trecho que causou mais polêmica durante o racionamento, por causa da incapacidade de transferência de energia do Sul para o Sudeste. A linha Bateias (PR)/Ibiúna (SP), construída pela estatal Furnas Centrais Elétricas, começará a funcionar em março de 2003 e permitirá o intercâmbio de mais dois mil megawatts (MW) de energia entre as duas regiões. Se essa linha estivesse disponível no ano passado, o impacto do racionamento na Região Sudeste teria sido menor, pois o Sul estava com os reservatórios cheios.
No total, serão 34 linhas concluídas até 2004, das quais 15 estão no programa emergencial do governo federal para antecipar a operação das linhas de transmissão. A iniciativa do governo, diferentemente do que vem ocorrendo na área de geração, em que os projetos estão estagnados, surtiu efeito positivo. Algumas linhas estão com o cronograma adiantado e o funcionamento será antecipado em até cinco meses.
É o caso da ligação entre Tucuruí/Presidente Dutra, no Norte do País, construída pelos grupos nacionais Schahin e Alusa. A linha começará a funcionar entre dezembro e janeiro, quatro meses antes do previsto, explica o diretor da Área Comercial Eletromecânica da Schahin, Teofrasto de Souza Barbeiro. Segundo ele, a obra envolveu investimentos da ordem de R$ 650 milhões.
Até agora o grupo já injetou cerca de R$ 1,4 bilhão no setor elétrico com três linhas de transmissão: Campos Novos/Blumenau, no Sul, e Tucuruí/Vila do Conde, no Norte, ambas já concluídas. No último leilão realizado pela Aneel, o consórcio das duas empresas arrematou outras duas linhas, a Tucuruí/Açailândia e Vila do Conde/Santa Maria. A primeira será imprescindível para transportar a energia da Hidrelétrica de Tucuruí, que fornece energia para a Regiões Norte, Nordeste e Sudeste, e está passando por obras para duplicar sua capacidade de geração.
Duas outras linhas, da Expansion (formado pelas espanholas Cobra, Elecnor, Isolux e Abengoa), reforçarão o sistema interligado nacional. As ligações, Samambaia/Itumbiara e Samambaia/Emborcação, localizadas em Minas Gerais e Distrito Federal – já estão em fase de teste e devem começar a operar nos próximos dias, garante o diretor-geral da empresa, Ramon Sade Haddad.
Segundo ele, as obras foram antecipadas em cinco meses e vão ampliar a capacidade de intercâmbio entre o sistema Norte/Sul de 900 MW médios para 1,2 mil MW médios.
Linhão – Ainda beneficiando as mesmas regiões, a italiana Enel vai concluir uma parte em abril e outra em outubro de um dos maiores linhões do País, com 1.200 quilômetros (km) de extensão, interligando as subestações Samambaia, no Distrito Federal, e Imperatriz, no Maranhão. A empresa está investindo fortemente no setor elétrico e deu passo importante quando conseguiu a concessão para a construção da interligação Sudeste/Nordeste, de 1.050 km. A linha estará concluída em dezembro, afirma o diretor comercial da empresa, Henry Floquet.
Segundo o superintendente de Concessões e Autorizações de Transmissão e Distribuição da Aneel, Jandir Amorim Nascimento, outros leilões serão promovidos nos próximos meses para continuar a expansão do segmento. Em dezembro, por exemplo, está previsto o edital das licitações que ocorrerão em março. Serão 6 lotes com 11 linhas, totalizando investimentos da ordem de R$ 1,6 bilhão.
Nascimento explica que, embora o sistema tenha grande participação de empresas estatais, a tendência tem sido de aumento da participação do setor privado. O que deverá prevalecer nos próximos leilões. Para ele, o negócio de transmissão é bastante vantajoso, pois o investidor tem receita garantida. Nos leilões, os vencedores são aqueles que oferecem a menor tarifa de transmissão. O mesmo critério tende a ser adotado também nas concessões de usinas hidrelétricas, como o PT já manifestou interesse. Dessa forma, o dinheiro aplicado para ganhar o empreendimento seria injetado para conseguir gerar uma energia mais barata.
Para Haddad, diretor-geral da Expansion, a área de transmissão é a mais bem resolvida do setor elétrico, pois as regras são claras. "E ainda há muitas oportunidades a serem exploradas nesse segmento."
Dessa forma, ao contrário da geração, os negócios de transmissão estão andando. Trata-se de uma área bastante importante para o setor, principalmente porque o sistema interligado nacional exige linhas extensas.
Além disso, num sistema predominantemente hidrelétrico e com regime climático diferenciado em cada região, o aumento da capacidade de transporte dá uma grande flexibilidade para fluxo de energia no País.
Lula deve revisar política tarifária de Itaipu
LÁSZLÓ VARGA
DA REPORTAGEM LOCAL
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva terá uma árdua tarefa no setor de energia elétrica quando assumir o governo. Isso porque a redução de 15,4% que Itaipu fará nos preços de suas tarifas em janeiro (leia texto abaixo), que já foi antecipada pelas estatais Eletrosul e Furnas às distribuidoras, deve ter seu efeito revisto para os consumidores.
Isso porque os consumidores não foram beneficiados por uma redução de preços com a medida. Ao contrário. Distribuidoras como a Bandeirante (São Paulo) e Light (Rio de Janeiro) remarcaram suas tarifas em 19,09% e 17,11% nos últimos dois meses, com a chancela da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A justificativa da Aneel é que os reajustes poderiam ter sido bem maiores para os consumidores, pois as tarifas de Itaipu são dolarizadas e tiveram uma forte alta em real nos últimos meses. O que teria pesado nos custos das distribuidoras. Os 19,09% de aumento autorizado para a Bandeirante, por exemplo, poderia ter chegado a cerca de 22%, caso Furnas e Eletrosul não tivessem antecipado a redução de preço de Itaipu.
Para Luiz Pinguelli Rosa, um dos responsáveis pela elaboração do programa de energia elétrica do PT, o caso não é bem assim. Pinguelli, que é professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que as tarifas de energia das distribuidoras foram inchadas nos últimos anos. O que exige agora uma revisão da maneira pela qual a Aneel trabalhou com a redução da tarifa de Itaipu.
"O modelo de energia elétrica do próximo governo vai reconsiderar o repasse dos custos de Itaipu", afirma Pinguelli, um dos cotados para o Ministério de Minas e Energia. "Não digo que o repasse para o consumidor deve ser maior ou menor. Mas terá de ser reestudado."
Um dos motivos para a revisão é o fato de que, desde 1995, primeiro ano do governo FHC, até agora, o valor médio das tarifas das distribuidoras aumentou 235,07%. O INPC teve alta de 92,13% no mesmo período.
"A redução da tarifa de Itaipu deve ser repassada para o consumidor o quanto possível. Mas também é preciso levar em conta que o governo terá também de garantir a capacidade de investimento das distribuidoras", diz Pinguelli.
Desenvolvimento
Há especialistas em energia mais radicais sobre o tratamento que o futuro governo deve dar à energia. "A eletricidade ainda é um vetor de desenvolvimento no Brasil. Não pode ser encarada como negócio. Defendo a volta aos preços históricos das tarifas", afirma Carlos Barreira Martinez, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Isso significaria uma drástica redução nos preços. A tarifa média atual de energia elétrica no país é de R$ 140,06. Em 1995, quando o atual modelo energético de beneficiar as distribuidoras para que investissem no aumento de capacidade ainda engatinhava, o valor era de R$ 59,58.
Na própria Aneel, executivos entendem que Lula terá de rever boa parte do modelo, como a adoção do IGP-M como um dos parâmetros para o reajuste anual das tarifas das distribuidoras. O IGP-M acumulou 131% de 1995 para cá, contra os 92,13% do INPC.
Procurada pela Folha , a Abradee (Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica) afirmou na semana passada que não tinha nenhum executivo disponível para comentar o caso da redução dos preços de Itaipu.
Preço de energia cairá pois usina vai quitar dívida
DA REPORTAGEM LOCAL
Cerca de 35% da demanda de energia elétrica das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste é atendida por Itaipu. A usina, a maior do mundo, responde também por 95% da eletricidade consumida no Paraguai. O diretor-superintendente de administração da empresa, Rogério Piccoli, afirma que a decisão de reduzir a tarifa de US$ 18,83/kW por mês para US$ 15,93 em janeiro de 2003 se deve à redução dos custos da empresa.
"Em 2002 vamos liquidar o pagamento de uma dívida atrasada de US$ 219 milhões em royalties para o governo federal, Estados e municípios", afirma Piccoli. Isso reduzirá os custos operacionais da usina de US$ 2,4 bilhões anuais para US$ 2 bilhões em 2003.
A capacidade de geração das 18 turbinas de Itaipu é de 12.600 MW. Mais duas turbinas vão entrar em operação até 2004, elevando a potência instalada da usina para 14.000 MW.
A energia gerada em Itaipu é transmitida para as distribuidoras privadas pela Eletrosul e Furnas, empresas ligadas à Eletrobrás. A estatal decidiu antecipar a redução de 15,93% nas tarifas de Itaipu já em outubro. O objetivo era evitar uma alta excessiva nos reajustes anuais das tarifas das distribuidoras, o que colocaria em risco o controle da inflação.
O atual governo quer que essa antecipação da redução do preço seja compensada com reajustes mais elevados das tarifas de Furnas e Eletrosul em 2003. O que também pode ser revisto no governo Lula. Desde outubro, a Aneel tem autorizado reajustes anuais em torno de 19% para as distribuidoras. Bem acima dos 8,06% acumulados entre janeiro e outubro pelo INPC. (LV)
Construção e manutenção de linhas também atraem empresas
Até companhias que não atuam no setor de energia no País estão investindo
O potencial do sistema de transmissão também tem despertado a atenção de outras empresas, inclusive daquelas que não atuam na área de energia no Brasil. O grupo italiano Tecnossistemi, por exemplo, que trabalha no setor de telecomunicações, agora aposta na construção e manutenção de linhas de transmissão. Segundo o diretor-presidente da empresa, Claudio Raffaelli, essa é uma área que ainda demanda muita tecnologia e, portanto, merece atenção.
Além de assinar um contrato para construir alguns trechos de linhas para a também italiana Enel, a Tecnossistemi trouxe para o País algumas ferramentas modernas para manter a segurança do sistema interligado. Um dos instrumentos é o monitoramento feito a partir de um helicóptero e uma telecâmera com alta definição e infra-vermelho que detecta as fragilidades e defeitos das linhas de transmissão. Segundo o diretor-presidente da empresa, o sistema permite considerável ganho de tempo em relação à tradicional inspeção feita hoje.
Ele afirma que algumas empresas, inclusive estatais, já demonstraram interesse pelos mecanismos de manutenção. A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (Ceteep), por exemplo, já procurou a empresa para conferir o serviço, afirma Raffaelli. Mas, por enquanto, não há nenhuma proposta oficial. "Até o fim do ano teremos algum contrato firmado", garante ele.
O foco na manutenção das linhas surgiu principalmente depois do último blecaute em agosto deste ano, que deixou quase metade do País sem energia elétrica. Segundo relatórios técnicos, o apagão teria sido causado por um parafuso frouxo que não foi detectado pelos técnicos. "Com esse sistema de manutenção, esse tipo de falha não teria ocorrido", afirma Raffaelli.
Na construção das linhas, a empresa também usa o meio aéreo para colocação do concreto na formação da base de sustentação das torres e até a montagem das torres. Raffaelli explica que esse sistema facilita o trabalho principalmente em áreas de difícil acesso. Juntos, o monitoramento e a construção de linhas, deverá corresponder a cerca de 15% do faturamento do grupo no Brasil, ou R$ 70 milhões.
GE – Outra empresa que vem apostando na transmissão é a General Eletric (GE), que já atua no setor. Nos últimos quatro anos, o faturamento desse segmento cresceu quase quatro vezes, afirma o gerente da Área de Transmissão da empresa, Alberto Bragarnik. A companhia é especialista na produção de equipamentos para o setor, principalmente de capacidores, que ampliam a capacidade de transmissão das linhas.
Bragarnik explica que esses equipamentos aumentam entre 30% e 50% a potência da linha. Ele explica que apenas um contrato que vem sendo negociado e que ainda é confidencial representará o faturamento da área de transmissão da empresa de um ano inteiro. "Até o final de 2003, transmissão será um dos grandes focos de investimentos." (R.P.)