Os impactos de uma térmica suja

ENERGIA – publicado no Jornal do Commercio, Recife, PE

A bilionária Usina Termelétrica Suape III, do Grupo Bertin, vai jogar no céu pernambucano 24 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) por dia

Felipe Lima

Em um único dia de funcionamento, a bilionária Usina Termelétrica Suape III, anunciada com pompa na última terça-feira pelo governo do Estado e a Star Energy, do Grupo Bertin, vai jogar no céu pernambucano 24 mil toneladas (t) de dióxido de carbono (CO2). Se funcionasse por um ano, sem parar, seriam 8 milhões de t de um dos gases causadores do efeito estufa. Ou o equivalente a um terço do que todo o setor elétrico do Brasil polui hoje. Mais que os R$ 2 bilhões em investimentos e os 500 empregos diretos que serão criados pelo empreendimento, foram esses os números que repercutiram ontem. E que suscitaram a pergunta: o povo pernambucano deve comemorar a chegada da “maior usina térmica do mundo”?

A estimativa de emissão de CO2 da Suape III foi realizada pelo professor de engenharia elétrica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Heitor Scalambrini, e pelo coordenador da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo. Os dois chegaram ao mesmo resultado. O cálculo levou em conta dados da Agência Internacional de Energia, em que para cada 0,96 metro cúbico (m³) de óleo combustível consumido, 3,34 t de carbono são lançadas na atmosfera.

“Pernambuco ganhou a usina mais suja do mundo. E todos bateram palma. Os pernambucanos estão anestesiados por três expressões: progresso, geração de empregos e melhoria de renda. Mas é possível obter tudo isso de maneira mais decente do ponto de vista ambiental”, opinou Scalambrini.

“Para efeitos de comparação, a emissão de mil gramas de CO2 por kilowatt/hora (kw/h) gerado por uma térmica como essa representa 100 vezes mais que a emissão de toda a cadeia produtiva de energia eólica, incluindo desde o processo de produção das torres, que usa componentes feitos de aço, passando pelo transporte das pás por caminhões abastecidos de óleo diesel, até o funcionamento dos empreendimentos”, complementou Baitelo.

O diretor do Instituto Ilumina, organização não-governamental (ONG) que atua no setor elétrico, João Paulo Aguiar, acrescentou outro ponto negativo à discussão. “A construção de empreendimentos desse perfil é fruto da escolha catastrófica de transformar energia em uma commodity. Isso tornou a energia brasileira numa das mais caras do mundo. Um contrassenso em um País que possui a dádiva da geração hidrelétrica. E para garantir a segurança no abastecimento de Suape, não são necessários investimentos em uma térmica, mas melhorias nas linhas de transmissão”, resumiu.

Professor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Schaeffer, trouxe a tona uma questão preocupante. “Seria impensável a construção de uma térmica de óleo combustível em São Paulo ou no Paraná. As empresas buscam justamente os Estados onde a legislação ambiental é mais frouxa”.

A ideia geral defendida por acadêmicos, ambientalistas e especialistas no setor elétrico é de que termelétricas, especialmente as que usam combustíveis fósseis (derivados de petróleo), não são mais necessárias. Os maiores exemplos vêm de países desenvolvidos. Na Alemanha, o plano para os próximos dez anos é desativar as usinas nucleares e dobrar a geração de energia renovável.

O pior é que o governo federal aponta um caminho inverso ao que começa a ser percorrido por Pernambuco. O Plano Decenal de Expansão de Energia, elaborado este ano pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mostra que até 2020 a participação de usinas eólicas, térmicas de biomassa e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) vai dobrar, passando de 8% para 16%. O último leilão de energia, realizado mês passado, mostrou, inclusive, que a energia eólica é uma opção barata. O preço médio do Megawatt/hora (MW/h) foi de R$ 99,58. Muito abaixo dos R$ 146 pagos às térmicas de óleo combustível que venceram o leilão de 2008 e que agora começam a ser construídas, sendo a maior delas a polêmica Suape III.

O JC procurou, por meio de suas assessorias de imprensa, os secretários estaduais de Meio Ambiente, Sérgio Xavier, e Desenvolvimento Econômico, Geraldo Júlio, para apresentarem os argumentos do governo na discussão. Nenhum deles estava disponível ontem.

Categoria