PRIVATIZAÇÃO
BNDES e Desenvolvimento querem vender só geração; presidente da
estatal defende inclusão do setor de transmissão
Gros e Tápias rejeitam venda total de Furnas
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A disputa pela forma como será vendida Furnas colocou dois técnicos
contra um político na reunião de ontem de FHC com sua equipe.
De um lado estavam o presidente do BNDES, Francisco Gros, e o
ministro Alcides Tápias (Desenvolvimento). Ambos consideram mais
apropriado manter a transmissão de energia nas mãos do Estado.
Querem dividir a empresa e vender apenas a parte de geração. Eles
argumentam que o governo obteria mais dinheiro com esse tipo de
venda.
Na outra ponta está Luiz Carlos Santos, presidente de Furnas, que
defende a venda total, sob o argumento de que seria economicamente
ruim o governo ficar apenas com a parte da empresa que dá menos
lucro -o grosso da receita está na venda da energia.
Durante a reunião com FHC, parte dos presentes não falou. Apenas
assistiu ao duelo entre Gros e Luiz Carlos Santos. Ambos foram
munidos para o encontro com propostas e estudos distribuídos aos
presentes.
Gros foi auxiliado na sua exposição pelo diretor de Desestatização do
BNDES, Eleazar de Carvalho Filho. Luiz Carlos Santos teve a ajuda do
economista Paulo Roberto Lemos, coordenador do estudo que colocou
a pulverização em pauta no ano passado.
O ministro Pedro Malan fez muitas anotações durante a reunião. Ao final,
disse estar satisfeito com o nível das propostas apresentadas. Não foi
definido exatamente quem levará ao presidente da República uma
compilação do que foi discutido.
Ficou implícito que FHC passará a ouvir assessores da área política e
econômica para formar uma opinião definitiva sobre o assunto nas
próximas duas semanas. FHC tenta desde o ano passado reduzir as
resistências à venda de Furnas, principalmente de políticos mineiros.
Primeiro, ele transferiu, no ano passado, a responsabilidade de vender
a empresa do BNDES para o Ministério de Minas e Energia. Na época,
FHC garantiu que haveria a privatização.
Como o processo não andou, o presidente resolveu devolver neste ano
o comando da venda para o BNDES.
Além disso, também incluiu a privatização de Furnas na sua agenda
para o biênio 2001/ 2002.
Embora tenha divulgado que a empresa será vendida até março do
próximo ano, FHC ainda enfrenta dificuldades sobre como isso será
feito. Há cerca de 15 dias ele recebeu um esboço do BNDES sobre a
venda da empresa, mas não tomou nenhuma decisão.
O assunto voltou a ser analisado ontem, quando foi apresentado outro
modelo -o de Luiz Carlos Santos.
Além disso, o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), defende
uma maior discussão sobre o assunto no Congresso.
Sem desconto
Ontem, Tápias disse em São Paulo que a venda pulverizada das ações
de Furnas Centrais Elétricas não deverá ter o desconto de 20% para
quem usar o dinheiro do FGTS na compra, como ocorreu no caso das
ações da Petrobras.
Segundo ele, o desconto não será oferecido porque as ações da
geradora estatal já estão baratas. "Já vamos vender baratinho. A
tendência é que as ações se valorizem", disse o ministro.
Ainda de acordo com o ministro, a venda de ações da geradora estatal
de forma pulverizada exigirá que a empresa tenha uma gestão
empresarial. "O profissional que for gerir a empresa tem de apresentar
projetos que conquistem o grande público para as pessoas tomarem a
iniciativa de comprar as ações", disse.
Essa declaração de Tápias é, de forma indireta, uma crítica ao atual
presidente da empresa, um político nomeado por FHC. Luiz Carlos
Santos ganhou o posto como consolação depois que perdeu a eleição
para o cargo de vice-governador de São Paulo em 98, quando disputou
na chapa de Paulo Maluf (PPB).
PRIVATIZAÇÃO
FHC adia por ao menos 15 dias decisão sobre modelo de venda da
estatal de energia, que lucrou R$ 540 mi em 2000
Pressão política adia decisão sobre Furnas
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente Fernando Henrique Cardoso adiou por pelo menos 15 dias
a decisão sobre a forma de privatizar Furnas Centrais Elétricas,
empresa que lucrou R$ 540 milhões no ano passado e é responsável
por 43% do mercado da venda de energia no país.
Havia a expectativa de que FHC anunciasse ontem o cronograma e o
modelo de venda de Furnas. Mas ele adiou a decisão por duas razões
principais -uma política e outra técnica-financeira.
A Folha apurou que FHC está decidido a vender Furnas, mas ainda não
se convenceu de qual seria a melhor fórmula. A idéia é escolher um
modelo de privatização que possa propiciar ganhos políticos perante a
sociedade antes da eleição presidencial do ano que vem.
FHC teme também que, no momento em que o país enfrenta uma crise
energética, a venda de Furnas venha a se tornar um símbolo ruim contra
a sua administração no ano que vem.
O presidente tenta, desde o ano passado, reduzir as resistências à
venda de Furnas, principalmente de políticos mineiros. Ele também está
convencido de que a área energética foi mal administrada durante seus
dois mandatos e acredita que dificilmente a privatização trará melhorias
imediatas ao setor, que enfrenta demanda crescente e oferta
comprimida.
Ontem, FHC se reuniu por quase três horas com vários integrantes da
equipe econômica, assessores palacianos e o presidente de Furnas,
Luiz Carlos Santos -ex-ministro de Assuntos Políticos (96-98).
"Essa reunião ainda não terminou. O presidente vai analisar as
diferentes propostas", disse o ministro Alcides Tápias
(Desenvolvimento), logo após sair da reunião. Tápias foi escalado para
ser o porta-voz oficial do encontro.
Também participaram da reunião com FHC os ministros Pedro Malan
(Fazenda), José Jorge (Minas e Energia), Pedro Parente (Casa Civil) e
Aloysio Nunes Ferreira (Secretaria Geral).
Entre os representantes de órgãos técnicos estavam no encontro o
presidente do BNDES, Francisco Gros, e o diretor-geral da Aneel
(Agência Nacional de Energia Elétrica), José Mário Abdo.
Todos os presentes se declararam favoráveis à venda de Furnas, de
forma pulverizada. O modelo de pulverização foi apresentado em maio
do ano passado pelo presidente da estatal.
A venda pulverizada é semelhante ao modelo utilizado pela
Grã-Bretanha nos anos 80, quando estava no poder a primeira-ministra
Margaret Thatcher (do partido conservador). Trata-se de uma fórmula em
que o governo incentiva a maior parcela possível da população a
comprar ações.
A grande divergência técnica-financeira é sobre qual parte da empresa
deve ser vendida: se apenas uma parte (a de geração de energia) ou a
empresa completa (geração e transmissão).