Quando algumas autoridades do setor elétrico dizem que no final do período chuvoso os reservatórios da Região Sudeste vão atingir 50% e acham isso mito bom, é sinal que alguma coisa está …

Quando algumas autoridades do setor elétrico dizem que no final do período chuvoso os reservatórios da Região Sudeste vão atingir 50% e acham isso mito bom, é sinal que alguma coisa está errada. Afinal, se é para usar apenas 50% do volume de armazenamento, porque construir reservatórios tão grandes? As populações do entorno dos reservatórios, se souberem se mobilizar, conseguirão passar uma lei obrigando um nível de armazenagem mínimo. Isso vai significar, na prática, uma capacidade menor de geração, acirrando ainda mais os conflitos causados pela fantástica falta de investimento em novas usinas por parte do modelo "privado" do governo.


BRINCANDO DE ARGENTINA

Lá por meados de 2001 o Governo Federal parecia acabado. Havia desabado a crise da energia elétrica, e o Presidente brindou os brasileiros com um patético "eu não estava sabendo". A tempestade argentina, bola cantada há quase tanto tempo quanto a crise energética, arrastava o Real para o fundo do buraco negro. O PT fazia progressos em santuários conservadores. Candidatura governista era piada. Na melhor das hipóteses, cargo de sacrifício. Hoje, nos balanços do ano a coisa mudou. E muito. O remédio amargo (e põe amargo nisso) da equipe econômica fez valer a advertência tranqüila de Armínio Fraga: "…quem apostar em Dólar alto vai quebrar a cara". O pai do milagre argentino com sua coleção de bravatas simplesmente cavalares, destituído, e proibido pela Justiça de deixar seu país.


A reação espetacular do povo e empresariado brasileiro fez parecer afastado o fantasma do apagão. Com esses dois pilares de sustentação, economia e energia, hoje a questão é saber a quem ungir como candidato do Planalto.


O quadro entretanto não é tão simples. Se por um lado a equipe econômica demonstrou competência técnica e absoluta indiferença aos custos de uma política de estabilização cuidadosamente monitorada pelos investidores nacionais e estrangeiros, no setor elétrico nada mudou alem da heróica redução de 20 % no consumo nacional. Povo e empresas investiram recursos escassos, mudaram padrões de vida e trabalho para vencer mais uma dificuldade entre tantas que fazem o dia a dia de todos nós.

Do lado da oferta de novas fontes geradoras nada se fez além daquilo que já estava praticamente pronto. Os cronogramas fantásticos servidos pelo ministério do apagão continuam patinando no atoleiro da regulamentação inepta, cuja criatividade não vai alem de um Anexo 5, que outorga aos dirigentes de ocasião poderes mágicos, para às custas do consumidor, tornarem atraentes os investimentos no setor.


As chuvas entre setembro e novembro estão servindo para mascarar a seriedade do problema elétrico. È bom que se saiba que as chuvas de dezembro não foram nenhuma Brastemp. A vazão do Rio Grande em Furnas está na ordem de 80% da média histórica. Os bons resultados conseguidos são devidos à redução de consumo via racionamento. Isto quer dizer, mais uma vez a nação fez o que precisava ser feito, e nossos dirigentes capitalizam o sacrifício de todos.

Suspender o racionamento agora é simplesmente GESTÃO TEMERÁRIA. É mais um estelionato eleitoral que se arma.


A política econômica é cuidadosamente acompanhada pelos principais atores do teatro econômico, gerando amplo debate social. A política energética não recebe da sociedade a necessária atenção. Os dados são escamoteados, e as sutilezas técnicas não são bem compreendidas pelos formadores de opinião. A crise começou agora a trazer os olhos da sociedade para a questão.


Há porem um detalhe, que pode vir a animar o debate: próximo setembro estaremos no auge da seca de 2002. Estaremos também nas finais do campeonato que a cada quatriênio decide quem fica com a chave do cofre. Vai ser complicado dizer outra vez que "eu não sabia de nada". É hora dos que fazem acontecer no Brasil se levantarem para brecar uma tremenda tentação de brincar de Argentina.


Associaçao dos Usuários do Lago de Furnas



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