Racionamento: Risco Real para o Setor Financeiro – Artigo – Monsueto Almeida – 27/02/14

Pode até ser exagero, mas o mercado financeiro embarcou de vez naqueles cálculos chatos de quem ganha e quem perde com o racionamento de energia. Não é mera especulação. O mercado passou a considerar nos seus modelos o efeito do clima e o uso intensivo das térmicas na conta de energia dos consumidores, impactos sobre o superávit primário e impacto na valorização  e desvalorização de ações.

No dia 14 de fevereiro, o UBS soltou um relatório interessante com o título sugestivo “Listening to the weatherman: danger ahead, rationing is around the corner”. O relatório fala que: “The risk of rationing of higher magnitude seems strong for 2014 and for following years. …….we see the need for >15% cut in demand as early as April 2014 for months, and assuming full thermo dispatch (there are means of mitigating the severity of rationing, though).”

O ITAU-BBA, um banco de investimento que normalmente não olha muito para o que pensa São Pedro quando faz suas projeções macroeconômicas de curto prazo, traz três slides no seu power point de projeções de fevereiro de 2014 com o título: “(1) clima – incerteza maior em 2014; (2) Balanço energético – uso das térmicas sobe e riscos de racionamento voltam à pauta; e um slide de simulações (3) Balanço energético – simulação.”

O HSBC soltou hoje dia 26 de fevereiro de 2014 um relatório interessante com o título Electricity rationing: gains and pains no qual identifica quais setores ganham e quais perdem se houver um racionamento de energia. O banco aposta que não haverá racionamento, em 2014, por motivos políticos mais do que técnicos, mas que isso aumentaria o risco de racionamento em 2015 (chance de 40%), a depender do regime de chuvas e das reservas no Sudeste e Centro-Oeste. Mas se houver racionamento este ano:

“If energy rationing cannot be avoided in coming months, there is a risk it could have a political knock-on impact and potentially affect the outcome of the October presidential elections. In 2001, electricity rationing had a severe negative impact on the administration’s approval rating. This extreme scenario could end up being favourable for the opposition candidates (e.g.: from PSB or PSDB)…..”

E para completar a rodada de preocupação sobre racionamento o Santander reúne uma equipe top para conversar esta semana em conference call sobre: Electricity Rationing in Brazil Again?”. O debate será conduzido por quatro economistas do banco, analisando o risco de agora com aquele de 2001, impactos setoriais e impactos macroeconômicos.

E os outros bancos? Claro que não tive tempo de ler todos os relatórios de outros bancos e nem recebo relatórios de todos. Mas a única certeza que se tem quando se passa os olhos por esses estudos detalhados e nos conference call anunciados pelos bancos é que o risco de racionamento está sendo levado mais a sério pelo mercado financeiro do que pelo governo que sempre descartou o risco de um eventual racionamento.

Ao que parece, o baixo crescimento do PIB pode até ser uma boa notícia para o governo tanto pelo lado da inflação quanto pelo lado do risco de racionamento em um ano eleitoral. Com um mercado de trabalho aquecido, é melhor encarar o risco de um aumento da taxa de desemprego para perto de 6% com ainda algum ganho de renda para os trabalhadores do que mandar nós eleitores desligar a TV mais cedo e perder a novela das 9 ou o nosso jogo de futebol favorito em um ano de Copa do Mundo aqui no Brasil.

Vamos rezar para São Pedro e, no meu caso que sou cearense, vou rezar para São José. E se tudo isso não der certo vamos ter que encarar o racionamento neste ou no próximo ano. “C’est la vie”.

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