Resumo de Exposição ao Conselho Diretor do Clube de Engenharia (Reunião Ordinária de 14 . 09 . 98) DESMEMBRAMENTO E PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA ELÉTRICO Joaquim Francisco de Carvalho De 1.900 …

Resumo de Exposição ao Conselho Diretor do Clube de Engenharia (Reunião Ordinária de 14 . 09 . 98)


DESMEMBRAMENTO E PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA ELÉTRICO


Joaquim Francisco de Carvalho


De 1.900 até 1.960 , o setor elétrico brasileiro era totalmente controlado por grupos estrangeiros e empresas privadas nacionais . Em 1.960 a capacidade total do parque gerador era de 4.800 MW , dos quais 1.300 MW correspondiam a empreendimentos do governo . Ou seja , em 60 anos , os grupos e empresas privadas instalaram apenas 3.500 MW , capacidade insuficiente para alimentar a arrancada industrial de então , obrigando o governo desenvolvimentista do presidente Kubitshek (1.955 a 1.960) a entrar no setor . Foi , pois , uma imposição do crescimento industrial e não um impulso ideológico que forçou a estatização do sistema eletrico brasileiro . E foi a partir daí que a capacidade de fato expandiu-se , até angir , no final de 1.996 , os 57.232 MW indicados na tabela abaixo (a rigor tal capacidade é de 60.756 MW , pois há 3.524 MW instalados por autoprodutores) .


SISTEMA ELÉTRICO BRASILEIRO


– Serviço Público –


CAPACIDADE INSTALADA (MW)


Ano Total Hidráulica Térmica
1.900 12 5 7
1.910 160 138 22
1.920 357 279 78
1.930 779 630 149
1.940 1.244 1.009 235
1.950 1.882 1.535 347
1.960 4.800 3.642 1.158
1.970 10.459 8.720 1.739
1.980 30.687 27.107 3.580
1.990 48.987 44.223 4.764
1.995 55.512 50.687 4.825
1.996 57.232 52.427 4.805


Fontes : Centro da Memória da Eletricidade e MME (Balanço Energético Nacional 1.997)



Nos 37 anos decorridos de 1.960 para cá , o sistema elétrico brasileiro , que era exíguo e de baixa qualidade , transformou-se num dos mais extensos e avançados do mundo .


Antes de 1.960 o Brasil importava projetos , tecnologia e equipamentos , para centrais elétricas e linhas de transmissão . Hoje exporta tudo isso , para diversos países . Esta evolução induziu o desenvolvimento da tecnologia nacional nos campos da engenharia de centrais hidroelétricas , das indústrias de material elétrico e componentes mecânicos , da pesquisa em eletrotécnica e eletrônica de instrumentação e controle , etc .


Uma indiscutível constatação física do avanço de nosso sistema elétrico é sua quase completa unificação ou integração nas regiões Sudeste , Sul e Centro-Oeste , sob comando centralizado de operação , com uma taxa de interrupção notavelmente reduzida , considerando-se a extensão e a complexidade do sistema .


Chegou-se ao atual estágio de desenvolvimento graças ao potencial de investimento do Estado e, principalmente, à sua capacidade de reinvestir lucros na transferência e adaptação de tecnologias provenientes de paises industrializados ; assim como na formação de engenheiros, técnicos e operários especializados . E, ainda, no desenvolvimento tecnológico autônomo , mediante o apoio a projetos executados em instituições de pesquisas , como o IPT, a COPPE, o IEE, o CEPEL, etc. ; além de diversos laboratórios e departamentos especializados, ligados a universidades estaduais ou, mesmo, a firmas de engenharia e empresas industriais .


Assim , consolidou-se no Brasil uma importante indústria de equipamentos eletromecânicos , criaram-se firmas de engenharia e formaram-se milhares de engenheiros e técnicos altamente qualificados, nas áreas de projeto , construção e operação de usinas geradoras e sistemas de transmissão e distribuição de energia elétrica . Tal conjunto de instituições de pesquisa , estabelecimentos industriais e firmas de engenharia , com suas equipes de engenheiros e pesquisadores , tem potencial para desenvolver tecnologia adaptada às condições brasileiras, desde que receba os devidos estímulos, e tenha, sob sua responsabilidade , projetos importantes e encomendas de serviços , equipamentos e obras, a serem realizadas no pais . Esse inestimável patrimônio tecnológico será malbaratado com as privatizações , pois a tedência dos novos controladores será a de contratar firmas internacionais até para a elaboração de projetos e a execução de obras simples .


Nosso sistema elétrico é muito peculiar quanto às fontes primárias , como ficou ilustrado na tabela acima . De fato , dos 57.232 MW instalados , temos 52.427 MW hidroelétricos , ou seja , 91,6% do total . No tocante à energia gerada , em virtude de seu maior fator de utilização , as hidroelétricas geram 96% do total . Os restantes 4% são gerados em termoelétricas a carvão , óleo combustível , diesel , e nuclear (Angra I) . A eletricidade brasileira é , pois , quase toda gerada em aproveitamentos que , além de renováveis , são ambientalmente muito menos agressivos do que as alternativas disponíveis .


A margem de lucro desses aproveitamentos é muito grande , pois sua fonte primária (a energia dos rios) não custa nada . Não há no mundo sistema elétrico de proporções comparáveis às do brasileiro , que goze de vantagem tão significativa . Mas o privatismo à outrance , que parece embotar a capacidade de análise dos responsáveis pela política do setor elétrico , está anulando essa vantagem . Explico melhor : ao omitir-se em favor de investidores que visam máximos lucros em mínimos prazos da responsabilidade de planejar e operar o sistema elétrico , o governo invibializa a implantação de um modelo de planejamento pela demanda , que permitiria tirar partido da incomparável vantagem relativa que é o potencial hidroelétrico . Isto porque as decisões de se construirem novas unidades para a expansão do sistema passam a ser tomadas em função de interesses imediatistas de investidores estrangeiros , ou de empreiteiros e fabricantes de equipamentos ; e não em decorrência de reais necessidades da sociedade , ou da disponibilidade de fontes renováveis de energia .


Por outro lado , ao entregar o sistema elétrico à exploração privada , o governo , desnecessariamente , oferece a grupos estrangeiros a possibilidade de nos venderem energia produzida em nossos rios , utilizando para isso usinas hidoelétricas construidas com recursos provenientes da carga tributária que recaiu sobre o povo brasileiro . E é evidente que parte desses lucros passará a ser remetida ao exterior . Erro tão grosseiro só pode ser creditado à falta de visão estratégica de nossos governantes , para avaliar os graves prejuizos que podem advir de uma entrada irrestrita e inconseqüente no processo de globalização (1) .


Observe-se que , em geral , os serviços públicos de infra-estrutura constituem monopólios naturais . Seria , pois , muito ingênuo esperar que surja competição na mesma área , para disputar mercados e assegurar serviços melhores e mais baratos , como ocorre em setores de commodities , nos quais o objetivo de se vender algum bem não é satisfazer à sociedade , mas sim ter lucro . Diferentemente disso , no setor elétrico , por exemplo , antes de se pensar em lucros , deve-se tratar do atendimento às necessidades básicas da coletividade , assim como na segurança , eficiência e qualidade dos serviços , a médio e longo prazo . E tudo isso a custos mínimos para o consumidor , aí incluidos os custos ambientais .


É uma leviandade privatizar tal sistema , sem pensar nos riscos , para toda a economia , de se desarticular uma infra-estrutura básica , que vêm desempenhando seu papel de maneira excelente . Não se pode atribuir à eletricidade as características de uma commodity, e passar a tratar as concessionárias de energia elétrica como se fossem unidades de negócios , ou fornecedoras de mercadorias , pois isso abrirá caminho para que tarifas muito elevadas transfiram , através do sistema elétrico , parte do capital produtivo dos setores industrial e comercial (e da renda das famílias) , para setores intermediários não produtivos , que porventura venham a assumir o controle das concessionárias de energia elétrica . No estágio em que o Brasil se encontra , isso criaria sérios obstáculos ao desenvolvimento , além de desiquilibrar ainda mais a distribuição da renda , agravando os conflitos que atormentam a sociedade brasileira . A este propósito cabe assinalar que , com as atuais tarifas , o sistema elétrico brasileiro pode arrecadar cerca de 20 bilhões de dólares por ano . Arrecadação que crescerá , pois as empresas já privatizadas não têm encontrado dificuldades para aumentar as tarifas ao seu talante .


Não é razoável que o governo ceda a pressões contrárias aos interesses brasileiros , tranferindo para grupos privados (e até para estatais estrangeiras) o controle de projetos que já foram construidos, com recursos do erário . Até o presente , grande parte da receita operacional desses projetos tem sido reinvestida na modernização e expansão do próprio sistema elétrico . As obras do sistema funcionam muito bem e já criaram os empregos que poderiam criar . Sua privatização não expandirá em nada o parque gerador brasileiro , nem criará novos empregos . E é tanto mais injustificável porque , sendo estatal , o sistema não concentra renda , nem remete lucros .


O que acontecerá , com as privatizações , é que o sistema elétrico passará a arrecadar e remeter poupança interna para o exterior , atendendo apenas às conveniências de países que desejam manter sua opulência , à custa da crescente descapitalização dos países sub-desenvolvidos . Aliás o Jornal do Brasil de 10 de maio de 1.998 (página 26) aponta para a bomba relógio da remessa de lucros , mostrando que " em dois ou três anos os investimentos estrangeiros vão se tornar uma pesada conta , quando começarem a voltar aos países de origem ". É curioso , para não dizer suspeito , que só agora os analistas econômicos de nossos principais jornais e emissoras de televisão , com raras exceções , tenham descoberto essa coisa óbvia , que saltava aos olhos de qualquer pessoa sensata , desde que se começou a falar em privatização do sistema elétrico , há cerca de 8 anos . E é estranho que nenhum parlamentar proteste energicamente contra essa dilapidação do patrimônio público .


Energia elétrica é um monopólio natural que , nas mãos de grupos privados , cuja razão de ser é o lucro , transforma-se em terrível instrumento de concentração de renda e exploração da economia popular . Privatizar tal instrumento é uma grande injustiça , ainda mais porque , no caso brasileiro , foi a coletividade com pesados impostos e à custa de um processo de acumulação de renda forçado pela política de salários reprimidos , em ambiente inflacionário que financiou , ao longo de muitas décadas , a aquisição ou a construção de todos os componentes do sistema elétrico , que este governo , compulsivamente , deseja alienar . Ora , o custo do investimento é o componente que mais pesa na formação da tarifa de eletricidade , e uma parcela de mais de 85% desse custo está contabilmente depreciada , por força da elevada idade das usinas , linhas de transmissão e redes de distribuição , que constituem nosso sistema elétrico . Graças a isso , as estatais podem compor uma tarifa média acessível , mesmo para as camadas menos favorecidas da população .


Ao transferir para grupos privados o controle da infra-estrutura de eletricidade , o governo estará privando a coletividade da legítima aspiração de se ressarcir dos sacrifícios com que arcou , para implantá-la . O ressarcimento viria seja na forma de tarifas acessíveis , possibilitadas pela depreciação contábil de ativos físicos de sistemas cuja idade média é elevada , seja em reinvestimentos para a ampliação e modernização dos serviços , seja ainda nos projetos de preservação ambiental .


Além de economicamente funestas , as privatizações são insensatas sob o ponto de vista estratégico , por submeterem nosso sistema elétrico a pressões comerciais geralmente divergentes dos interesses brasileiros , retirando-nos a autonomia para planejar e operar o referido sistema em função de vantagens relativas , como a possibilidade de gerar em usinas hidroelétricas praticamente toda a eletricidade consumida no país .


Para ilustrar a afirmação acima , faço referência a duas notícias publicadas na " GAZETA MERCANTIL ". A primeira , vinda a lume no dia 07 de abril passado , sob o título " CEMIG INCENTIVA CONSUMO DE ENERGIA ", informa que , em conjunto com seus novos sócios (as empresas americanas Southern Electric e AES , e o banco Opportunity) , a diretoria financeira da CEMIG elaborou uma estratégia para estimular o consumo de eletricidade em Minas Gerais , com vistas a aumentar o faturamentoe (e , evidentemente , os lucros a serem remetidos para o exterior) .


Em outras palavras , a referida concessionária mineira , que outrora promovia excelentes programas de conservação de energia e desenvolvimento de fontes renováveis , coloca-se agora na contra-mão da racionalidade , que seria estimular a conservação , caminho , aliás , adotado nos países desenvolvidos , até por motivos ecológicos . De resto , é um contra-senso que o planejamento da empresa seja feito pela diretoria financeira .


Cálculos simples (V. referência 2) mostram que , se planejássemos com autonomia o uso de nosso potencial hidráulico , introduzíssemos rigorosos programas de conservação de energia , e adotássemos uma política industrial que desestimulasse a produção dos setores eletro-intensivos (alumínio , ferros-ligas , linha soda-cloro , etc.) , para reduzí-la apenas às necessidades do consumo interno , poderíamos cobrir a demanda de eletricidade , pelo menos até o ano 2.030 , apenas com geração hidroelétrica .


A segunda notícia foi publicada no dia 17 de julho último , com declarações do represente da ENRON (empresa americana que acaba de comprar a ELEKTRO , distribuidora desmembrada da CESP) , informando que aquela empresa americana , que já controla a exploração de gás natural na Bolívia , pretende construir termoelétricas a gás , para atuar de forma integrada , como faz em outros países . Não é difícil prever que , por essa via , a ENRON consolidará uma forte posição estratégica , da qual nenhum governo sensato deveria abrir mão . É curioso que os atuais responsáveis pelo planejamento de nosso sistema elétrico tenham aceito as recomendações da Coopers & Lybrand , no sentido de desmembrar e desintegrar o sistema brasileiro . Ou seja , para eles , a ENRON tem o direito de integrar e verticalizar , enquanto os sub-desenvolvidos devem desintegrar para entregar .


O que fazer no Estado do Rio de Janeiro


Como a Light e a CERJ já foram privatizadas , resta ao governo estadual impedir que se agrave a degradação da qualidade e confiabilidade dos serviços de eletricidade , de que já tivemos amostra no último verão . Com esse objetivo seria criado um Conselho de Planejamento Energético Integrado , do qual participariam representantes do executivo estadual , da câmara municipal e da assembléia legislativa , bem como de entidades de classe da indústria , comércio , turismo , associações de moradores , além , evidentemente , da Light e da Cerj . Este Conselho planejaria e faria executar uma política para o setor energético baseada em posições e diretrizes estratégicas tais como :


1ª – Impedir o desmembramento e privatização de FURNAS, CESP, CEMIG e COPEL .


Instituições importantes da sociedade civíl organizada (Associação Comercial , Federação das Indústrias do Rio de Janeiro , Clube de Engenharia , Associação Brasileira de Imprensa , Órdem dos Advogados do Brasil , etc . ) deveriam juntar esforços , sincronizadamente com suas homólogas de São Paulo , Minas Gerais e Paraná , para impedir que o governo federal leve a cabo seu intento de privatizar a geração e a transmissão de energia elétrica .


De fato, se a geração e a transmissão de eletricidade forem privatizadas , estará aberto o caminho para a formação de mini-monopólios e cartéis que aumentarão draconianamente as tarifas e imporão tudo que quiserem em matéria de qualidade dos serviços ofertados , como ocorreu em vários países que privatizaram seus sistemas , inclusive a Grã-Bretanha . Para agravar a situação , os lucros do setor , que atualmente são reinvestidos aquí mesmo , passarão a engrossar o deficit das contas externas , descapitalizando ainda mais o Brasil , pois nenhum grupo privado nacional tem potencial financeiro nem capacidade organizacional , para entrar majoritariamente nas privatizações .


2ª – Adotar uma política energética integrada , planejada pelo lado da demanda .


Como foi dito no início , o Brasil é favorecido por condições naturais que lhe permitem extrair , de fontes primárias renováveis e não poluidoras (aproveitamentos hidroelétricos) cerca de 96% da eletricidade que consome . Nenhum outro país , da dimensão econômica do Brasil , goza de vantagem tão significativa . Para tirar partido dessa vantagem é necessário que o governo estadual institua um modelo de planejamento integrado , feito a partir da demanda previsível , para os setores energético , industrial e comercial . A integração do planejamento energético com o industrial deve efetuar-se por meio de parâmetros que possam aferir a real importância , para as sociedades fluminense e carioca , das atividades industriais e comerciais em que é empregada a energia . No setor elétrico , particularmente esclarecedores seriam parâmetros tais como a criação de empregos permanentes , e o valor da produção , por unidade de eletricidade consumida (2) .


3ª – Implementar rigorosos programas de conservação de energia .


É possível economizar cerca de 20% do consumo energético , sem nenhum prejuizo para os padrões de conforto e qualidade de vida , simplesmente pelo melhor uso de equipamentos e tecnologias que já estão no mercado há pelo menos 20 anos (3) .





Referências


1 . Martin , H . P . e Schumann , H . : "A Armadilha da Globalização O assalto à democracia e ao bem-estar social" , Editora Globo , 1.998 .


2 Carvalho , J . – Jannuzzi , G . : "Aspectos Éticos do Modelo de Planejamento do Setor Elétrico" , Revista Brasileira de Energia , Vol. 3 # Nº 2 – 1.994 .

Stobaugh, R . – Yergin, D . et al . : "Energy Future" , Random House , 1.979 .

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