O Vale do Paraíba, região estrategicamente localizada entre Rio de Janeiro e São Paulo, corre o risco de ficar sem abastecimento de água nos próximos anos. Isso porque, segundo pesquisa de engenheiro agrônomo da região, alguns rios já começaram a secar depois que eucaliptos foram plantados perto de nascentes.
Manoel Alcântara, agrônomo aposentado que atuou durante muitos anos como delegado agrícola no Vale do Paraíba, mediu, com ajuda de funcionários da prefeitura, a quantidade de água que escoava no rio de Caçapava. Alcântara descobriu que a passagem de água do afluente diminuiu cerca de 20 vezes, num período de 13 anos.
“Aqui tem diversas nascentes de água que chegaram a secar de uma vez. O negocio é grave. Se continuar essa plantação de eucalipto aqui na serra eu acho que as cidades do Vale vão ficar com pouca água pra abastecer. Eu atribuo ao plantio de eucalipto. O eucalipto atua com uma bomba aspirante, ele retirou do subsolo a água de reserva. A água que era de 100 litros por minuto baixou para 5 litros por minutos”.
Mesmo após as denúncias, os eucaliptos continuam a ser plantados no local, hoje arrendado pela empresa Votorantin. Somente entre os municípios de Caçapava e Jambeiro, são mais de 270 hectares de eucaliptos, o mesmo equivalente em números de campos de futebol.
De São Paulo, da Agência Notícias do Planalto, Clara Meireles
Transposição do “Velho Chico” atenderia interesses políticos, diz CPT |
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Além dos problemas causados pela monocultura do eucalipto, que já degrada as nascentes do Rio São Francisco, causando o esgotamento de alguns afluentes, o Rio ainda sofrerá mais danos com o processo de transposição. É o que afirma o diretor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Ricardo Malvezzi. Ele considera a recuperação a melhor forma de salvar “o velho Chico” e afirma que a transposição só trará mais problemas à bacia do São Francisco, que tem uma extensão de 640 mil metros quadrados.
“Nos anos que chove muito você não percebe a fragilidade do Rio, mas em anos que chove pouco, como o Rio precisa de suas nascentes e de seus afluentes, aí ele mostra sua fraqueza. Destruir um rio, uma bacia, você faz um processo hoje, com as tecnologias, em um prazo muito curto, mas pra você revitalizar uma bacia de um Rio você precisa respeitar o processo da natureza. A questão da transposição pra nós ela não atende aquilo que o governo argumenta fundamentalmente”.
Um dos argumentos utilizados pelo governo é o de resolver o problema da seca no semi-árido, mas no Estudo de Impactos Ambientais, o chamado EIA-RIMA, está comprovando que o projeto de transposição atinge apenas de 5 a 6% da população do semi-árido brasileiro.
No início do debate sobre a transposição desde o ano passado, a CPT identificou diversos equívocos do governo. Como por exemplo, a existência de fortes interesses políticos, colocando as questões ambientais em segundo plano. Para Malvezzi, o projeto representa “uma grande disputa pelo controle dos grandes volumes de água do São Francisco, em favor do agro e do hidro-negócio”.
De Brasília, da Agência Notícias do Planalto, Gisele Barbieri
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