SAUDADES DO SETOR ELÉTRICO DO MEU TEMPO John Reginald Cotrim Memória da Eletricidade n· 22 maio/1995 “Nessum major dolore che ricordarsi del tempo felice en la miseria” Dante – Inferno Escrever memórias pr …

SAUDADES DO SETOR ELÉTRICO DO MEU TEMPO

John Reginald Cotrim

Memória da Eletricidade n· 22 maio/1995


“Nessum major dolore che ricordarsi del tempo felice en la miseria” Dante – Inferno



Escrever memórias propicia momentos de prazer, mas também tristezas.

Quando se quer relembrar passagens sobre a vida de alguém ou de alguma coisa que deu certo até o fim, como seria a biografia de uma pessoa ilustre que morreu ainda em boa forma física, intelectual e econômica ou de uma entidade que conseguiu com sucesso seus objetivos e continua sadia, a reconstituição do que se passou, ainda que trabalhosa, é motivo de alegria e satisfação.

Mas quando se trata de reconstituir uma história que foi brilhante durante muito tempo, que teve um apogeu consagrador, mas que depois enveredou para uma triste decadência a ponto de se avizinhar do caos, a tarefa do historiador – testemunha ocular ou participante dos acontecimentos – gera momentos de apertos do coração e de tristeza, além de profunda saudade dos bons tempos passados, que muitos confundem com saudosismo.

Saudosista é quem é quem se agarra ao que se tornou superado, que não faz falta e que, se mantido, geraria entraves.

Saudade é lembrar do que foi bom e que deveria ter permanecido como era por muito mais tempo, pois era útil e necessário, e seu desaparecimento faz falta.

O motivo dessa reflexão melancólica é a tristeza de ver a quanto chegou o setor elétrico, no qual tantos anos labutei.

Quem assistiu e participou, como eu, ininterruptamente, da evolução do setor nos últimos 60 anos e presenciou o prestigio que atingiu, não pode deixar de ficar perplexo diante da derrocada que vem sofrendo nos últimos tempos, a ponto de se tornar irreconhecível.

Obras paradas por todos os lados, investimentos muito aquém das necessidades mínimas de sua expansão- mas, cuja carga cresce inexoravelmente – geraram um quadro lastimável que faz com que, de norte a sul do país, o clima do setor seja de incertezas e lamentações.

Por uma série de razões desde – políticas tarifárias desastrosas a inadimplência entre concessionárias, passando pela politização dos cargos de direção, pelos níveis salariais desestimulantes, pela transformação das grandes obras em fontes de financiamento de campanhas políticas – o setor elétrico é hoje uma triste sombra do passado, não mais o pujante conjunto empresarial, mas um velho paquiderme cambaleando na direção do atoleiro da morte.

Além de tudo isto surgiu, ultimamente, outro fato devastador que atingiu em cheio seu capital humano de qualidade: o estímulo às aposentadorias precoces, afastando de uma só braçada a nata intelectual do comando técnico e administrativo das empresas e reduzindo a olhos vistos seu nível de competência.

E essa derrocada está arrastando consigo toda uma estrutura de serviços e de indústrias que constituem um dos mais preciosos patrimônios da Nação, qual seja, o extraordinário complexo técnico-econômico construído em torno do setor elétrico, formado pelas empresas de consultoria e de construção, pelas indústrias de materiais e equipamentos destinados ao setor elétrico, pelos cursos universitários de todos os graus, pelos centros de pesquisas etc.

Este patrimônio levou anos para se formar, pois partiu-se de uma época – há 40 anos atrás –em que havia total dependência de serviços e fornecimentos oriundos do exterior, para gradativamente atingirmos um grau de auto-suficiência, que nos permitiu, não só enfrentar, internamente, empreendimentos da envergadura de Itaipu e muitos outros, como ainda nos projetarmos no exterior vendendo nossas experiências em inúmeras frentes espalhadas pelo mundo. Tudo isso porém está virando pó.

Mas deve-se reconhecer que isso vem de longe. Em 1991, o XI Seminário Nacional de Transmissão e Produção de Energia Elétrica – SNPTEE, refletindo a preocupação generalizada do setor a respeito dessa matéria, dedicou a ela sessão especial, da qual participei fazendo um pronunciamento sobre o assunto.

Mas a situação, ao invés de melhorar, só tem se agravado, pois, como se não bastasse tudo o que estava acontecendo, vieram leis e regulamentos recentes que, nivelando tudo por baixo, submeteram as estatais em geral – algumas delas enormes e sofisticadas empresas industriais – a normas de funcionamento tais que praticamente deixou-as em pé de igualdade com simples órgãos burocráticos da administração direta.

Não há quem não saiba que o que deu origem, várias décadas atrás, ã criação de empresas de economia mista – hoje chamadas estatais – como entidades governamentais distintas dos órgãos da administração direta, regidas pela legislação das Sociedades Anônimas, ao invés de submetidas às normas daqueles órgãos., foi justamente a necessidade de dar a essas empresas, controladas pelo Estado, maior agilidade administrativa, em tudo semelhante às empresas privadas. Sem elas seria impossível levar adiante os grandes empreendimentos industriais que o Governo estava programando, como siderúrgicas empresas elétricas etc.

Os órgãos públicos não estavam então, como ainda não estão hoje, legal; e administrativamente estruturados para as sofisticadas operações técnicas, comerciais e financeiras, no país e no exterior, que empreendimentos industriais, montados em torno de obras complexas e vultuosas, passam a exigir. Não poderiam tampouco recrutar, no mercado de trabalho, quadros técnicos e administrativos com a mesma agilidade e desenvoltura de uma empresa privada.

Mas isso tudo agora foi por terra. A restrições gerenciais resultantes dessa legislação chegaram a tal ponto que há atualmente empresas enormes, movimentando centenas de milhões de dólares por ano, cujos presidentes não podem sequer autorizar, sozinhos, sem aprovação prévia de suas diretorias colegiadas, despesa superior a mil reais, quantia essa que hoje em dia mal dá para uma passagem de avião ou a pintura de uma sala. Já imaginaram a diretoria de um grande fabricante de automóveis ou de outra qualquer indústria de porte deliberando sobre um item de valor tão irrisório?

Medidas desse tipo não geram eficiência, geram apenas burocracia e estagnação. Engessado, como o setor atualmente está, uma obra como a de Itaipu levaria, hoje, no mínimo, vinte anos para começar a produzir energia, ao invés dos dez que gastamos no nosso tempo entre o início das obras e a primeira unidade geradora na linha.

Obviamente, ninguém fez uma legislação dessas para atingir especificamente o setor elétrico, que sempre foi dos mais respeitados. Trata-se de medida geral, moralizadora, gerada por abusos em outra áreas que o afetou seriamente e cujos efeitos são facilmente notados nas imensas dificuldades no campo de gerenciamento com repercussões na eficiência administrativa e consequentemente na qualidade dos serviços.

Tudo isso de tal maneira debilitou o setor elétrico, que o atual governo terá enormes dificuldades para enfrentar um súbito surto de crescimento de demanda quando a economia voltar a tomar impulso como se espera.

A contenção prolongada de investimentos já reduziu de muito a margem de segurança que todo o sistema elétrico deve ter, de maneira que se não houver uma ação muito rápida, visando à retomada urgente da expansão – que nas circunstâncias atuais não poderá prescindir de uma participação expressiva do capital privado, tanto no campo privado, tanto no campo financeiro como gerencial – não será surpresa se, de repente, a palavra racionamento começar a ser mencionada nos corredores do setor.

Os atrasos acumulados ao longo de muitos anos em obras de geração, transmissão e distribuição, é muito grande – sem falar na manutenção que também tem sido muito sacrificada pelos cortes orçamentários – e um dia fatalmente terão seu preço.

Surgirão, primeiro, campanhas recomendando economia de energia elétrica, seguidas dos inevitáveis planos para cortes programados de energia em determinadas áreas ou horas do dia e da noite, como já ocorreu uma vez aqui no Rio.

Tudo isso porque os responsáveis no passado por esses cortes esqueceram-se de que eletricidade um produto energético que não pode ser importado em emergências, como o petróleo, carvão ou gás, – porque ou se o tem, previamente providenciado, ou se fica sem ele – sendo que, no caso, será no escuro e subindo escadas nos escritórios e nos prédios de apartamentos que nós ficaremos. Muita gente não se dá conta do que representa, nas grandes cidades, ricas em espigões comerciais e residenciais, o transporte vertical, que é hoje tão importante quanto o horizontal.

Não gosto nem de pensar no que poderá acontecer nos grandes centros quando as opções nas hora de ponta tiverem que ser, entre privar a classe média de seus elevadores na hora de voltar do trabalho para as suas belas coberturas, ou de impedir os moradores pobres da periferia de assistirem às suas novelas, seu principal lazer. Sem falar nos transtornos que seriam causados por interrupções, ainda que passageiras, do fornecimento de energia aos equipamentos de informática, dos bancos, escritórios, lojas comerciais e indústrias.

O Rio, em particular, é uma das áreas mais vulneráveis por sua posição geográfica peculiar, dependente de energia vinda de outros estados.

Por isso, morando no RIO, espero sinceramente, que nada disso aconteça, mesmo porque não tenho mais idade para estar subindo lances após lances de escadas nas horas de black out.

Tampouco gostaria de ser presidente da Light nessa hora, e não sei, também, se o capital privado que pretende adquiri-la já pensou nisso.


John Reginald Cotrim Conselho Consultivo MEMÓRIA DA ELETRICIDADE

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Uma resposta

  1. Trabalhei durante 12 anos na Central Elétrica de Furnas S. A. (atualmente Furnas – Centrais Elétricas s. A.) cujo presidente era John Cotrim. um homem de bom senso incomum, que sabia usar o prestígio de sua posição sem cair na fara dos dinheiros públicos, como se vê hoje em dia.

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