Se a demanda de energia é maior que a oferta, "ficamos à mercê de forças implacáveis". Há situações em que o mercado não funciona
Não é o ILUMINA que está declarando. É o governador da Califórnia.
(Valor Economico – 18/4/2001)
O governador da Califórnia, Gray Davis, é o pára-raios mais atingido pela crise de energia que se agrava no estado. Criticado "até por ter nascido", Davis afirma que o plano de manter as luzes acesas começa a dar resultado. Em 9 de abril, o governador, cansado de tanto lutar, assinou um contrato de US$ 2,76 bilhões para a aquisição do sistema de transmissão da Southern California Edison Co., de quase 20 mil quilômetros. Isso, sem falar nos US$ 4 bilhões gastos na compra de energia para o estado. Davis não conseguiu acordo semelhante com a Pacific Gas & Electric Co., que entrou em concordata em 6 de abril. Poucos dias mais tarde, o governador conversou com Ronald Grover, chefe da sucursal de Los Angeles e com o correspondente Christopher Palmeri.
BusinessWeek: O sr. foi criticado por não ter agido imediatamente quando os preços começaram a subir, em julho do ano passado.
GrayDavis: Foi justamente a pressa que nos levou a este problema. A lei de desregulamentação do setor foi aprovada em 1996, e não houve sequer um voto discordante. O resultado, entretanto, foi um desastre de proporções gigantescas.
BW: As tarifas pagas pelos consumidores deveriam subir para absorver o custo real da energia?
Davis: Se o verdadeiro preço de mercado fosse repassado aos consumidores, haveria aumentos de 150% a 200%, que facilmente jogariam a economia na recessão. Se isso ocorresse, a volta da regulamentação do setor seria facilmente aprovada no referendo dos grupos de defesa do consumidor, no próximo ano. Mas seria uma medida auto-destrutiva, porque isso desestimularia o investimento em usinas do setor privado.
BW: Em vista disso, qual é a solução para o problema ? Aliar o investimento público ao privado?
Davis: Acho que os proprietários de usinas farão investimentos. As leis de livre mercado funcionam desde que a oferta de eletricidade seja maior do que a demanda. Quando acontece o contrário, como agora, ficamos à mercê de forças implacáveis.
BW: O sr. acredita que o governo federal deve estabelecer limites para as tarifas e exigir indenização dos fornecedores de energia de outros estados por terem manipulado o mercado?
Davis: As pessoas podem pensar o que quiserem sobre a Califórnia, mas nossa contribuição para o desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico do país é inegável. Minha esperança é que a equipe de Bush seja formada por pessoas práticas, que percebam que o país será prejudicado se a Califórnia for cruelmente penalizada pelos erros que cometeu em 1996.
BW: O sr. acha que a PG & E conseguirá fazer uma composição com o estado?
Davis: Eu acredito que o mercado vai obrigar a PG & E a aceitar algo parecido com o que oferecemos à Southern California Edison. Eu já tinha dito muitas vezes a eles que era preciso esperar que o acordo com a Edison saísse. Pelo visto, a PG & E não acreditou ou não quis a concretização do acordo. Eles emitiram US$ 50 milhões em bônus e mergulharam de cabeça na concordata.
BW: Por que comprar as linhas de transmissão das companhias de serviços públicos é uma boa idéia?
Davis: Faz quinze anos que as linhas de transmissão precisam ser reformadas na Califórnia. Em um mercado desregulamentado, os investidores vão atrás das altas taxas de retorno. E reformar as linhas de transmissão não gera essas altas taxas de retorno.
BW: Qual será o custo da crise de energia para o estado?
Davis: O dinheiro do fundo mais os juros incidentes serão repostos integralmente até o dia 30 de junho. Rezo pelo dia em que poderei me dedicar novamente à causa que inspirou a minha candidatura: a educação. Do dia 19 de dezembro, quando finalizei a proposta orçamentária, até hoje passei no máximo dez horas ocupado com outros assuntos que não a crise de energia.
BW: Certos analistas dizem que o sr. deveria ter usado seus poderes especiais em caso de emergência para forçar a construção de novas usinas.
Davis: A pior coisa que pode acontecer a um governante é dar uma ordem que ninguém quer obedecer. Todos querem que eu desaproprie essas usinas. Mas sabe o que aconteceria? Os produtores simplesmente deixariam de fornecer a energia de que precisamos. Eles diriam: "Tudo bem, perderemos dinheiro por duas semanas, mas é você que ficará nas trevas." E todo mundo acabaria por me recriminar dizendo: "Que péssima jogada ." Nos últimos 12 anos não se construiu sequer uma usina nova no estado. Desde abril de 1999, aprovei projetos de 12 novas usinas de geração elétrica, 7 dos quais já estão em construção. Até o final de 2003, teremos mais oferta de energia do que demanda. George Bush e eu temos uma qualidade muito subestimada: não nos deixamos levar por grandes expectativas.