Se a reportagem estiver correta, estamos outra vez assistindo a mais uma jogada arriscada de um apostador. Os 22% de reserva parece muito mas, para essa época do ano, é um estoque baixo, uma vez que, além de atender a carga de energia é necessário acumular água para o próximo período seco. É bom não esquecer que a "usina virtual" da economia do consumidor pode ser desligada a qualquer momento.
Além disso, como mostra a reportagem do Valor Econômico, a oferta não está aumentando, apesar das escorchantes tarifas.
Governo planeja criar estoque para garantir fornecimento (Estado de S. Paulo 28/11)
Quando reservatórios atingissem um ponto crítico, termoelétricas seriam acionadas
NICOLA PAMPLONA
RIO – O governo planeja a criação de uma espécie de estoque estratégico de energia para o País. A medida, que vem sendo discutida na Câmara de Gestão da Crise de Energia (GCE), prevê a criação de um nível mínimo dos reservatórios das hidrelétricas. Toda vez que esse nível for atingido, as turbinas serão desligadas e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) despachará a energia gerada por termoelétricas.
De acordo com o presidente do ONS, Mário Santos, as termoelétricas mercantis, que não têm contrato firme de venda de energia, poderiam ser usadas no sistema. Neste caso, o governo teria de criar um seguro para garantir a rentabilidade dos empreendimentos enquanto eles não estiverem gerando energia. O seguro funcionaria como a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), taxa incluída nas tarifas das distribuidoras de energia e paga por todos os consumidores de eletricidade do País para comprar combustível para térmicas em sistemas isolados da Região Norte.
Santos não considera alarmante a redução da economia de energia apresentada nos últimos dias, já que a população deixou de economizar no período em que começou a chover. O presidente do ONS acredita que, caso as chuvas se mantenham em 75% da média histórica nos próximos meses, haverá pouca necessidade de uso das térmicas emergenciais. Os reservatórios estão com 22% de sua capacidade no Sudeste, um ponto porcentual a mais que em novembro de 2000.
Com o racionamento mantido, ainda que em menor escala, e as chuvas caindo, o problema a curto prazo está resolvido. Para resolver o problema estrutural, é preciso que o Programa Prioritário de Termeletricidade (PPT) ande", disse. Para 2002, o PPT prevê o acréscimo de quase 1 mil MW no sistema interligado brasileiro.
Verão é o fator principal do alto consumo (Estado de S. Paulo 28/11)
Desde o início do mês, índice aumentou quase 40% nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste
RENÉE PEREIRA
A elevação da temperatura nas cidades fluminenses e no litoral paulista tem sido um dos principais fatores da queda na economia de energia das Regiões Sudeste/Centro-Oeste e não o anúncio, feito na semana passada, da redução das metas, como se tem especulado. Desde o início do mês, o consumo diário aumentou quase 40%. O pior índice foi registrado sexta-feira, quando houve apenas 7,5% de economia; na segunda-feira, esse número fechou em 10%.
Na área de atuação da Light, no Rio de Janeiro, o aumento mais expressivo do consumo começou no dia 21, quando a média de temperatura no Estado saltou de 29,9 º para 35,4 º, explica o superintendente da empresa, Paulo Morais. Essa elevação foi responsável por um crescimento de 56% no uso de energia. "A economia de eletricidade caiu de 19,1% para 8,4% na nossa área de atendimento."
Enquanto isso, o nível de consumo nas cidades metropolitanas de São Paulo tem se mantido num nível razoavelmente estável. Na Eletropaulo, a média de economia dos últimos cinco dias foi de 21%. Mas, na segunda-feira, o índice ficou em 18,9%. Na Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), a economia de eletricidade continua bem acima da meta de 20% estabelecida pelo governo.
Desde o dia 19, o menor índice foi de 25,9%.
Já na Bandeirantes, que cobre as cidades de Caraguatatuba e São Sebastião, no Litoral Norte, a redução do consumo diário ficou em 14,16% na segunda-feira; na Piratininga, que abastece parte da Baixada Santista, a economia caiu para 14,94%. A justificativa de técnicos do setor é a chegada do verão. "Com o aumento do calor, fica difícil reduzir o consumo", argumenta Morais, que se diz preocupado com a elevação dos índices da Light.
Pelo menos, os reservatórios da região continuam no mesmo nível, com uma pequena alta. De 31 de outubro até agora, houve um aumento de 1,53 ponto porcentual nas bacias. Mas a situação é crítica na Represa de Marimbondo, onde o nível de armazenamento de água está em 7,59%. Emborcação e Itumbiara também apresentam volumes baixos, com 9,84% e 9,71%, respectivamente.
Oferta de energia vai crescer muito menos do que o previsto pelo governo (Valor 28/11)
Fábia Prates e Roberto Rockmann , De Brasília e São Paulo
Foto: Rafael Jacinto/Valor
Pio Gavazzi, da Fiesp: muitos projetos novos ainda são uma incógnita
A redução do racionamento pelo governo é vista como temerária pelos empresários. E um dos maiores motivos é que já começam a surgir dúvidas se os 20 mil MW previstos pelo governo para entrar nesse e nos próximos dois anos vão entrar mesmo dentro do prazo. "Muitos projetos são uma incógnita. Nesse ano, já há vários problemas, e, em 2002, com as indefinições alguns projetos podem ficar atrasados", diz o diretor de infra-estrutura da Fiesp, Pio Gavazzi.
Para esse ano, estava prevista a entrada de 4 mil MW, sendo que mais de mil MW seriam importados da Argentina. O que não vai ocorrer. "Nesse ano devem entrar menos de 3 mil MW", diz o presidente da Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques. Primeiro, porque a importação de 500 MW da Argentina feita pela Companhia de Interconexão Energética (Cien), que deveria entrar em dezembro desse ano, ficará para março de 2002.
Dificuldades para a liberação de equipamentos importados na alfândega para a construção de linhas fizeram com que a conclusão da obra fosse adiada por alguns meses.
Outra importação que estaria prevista para entrar esse ano era da Tradener, que iria comercializar a entrada de 450 MW. "Mas houve entraves diplomáticos e essa importação não entra esse ano", aponta seu diretor, Walfrido Ávila, que diz não saber quando poderá comercializar essa energia.
A Eletrobrás, que seria parceira do negócio, suspendeu as conversas com a empresa importadora, porque teme que os direitos sobre o volume importado -na prática uma troca com o Paraguai para liberar ao Brasil parte de sua cota em Itaipu- seja reivindicada pelas distribuidoras brasileiras e também se constitua em objeto de discussão sobre os excedentes da empresa binacional.
O problema foi apresentado ao presidente Fernando Henrique Cardoso e será novamente pauta de reunião da Câmara de Gestão da Crise na próxima semana. A projeção do Ministério de Minas e Energia era de entrada de 1048 megawatts via importação neste ano, mas até agora o realizado foi de apenas 98 MW e não há possibilidade de incremento. A previsão até dezembro de 2003 é importar 2,8 mil MW.
A Eletrobrás disputa na Justiça com as distribuidoras os direitos sobre o que chama de excedentes de Itaipu -as duas partes reivindicam o direito de comercialização, de olho na venda no Mercado Atacadista de Energia (MAE). Depois de pareceres favoráveis às empresas no âmbito administrativo, a Eletrobrás conseguiu liminar na Justiça que suspende o faturamento dos excedentes no MAE. "A disputa na Justiça deixa o assunto sobre a cota de Itaipu em suspenso", afirmou o diretor da Eletrobrás, Márcio Zimerman.
A importação da Tradener já estava atrasada devido a um questionamento do Itamaraty sobre o acordo de troca entre Brasil e Paraguai. A resistência da Eletrobrás em dar continuidade ao acordo de parceria deixou a situação mais complicada e a importação deve ser retirada do programa de aumento de oferta.
A energia importada da Argentina iria para o Paraguai – de Yaciretá para Assunção – e a Ande (a Eletrobrás do Paraguai) abriria mão de parte de sua cota em Itaipu em favor do Brasil. A energia seria encaminhada pelo sistema de transmissão da estatal binacional. A parceria com a Eletrobrás é indispensável porque ela é responsável pela energia de Itaipu.
Também está atrasada em cinco meses a importação de outros 500 MW de energia da Argentina, que deve ser feita pela Cien. Equipamentos para instalação da estação conversora ficaram retidos no porto por falta de documentação sobre incidência de impostos. A entrada no sistema foi reprogramada para março e junho de 2002.
A Eletrobolt, térmica da Enron, que iria agregar 350 MW ao sistema neste ano, está parada, segundo sua assessoria. A planta, cuja intenção era comercializar no mercado livre, está esperando uma definição do MAE, cujas contabilizações foram interrompidas mais uma vez.