Sem incentivos, fabricantes de painéis solares agonizam no Brasil – O GLOBO

 

Análise do ILUMINA: Será que há um plano de neocolonialismo ocluso?

Enquanto o mundo já tem mais de 400 GW de capacidade de geração de energia do sol, o Brasil, um dos países mais ensolarados do planeta, tem pouco mais de 3 GW! A China está chegando a 130 GW, a Alemanha, com a metade da irradiação solar brasileira já tem 50 GW!

Como se não bastasse, a notícia abaixo mostra que o Brasil praticamente expulsa as fábricas de equipamentos. Mantida essa política, teremos mais um setor industrial desprezado gerando déficits na balança comercial. O país caminha celeremente para o passado agro-mineral.

O vexame é ainda maior quando se sabe que o temos um sistema de reservatórios hidroelétricos que, se bem cuidado e gerido, funciona como um “pulmão”, podendo “estocar” sol e vento, como uma certa pessoa tentou explicar numa forma atabalhoada.

Um sistema onde fontes intermitentes geram energia sem o comando do operador nacional, para poder atender a demanda, impõem uma coordenação global tanto na operação quanto no planejamento das fontes não intermitentes. Parece óbvio, mas, combinando com essa desanimadora notícia, o Brasil vai deixar ao “mercado” decidir. Por isso o fracasso registrado na reportagem.

No Brasil, qualquer coisa que indique coordenação é vista como “interferência” do estado e, como vemos todos os dias, há um dominante e invencível diagnóstico de que o estado brasileiro não presta e deve ser minimizado. Isso acontece mesmo em áreas onde o conceito de coletivo deveria prevalecer. A confusão entre estado e governo é total. Abaixo, uma das consequências.


POR ROBERTA SCRIVANO

Em 2016, o governo não economizou promessas para atrair para o Brasil fabricantes de painéis fotovoltaicos, placas solares para geração de energia. Com o barateamento da tecnologia e o crescimento dos projetos para erguer usinas solares, fazia sentido estimular a fabricação dos equipamentos no país. Três empresas de capital chinês instalaram fábricas por aqui. Dois anos depois, os incentivos não se confirmaram e elas preparam as malas para ir embora.

A S4 Solar, em Suape (PE), já fechou as portas. A BYD deu férias coletivas aos 460 funcionários de sua fábrica em Campinas (SP) e pode encerrar a operação de vez até dezembro. Já a Canadian Solar, instalada em Sorocaba (SP), deu férias coletivas e depois cortou dois terços da força de trabalho. Opera atualmente com apenas um terço da capacidade.

‘TRIPÉ’ NÃO VINGOU

As três empresas chegaram ao país em 2016 atraídas pelo que o governo chamava de tripé de sustentação da energia solar: demanda garantida com a entrada de usinas solares em leilões de eletricidade, financiamento a taxas baixas só para usinas que utilizassem painel fotovoltaico nacional e isenção de impostos (PIS/Cofins e IPI) para a compra de componentes usados na fabricação dos painéis. Nenhum dos três compromissos vingou.

A isenção dos impostos dependia da inclusão dos painéis no chamado Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis). Para isso, era necessário o aval de três ministérios: Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Fazenda. Só a Fazenda ainda não assinou —e retém o documento desde outubro do ano passado.

— As solares foram retiradas dos leilões. A isenção de impostos, não aconteceu. E surgiram linhas de crédito mais baratas para financiar usinas com painéis importados. Ou seja, o tripé não existe — diz Adalberto Maluf, diretor da BYD, empresa que investiu R$ 150 milhões na construção da fábrica de Campinas. — Temos a real chance de fechar até o fim do ano se o compromisso feito pelo governo não for cumprido.

O mesmo diz Wladimir Janousek, diretor da Canadian Solar, sediada no Canadá e com controle chinês. Segundo ele, o tripé “foi o principal motivador para o investimento” no Brasil. Para erguer a fábrica em Sorocaba, foram gastos R$ 90 milhões.

Na visão do executivo, o cancelamento da participação da fonte solar nos leilões a partir de 2016 foi a “quebra de compromisso mais impactante para o negócio”. Em 2014 e 2015, as usinas solares venderam eletricidade em leilões de reserva. No último, o preço da fonte chegou ao patamar mais baixo já registrado, de R$ 145 por megawatthora (MWh). O preço médio do MWh de uma termelétrica movida a diesel é R$ 270.

—Ter a garantia de demanda com a venda nos leilões é vital para que a gente tenha cadência na produção. Esse elo foi rompido com a quebra da garantia dos leilões —reclama Janousek.

‘AMBIENTE HOSTIL’

Para o economista Armando Castelar, professor da FGV, a situação é um retrato do “ambiente hostil de negócios no Brasil”, que não permite previsibilidade:

—O ambiente de negócios é muito ruim no Brasil, e, para compensar essa anomalia, o governo dá subsídios para quem grita mais alto, o que piora ainda mais a situação. Para resolver, é preciso fazer reforma tributária, baixar custo de capital, reduzir insegurança jurídica e deixar as empresas florescerem.

Em busca de uma saída, BYD e Canadian estão adaptando suas linhas para a fabricar painéis de uso residencial — que são menos potentes e mais baratos que os usados nas usinas solares.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Fazenda não respondeu. A Receita Federal não quis se manifestar. O Ministério de Minas e Energia informou que “prioriza a participação das fontes limpas e renováveis na matriz energética, entre elas, a solar”.

Categoria

8 respostas

  1. Estamos na contra-mão do desenvolvimento. Cada vez mais me convenço de que o Brasil tem saída: A porta!
    Não tem nada que funcione em termos de trazer investidores para o país. Fracassamos com as montadoras, com a indústria de tecnologia de ponta, com investidores do agronegócio e agora com as energias renováveis. Sem contar com o transporte ferroviário que está falido e não tem condições de dar vazão à produção. Países como os Estados Unidos utilizam sua grande malha ferroviária para escoar sua produção com perda muito baixa, ao passo que no Brasil quando se viaja de carro pelas BRs é comum ver caminhões derramando grãos na rodovia durante o transporte o tempo todo! Que interesses há por trás disso? Quem ganha dinheiro com tudo isso? Quando respondermos estas perguntas e colocarmos na cadeia estas pessoas, pode ser que tenhamos alguma chance.

  2. Me Dedico as fontes renovaveis a 8 anos em um modesto projeto criado por mim,intitulado “consultoria solar cidada” isso apos voltar a estudar depois dos 54 anos.

    O papel desta iniciativa e levar conhecimentos basicos ao cidadao menos esclarecido,em demonstracoes praticas publicas por sistemas compactos projetados e construidos por mim.

    E nestes relatos acima de Srs.com grau de conhecimentos excepcionais,de fatos que inclusive Eu desconhecia,o impressionante papel do Brasil desenvolver fabricar celulas solares para satelites,de ter havido empresas com este fim, e hoje vivermos esta pouca vergonha,de exportar silicio para fora,e continuarmos como colonia e ainda prometendo e nao cumprindo,com aqueles que ainda tentam dar um aval,ao vergonhoso Brasil,e de deixar qualquer um com o S.cheio.

    Isso e tao verdade, que aos que mais necessitam de uma energia mais barata e de quebra dar sua contribuicao com o meio ambiente,80% dos lares da nacao,cujos sistemas fotovoltaicos necessarios,se situam abaixo de 10 kwp,ainda nem em sonho,tem estruras financeiras para adiquirilos,e o BNDS so conversa,pois os juros para pessoas fisicas ou linhas de creditos,e so balela.

    Portanto, nao em vao,o pessimismo,preocupacao com esta inovacao e esperancas no empreendedorismo dos que acreditam e investem,e o paradigma do socioambiental!!

  3. Leandro.

    Seu relato é muito bom para esclarecer algumas coisas que vem acontecendo no Brasil, nas últimas duas décadas.
    É surpreendente como esse país gosta de se manter atrás de países que tem menos potencial do que ele.

  4. Somos uma colônia. Não mais do que uma republiqueta sul americana subjugada pelas grandes potências, detentoras de tecnologia.
    Afirmo isto pelos seguintes fatos, pois os vivenciei e acompanhei: Nos anos 90, o Brasil produziu painéis solares de grau espacial para aplicação nos satélites dos programas MECB (Missão Espacial Completa Brasileira), que visava desenvolver tecnologia nacional para construção e lançamento de satélites, e o programa CBERS, (China-Brazil Earth Research Satelites), que, por meio de parcerias desalinhadas com as potências a que me referi, desenvolviam a tecnologia no Brasil e na China, esta última já sabemos onde chegou, mas porque nós não chegamos no mesmo patamar? Eu os montei com estas minhas duas mãos que a terra há de comer e com as mãos dos meus colegas, que terão o mesmo destino.
    Bom, assume a presidência o Sr. FHC, com o país sufocado por uma dívida interna e externa gigante deixada pelos seus antecessores militares e pela hiperinflação de largos bigodes. Pede dinheiro ao FMI, que prontamente dita os rumos dos investimentos brasileiros e determina o corte de todo e qualquer programa de desenvolvimento tecnológico brasileiro. Ora, convenhamos, tecnologia é a base para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país, mas faz concorrência com os patrocinadores do fundo…
    Programa suspenso, iniciei a busca por alternativas para manter a equipe até que alguém decidisse, algum dia, retomar o projeto (como ocorreu após nos livrarmos do tal FMI), mantendo o conhecimento na empresa (Digicon S.A. em Gravataí, RS). Pesquisei o mercado de painéis solares de uso terrestre e descobri o programa PRODEEM, que levava energia elétrica fotovoltaica para comunidades remotas, pois na época, uma instalação somente era viável à partir de 5 km de distância da rede. Descobri então que o programa era subsidiado por um outro fundo internacional (BID), mas que não poderia ser utilizado para produção, apenas para instalação de equipamentos importados dos países que patrocinavam o tal fundo. Um subsídio por tabela para desenvolver tecnologia lá fora às nossas custas, pois o financiamento, apesar de barato, não era perdido. Um senhor alemão lutava àquela época, inicio deste século, pela única fábrica de painéis solares nacional, mas descobri, conversando com ele, que estava sendo muito incentivado, mas para fechar suas portas. “Nunca concorra com a Siemens”, me dizia ele. “São muito éticos, mas lá no meu país. Aqui a coisa é diferente”.
    Imaginava que agora, por ser signatário dos acordos internacionais pela redução dos gases de efeito estufa, que o Brasil finalmente entraria para o rol dos países que incentivam a produção de energia limpa e renovável, e estava fortemente inclinado a tentar me lançar nesta aventura saudável, mas com a notícia que li aqui e relembrando a nossa condição de republiqueta, cujos governantes têm preço baixo visto que o risco de serem presos é quase zero (o “quase” é bem recente na nossa história), volto a desanimar. O Brasil dificilmente irá desenvolver-se em qualquer área de tecnologia que possa incomodar minimamente a indústria dos países desenvolvidos. Devemos assumir nossa condição de produtores de commodities agrícola, mineral, samba e carnaval (só prá rimar). Infelizmente.

    1. Leandro;

      Concordo com seu diagnóstico pessimista. Essa também é minha visão, mas uma coisa é ser pessimista, outra coisa é desistir. Nós estamos tentando há 22 anos. No caso brasileiro, com o nosso nível de insolação e as perspectivas futuras de avanço tecnológico, essa dependência é vergonhosa. Além do setor fotovoltaico em si, teríamos que estar estudando o seu impacto sobre o sistema integrado.
      Esse seu testemunho merecia mais do que apenas um comentário. Convido você para escrever um artigo no ILUMINA contando em detalhes sua experiência. O CEPEL teve um programa de energia solar há tempos e ao que parece, foi abandonado.

  5. Pelo visto, quem ofereceu condições favoráveis (o tripé) não tinha condição de entregar. Por outro lado, a demanda de energia elétrica estagnou e o leilão de eólicas e solares, previsto para dezembro de 2016, foi adiado, pois nas condições daquela época mais energia de “reserva” aumentaria os encargos do sistema e, portanto, as tarifas.
    No entanto, com sua matriz elétrica relativamente limpa, o Brasil tem muito condições para fabricar painéis fotovoltáicos, onde a produção de silício de grau solar consume muita energia elétrica. Além de boas condições para utilizá-los.

    1. Pietro;

      Realmente, o formato de contrato de energia de reserva é um custo extra e o ILUMINA sempre se posicionou contra esse “band-aid” na “garantia física” superdimensionada.
      Usinas solares também exigem condições especiais de transmissão, o que deveria ser muito bem avaliado.
      Mas ficar dependente de importação um país com tanto potencial certamente é uma decisão absurda. Os painéis solares para uso residencial continuam sendo importados.

Deixe um comentário para pietro erber Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *