Sem reservatório?
Quem lê a reportagem abaixo fica pensando que precisamos de muita geração térmica por "falta de capacidade de armazenamento". Como se sabe, no racionamento, o sistema desestocou suas reservas por falta de novas usinas, quaisquer que fossem seus tipos e não apenas pela falta de novas usinas com reservatório. A reportagem não faz referência ao papel do sistema de transmissão nesse quadro. É fundamental que se compreenda que no sistema brasileiro, fio pode ser reservatório virtual. A capacidade real de armazenamento do sistema aumenta com o grau de interconexão elétrica. É necessário entender que parte do aperto energético de 2001 poderia ser evitado simplesmente com mais linhas de transmissão entre sul e sudeste. A Europa, só agora está descobrindo as vanagens da interligação de seus sistemas. Os Estados Unidos apesar de grande consumidor de energia tem sistemas desconexos. Essa é uma vantagem comparativa brasileira que correu perigo no modelo de mercado do governo FHC. A relação entre a capacidade de armazenamento e capacidade de geração firme (7:1) ainda é bastante significativa. É claro que essa relação tenderá a diminuir com a adição de novas usinas a fio d’água, mas o sistema ainda permanecerá um respeitável sistema de regularização plurianual por muito tempo. Aliás, continuará único no mundo!
Novas hidrelétricas podem não evitar racionamento (E. S. Paulo 23/12)
Maioria das 113 usinas programadas para os próximos anos não tem reservatórios
RENÉE PEREIRA
O sistema elétrico brasileiro deverá ganhar nos próximos anos 113 novas usinas hidrelétricas, de pequeno e grande porte. Mas quase 90% dessas unidades não terão reservatório para armazenar água. Ou seja, a construção das usinas aumentará a potência instalada no País, mas não vai alterar muito a capacidade de estoque de água no sistema. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), do total a ser instalado, apenas 13 usinas licitadas entre 2001 e 2002 terão reservatório.
Em 2001, o racionamento foi provocado exatamente pela falta de capacidade de armazenamento e não por falta de potência. Com o aumento progressivo da demanda de energia, o sistema passou a operar com capacidade máxima de geração. E as hidrelétricas foram perdendo poder de reposição de água nos reservatórios.
Até hoje, o nível das represas nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste continua baixo, comparado a anos anteriores. Em 1997, por exemplo, os reservatórios do Sudeste terminaram o ano com 66,3% da capacidade total de armazenamento, e o Nordeste com 73,8%. Este ano, até o dia 18, as represas estavam com 40% do total no Sudeste e 16,75% no Nordeste.
As usinas sem reservatório, chamadas de fio d’água, ajudam a poupar a água consumida em algumas represas, mas em períodos de seca pouco podem fazer. Isso porque essas unidades geram energia apenas com o fluxo de água do rio.
Assim, em períodos de seca, sua geração de eletricidade tende a diminuir. O que pode ser perigoso para o sistema elétrico, principalmente com a retomada de crescimento e o conseqüente aumento do consumo de energia.
Térmicas – O ideal, avaliam especialistas, seria ter uma matriz energética mais equilibrada, com outras fontes de energia gerando nos momentos em que a hidrologia fosse desfavorável. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Geradoras Térmicas (Abraget), Xisto Vieira, num sistema hídrico é preciso avaliar tanto o aspecto estrutural do sistema como o conjuntural. Além do aumento da potência instalada, o regime de chuvas tem importância relevante no planejamento.
A mesma opinião tem o integrante do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), José Goldemberg. Segundo ele, o País precisa apostar mais na expansão do número de térmicas no País. Atualmente, segundo dados da Aneel, 80% da matriz energética brasileira é hídrica e apenas 17%, térmica. Mas, nesse total, o órgão regulador inclui usinas movidas a óleo diesel, cuja energia é muito mais cara, e também com o bagaço de cana-de-açúcar. "Seria uma forma de seguro; nos momentos de seca, com reservatórios baixos, usaríamos as térmicas."
Mas, segundo dados da Abraget, das 39 usinas a gás natural previstas no Programa Prioritário de Termoeletricidade (PPT), com capacidade para gerar 15.599 megawatt (MW), apenas 10 foram concluídas (2.484 MW). Outros 16 projetos, de 5.147 MW, foram suspensos e sete, de 4.041 MW, estão com o cronograma em atraso. A questão é que as usinas a gás natural dependem de várias pendências que precisam ser resolvidas com urgência. Um deles é o preço do combustível, que segundo o novo governo será motivo de negociação.
Para o superintendente de Estudos e Informações Hidrológicas da Aneel, Helvio Neves Guerra, embora haja um número grande de usinas a fio d’água, as unidades com reservatório têm grande capacidade de armazenamento. Ele reconhece, no entanto, que se entrassem em operação apenas as hidrelétricas sem represa, o sistema ficaria mais suscetível ao regime hidrológico. Guerra explica que as 100 usinas a fio d’água têm capacidade para gerar 4,5 mil MW e as 13 com reservatório, 2 mil MW. Para Vieira, o grande número de usinas a fio d’água também está associado à dificuldade para adquirir licenças ambientais. Segundo ele, está cada vez mais difícil inundar áreas para formar lagos.
O presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques, esclarece que a construção de usinas a fio d’água não é ruim para o País, desde que existam outras fontes de energia para complementar o sistema. "É claro que o desejável era ter usinas com grandes reservatórios, pois na seca uma hidrelétrica a fio d’água perde a potência." Para ele, é um "privilégio ter um sistema hídrico tão rico, mas é preciso ter segurança com fontes alternativas."
Dilma indica mudança gradual e revê programa na área de energia (Valor 23/12)
Ricardo Balthazar , De São Paulo
O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva apresentou na campanha um projeto arrojado de reforma do setor elétrico, mas vai pisar com muito mais cuidado nessa área do que o discurso da fase eleitoral sugeria. Anunciada sexta-feira como a futura ministra de Minas e Energia, a economista Dilma Roussef indicou que algumas idéias que apareceram na campanha poderão ser descartadas e deixou claro que as mudanças serão feitas devagar.
Um bom exemplo dessa transição é a atitude de Dilma diante do Mercado Atacadista de Energia (MAE). Idealizado pelo atual governo como uma espécie de bolsa de valores para comercializar sobras de energia e orientar a fixação das tarifas do setor, o MAE nunca funcionou direito, mas as empresas que fizeram negócios ali acumularam uma dívida calculada em R$ 11,5 bilhões.
Durante a campanha, o PT divulgou um programa em que propunha a extinção pura e simples do MAE e não dizia uma palavra sobre as dívidas. Na semana passada, Dilma, o atual governo e as empresas fecharam um acordo pelo qual metade da dívida será liquidada nesta semana, logo depois do Natal. Perguntada na sexta-feira se o PT vai acabar com o MAE, Dilma disse que a questão ainda está em estudos.
"Do jeito que tem funcionado, o MAE é extremamente perverso, cria riscos desproporcionais e é um foco de problemas", afirmou. "Não penso em manter as condições atuais, mas vamos tratar disso com calma, respeitando a posição de todo mundo, em diálogo permanente com os agentes."
Conforme estabelecido pelo acordo da semana passada, o novo governo promoverá uma auditoria nos contratos do MAE e só depois disso é que a outra metade da dívida acumulada será paga. Em seu primeiro pronunciamento após receber a indicação de Lula, Dilma fez questão de dizer que a primeira parcela também foi paga "de forma condicionada" à auditoria que será feita.
A questão do MAE é relevante porque ele era uma peça importante no modelo que o atual governo tentou implementar e o PT ainda não explicou bem o que porá no lugar. Os petistas têm falado na criação de um sistema centralizado para a comercialização de toda a energia produzida no país, mas ele não está detalhado no programa divulgado na campanha e ninguém sabe direito como isso poderia funcionar.
A indicação de Dilma foi bem recebida por executivos do setor. Com passagem por três organizações de esquerda que combateram a ditadura militar na clandestinidade dos anos de chumbo, Dilma construiu uma sólida reputação profissional nos últimos anos. Foi secretária de Energia do governo gaúcho na atual gestão petista e promoveu investimentos que ajudaram a livrar o Estado do apagão em 2001.
"Ela entende profundamente os problemas do setor e age como uma executiva", disse o presidente da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), Wilson Ferreira Jr., que conviveu com ela na época em que presidiu a distribuidora gaúcha Rio Grande Energia (RGE). "Achamos a escolha muito acertada e estamos otimistas", afirmou o presidente da Associação Brasileira das Grandes Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), Flávio Neiva.
A atuação de Dilma na negociação do acordo do MAE justifica a boa vontade dos investidores. A primeira reação da futura ministra, que nos últimos dois meses cuidou da área de energia na transição, foi brecar a operação e pedir seu adiamento. Mas em poucos dias ela concordou com o pagamento de uma parte da conta, nos termos do acordo. Outro fator que poderá ajudá-la no início do novo governo é que não há risco iminente de falta de energia.
A desaceleração da economia e as chuvas produziram uma sobra que Dilma calcula em 3,4 mil megawatts. Sem a ameaça de outro apagão para preocupá-la agora, ela terá algum tempo para tentar tirar do papel o novo modelo energético proposto por Lula. (Colaboraram Leila Coimbra e Jamil Nakad Junior, de São Paulo, e Claudia Schuffner, do Rio)