Sem surpresas – Artigo

Roberto Pereira D’Araujo

Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico

Corria o fim de 2002 e fui convidado junto com o Prof. Luiz Pinguelli Rosa para uma apresentação das teses desenvolvidas no Instituto Cidadania sobre o setor elétrico para a bancada do PT no Congresso Nacional. Uma cena ficou marcada na minha mente. Como a sessão atrasou, sai da sala do Deputado Walter Pinheiro por uns instantes. Quando voltei, ouvi a voz de Lula perguntando: – Cadê o Roberto D’Araujo? – Naquele tempo, fiquei orgulhoso de ver o líder que tanto admirava saber quem eu era.

O racionamento de energia, resultado da política do governo Fernando Henrique, foi o grande cabo eleitoral do Lula. Afinal, que país obriga seus consumidores a racionarem 25% do consumo de energia sem guerras ou desastres naturais? Que candidato de oposição não se aproveitaria desses erros?

Só que, alguns meses antes do início do governo, escrevemos o documento denominado “Diretrizes e Linhas de Ação para o Setor Elétrico Brasileiro” no Instituto Cidadania (hoje Instituto Lula) que foi apresentado em pompa e circunstância no Teatro João Caetano no Rio. Assinavam o texto Dilma Rousseff, Luiz Pinguelli Rosa, Mauricio Tolmasquim e Ildo Sauer entre outros.  Participava das reuniões o futuro Ministro Guido Mantega! Tinha a introdução e assinatura de dois futuros presidentes! Como imaginar que tanto esforço fosse apenas peça de campanha?

Lá, na página 17, está escrito que “a gestão das empresas estatais seria feita por profissionais competentes sob contrato de gestão”. Onde foi parar essa tese? Lula colocou políticos que nada entendiam do setor para o comando de empresas estratégicas sob motivos não explícitos. Portanto, escrever uma coisa e fazer o oposto foi uma opção desde a primeira hora do governo.

Na página 16, estava escrito que seria revogada a descontratação da Eletrobras. Era uma meta absurda porque os preços eram mais baratos. Na transição, essa possibilidade foi oferecida ao novo governo, pois, com a queda do consumo, descontratar a Eletrobras e mantê-la obrigada a gerar por ter sua energia baseada em hidráulicas seria decretar um grande prejuízo. Lula implantou exatamente o que o governo FHC imaginou. Enquanto a tarifa dos consumidores subia, implantou-se um verdadeiro Bolsa MW para grandes consumidores e comercializadores no mercado livre à custa da Eletrobras! Os dados estão registrados e podem ser confirmados.

Muitas outras frases eram ilusões. O documento, que desapareceu do Instituto Lula, está repleto de falsas teses. Entre elas: Independência e fortalecimento das agências reguladoras, hoje totalmente politizadas. Incentivo a fontes não poluentes, quando o governo contratou caras térmicas a óleo e diesel! Geração de energia sob regime de serviço público, quando o que foi implantado foi o de produtor independente! Recuperar a capacidade de autofinanciamento do setor, trucidada com a lei que baixou as tarifas artificialmente, pois quebrou a Eletrobras obrigada a vender um MWh por menos de R$ 10, sem que se possa perceber esse “tiro no pé” tal os altos preços dos outros agentes.

Se havia um assunto onde Lula e sua sucessora não deveriam trair, seria o setor elétrico, pois ambos foram eleitos a partir de promessas. Infelizmente, as nossas incompletas instituições permitem que tais “cambalhotas” possam ser realizadas sem consequências. Mas, na minha ingenuidade de outrora, imaginei que Lula havia sido eleito para mudar isso e não para aprofundar esse estelionato.

Alguns podem interpretar esses fatos como “pequenos deslizes” compensados com sucessos em outras áreas. Não há como aceitar essa tese, pois isso corresponderia a não reconhecer a importância da energia elétrica na economia brasileira e o simbolismo da falsa defesa das empresas estatais na campanha de 2002. O ponto principal não é o resguardo de empresas públicas, mas sim a falsidade de promessas de autoridades políticas.

Assim, para quem viveu essas traições, hoje esquecidas, a atual crise política que parece jogar o país no abismo não chega a ser surpreendente. É apenas mais do mesmo.

 

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6 respostas

  1. Agamenon, Cada um dos seus comentários são totalmente corretos e verdadeiros .

    Todos ficaram pasmos e tristes quando foram descartadas as recomendações do Programa de Energia elaborado pelo Instituto da Cidadania em 2002 , lançado com a presença do Lula no Clube de Engenharia em 30 de abril de 2002.

    Mesmo esse programa somente tangenciava , como quem pisa em ovos, a tese do controle das empresas publicas pela sociedade,
    numa busca teimosa de empresas PUBLICAS E CIDADÃS. Como as definiu Betinho.

    Estas tristes constatações não justificam abandonar a luta e o enfrentamento do golpe em marcha.

  2. Corrigindo alguns deslizes de redação nos comentários anteriores

    * ….se manifestar contra o fascismo.

    ** … parece que o ódio a Dilma prevalece…………….e passa pela minha cabeça que só falta o Ilumina imitar a FIESP
    e publicar uma matéria com RENUNCIE.

    *** … como você ,quiçá por ato falho , escreveu no topo do texto.

  3. Meus Caros
    Com todo conhecimento (será?) que agora temos sobre os governos Lula e Dilma podemos entender melhor este questionamento do Roberto. Os governos Lula e Dilma decidiram não fazer os enfrentamentos com os setores que hoje lhes fazem cerrada oposição. Assim, foram se afastando do programa que era sua marca registrada. Preferiram administrar as empresas e se apoiar em indivíduos como Delcídio do Amaral que hoje cria sérios problemas neste momento de crise politica. O caso de Delcídio não é exceção, mas a regra. Quando Ildo Sauer assumiu a diretoria da Petrobrás fez um relatório mostrando que os contratos assinados pela diretoria de Delcídio eram lesivos a empresa e ao país. Desgostoso com Ildo, Delcídio pediu a Lula que o demitisse, o que de fato aconteceu. Eles preferiram administrar com essas pessoas e não com quem lhes dava sustentação e eram seus aliados estratégicos. Pinguelli não lhe dava nenhum voto na Câmara nem no Senado e foi substituído. Foi instalado o jogo fisiológico e a ocupação dos espaços públicos com o critério da acomodação de interesses, nem sempre os mais nobres. Deu no que deu.

  4. \Ia esquecendo: O Ilumina não é há muitos anos do “setor elético” como você, quiçá por ato falho, posto
    no topo do texto

  5. 1 – O setor elétrico merece as análise feitas por Roberto D’Araujo.

    2 – Entretanto, parece-me que , nesses dias do cão fascista, a ONG deveria se manifestar contra o fascism.

    3 – Parece-me que o ódio a Dilma prevalence e , passa pela minha cabeça, que só falta o Ilumina , tal como a FIESP
    hoje 17 de março, publicar um RENUNCIE .

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