Tápias defende modelo de gestão profissional para a geradora Sugestão do ministério é contratar executivos que atuam no mercado CLEIDE SÁNCHEZ RODRÍGUEZ O modelo de gestão é …

Tápias defende modelo de gestão profissional para a geradora

Sugestão do ministério é contratar executivos que atuam no mercado


CLEIDE SÁNCHEZ RODRÍGUEZ


O modelo de gestão é um dos pontos cruciais no formato que Furnas vai adquirir depois da oferta pública das ações. O ministro da Indústria e Comércio, Álcides Tápias, tocou nessa questão quando esteve em São Paulo, no início da semana. "É imprescindível uma gestão totalmente profissional", disse, destacando que, entre as sugestões encaminhadas pelo ministério, estava a contratação de executivos do mercado, selecionados por empresas de recursos humanos (head hunters) e pelo próprio governo, que permanecerá no controle de Furnas.


Os detalhes da privatização e o cronograma da sua execução não foram anunciados ontem pelo presidente Fernando Henrique, que apenas deu as linhas gerais da venda da empresa. O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciará futuramente o modelo da pulverização.


Os constantes atrasos na venda de Furnas e a possibilidade de a empresa não ter uma gestão independe e profissional, segundo analistas, provocam incertezas em relação ao futuro da companhia, sempre muito vulnerável a ingerências políticas e presa a um violento corporativismo.


O ministro Tápias ressaltou, em São Paulo, que a gestão profissional vai permitir à empresa obter recursos com instituições nacionais e internacionais, para tirar da gaveta os vários projetos de investimentos na modernização e expansão. Ele afirmou, também, que o profissional terá de apresentar projetos que ganhem a confiança do público, para as pessoas se sentirem motivadas a compras as ações.


Furnas é a maior geradora de energia elétrica do País – com capacidade de mais de 10 mil megawatts – e a mais lucrativa também. Fechou o ano de 2000 com lucro de aproximadamente R$ 630 milhões. Parte desse total, porém, foi utilizado para amortizar dívidas com o mercado atacadista de energia.


Segundo analistas, Furnas tem bons ativos, mas um índice de eficiência baixo, justamente pela falta de investimentos.


O presidente anunciou que ficará mantida a venda pulverizada das ações e a separação das atividades de geração e transmissão de energia, modelo que segue a tendência internacional e também foi fixado na privatização da Companhia Energética de São Paulo (Cesp).


Decisão sobre Furnas divide especialistas

Modelo pode afastar investidores, mas talvez contribua para revigorar o mercado de capitais


RENÉE PEREIRA


O novo modelo de privatização de Furnas dividiu as opiniões do mercado. Parte dos analistas entende que as regras adotadas pelo governo para a venda da empresa terão repercussão negativa no setor, o que pode afastar novos investimentos. Por outro lado, no entanto, o sistema pode fortalecer o mercado de capitais ao abrir espaço para que todos os acionistas da empresa passem a ter tratamento igualitário, argumentam especialistas.


Segundo o analista do Banco Dreyfus Brascan, André Segadilha, o problema do novo modelo é que o governo vai continuar no comando da empresa. Além de não haver um controlador, a companhia sofrerá sua intervenção (por meio da golden share) em decisões importantes, diz. "Agora, basta saber qual o grau de interferência dessa golden share." Atualmente, o governo tem poder de veto na Embraer e Vale do Rio Doce. Nesses casos, no entanto, a interferência, por enquanto, não causou empecilho, diz.


O presidente da Câmara Brasileira dos Investidores de Energia Elétrica (CBIEE), Roberto Procópio Lima Neto, também teme a manutenção e o uso da golden share pelo governo. "Temos de avaliar muito bem que tipo de intervenção poderá ser feita: se for para garantir a estabilidade de produção, é uma coisa. Definir o presidente e cargos diretores para privilegiar interesses políticos, é outra." Para ele, o melhor que o governo tem a fazer é definir quem poderá participar do conselho de administração da nova companhia e estimular a escolha de um gestor independente, sem ligações políticas.


Investidores ­ Na opinião do analista da Tendências Consultoria, Armando Franco, a posição adotada pelo governo pode afastar novos investidores para o setor, pois pequena parte do mercado é privada. "Quem garante que o Estado não vai manipular os preços em uma situação complicada para o País, como a elevação da inflação, por exemplo?"


Além disso, diz Franco, ao definir que a empresa não terá um controlador, o governo infringe as normas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Segundo ele, a legislação estipula que o concessionário assine termo de compromisso 15 dias após a privatização. "O problema que o modelo não define esta figura na empresa."


Outra questão preocupante, de acordo com Franco, refere-se aos futuros investimentos da empresa, ou melhor, quem vai injetar dinheiro para que a companhia amplie seu parque gerador se a iniciativa privada está "fora do jogo." De acordo com o modelo, o governo vai continuar determinando os rumos do capital da empresa. Para alguns, isso é positivo, pois a União tem mais facilidades para conseguir financiamentos para novos projetos, além de poder facilitar a tramitação burocrática, principalmente em aspectos ambientais, para a construção de novos parques geradores, térmicos ou hidroelétricos.


O analista do setor de energia da Sudameris Corretora, Marcos Severine, no entanto, tem opinião oposta. Ele acredita que a pulverização estimula o ingresso de investimentos no setor de fontes diferentes dos atuais ‘players’ do mercado. "Pela estrutura do conselho de administração da nova empresa, quem não atua hoje no setor, como alguns fundos de pensão, poderá participar de investimentos." (Colaborou Jander Ramon)


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